Gorda, gostosa e biscate

marcha bh

Teria muitos motivos para odiar meu corpo, para começar, minha barriga sempre esteve aqui, aquela barriga chapada de revista ou das menininhas que na infância tem pernas finas nunca me pertenceu. Quando os hormônios começaram a aflorar e meu corpo cresceu em todas as direções ganhei estrias, daquelas que começam vermelhas (no caso da minha pele muito branca) e vão clareando. Não achava nada demais, até porque, quase todas as meninas da minha idade quando agachavam mostravam esses “risquinhos” nas “bordas de catupiry”. Meus peitos despontaram cedo também, além de ser uma das primeiras da classe a menstruar. Desde muito nova me vi como uma criatura sexual, mas isso não era bem recebido por diversas razões. Entre elas, meninas que dançam rebolando chocam e meninas gordas que gostam de dançar assim, chocam mais ainda. Então eu, que adorava um holofote e tinha desejos secretos de ser aplaudida em um palco, fechei bruscamente. Abusos sexuais, físicos, violência psicológica, um monte de contenções fizeram meu instinto de preservação se encerrar em um casulinho e ficar bem quietinha esperando a tempestade passar. Mas mesmo sem querer, minha libido lembrava que além de uma mente inquietante e um coração febril, meu corpo tinha uma genitália umedecida e tremores frios nas costas, sonhos que levavam para um mundo onde eu desvirginava moços tímidos e lambia seus corpos suados.

Só sei sentar de perna aberta, minha gargalhada é alta e dizem, parece deboche, falo coisas inapropriadas de forma natural em momentos inadequados, na época que frequentava a igreja era um sofrimento ver aquele monte de mocinhos com “cara de bom moço” e pescoços à mostra. Algumas mulheres se depilam para deixar a vagina mais exposta, sentem-se mais livres. Comigo sempre foi o contrário, uma bela buceta peluda me faz sentir sexual, carnal. Adoro sexo e adoro comer, em meu corpo estão inscritas essas preferências. Logo, os prazeres associados ao homem que goza os prazeres do corpo, não são exclusividade. Foi um trabalho intenso de construção e reconstrução da minha identidade até ficar segura o bastante para não fugir mais de meus desejos. Repetiram de formas variadas que meu modo de ser é inadequado, um absurdo. Além de ser gorda, comer sem culpa, gostar de sexo, usar roupas curtas, decotadas, dar em cima das pessoas (homens e mulheres!), falar na lata, dança rebolando! Como é que pode? Não era aquela que tinha de tudo para ter vergonha do que é? Que devia ficar chorando no cantinho, para sempre? Das ideias não convencionais? Das dobrinhas quando senta? Como pode? Usar biquíni, cortar o cabelo, raspar a careca, fazer gestos obscenos e pra completar as contradições…ser articulada e escrever bem. Claro, porque pra muita gente ou se é bonita, ou se é inteligente, ou se tem um belo par de peitos (como os meus) ou tem bom papo. Nunca no mesmo corpo e nunca, nunca mesmo com orgulho. Você pode ter consciência das suas habilidades, mas jamais pronunciá-las em voz alta. Dizem que essas pessoas que gostam de confete e holofote são inseguras, enquanto pessoas tímidas e caladas tem mentes inquietas. Certamente essas dicotomias tem a profundidade de um pires! A diferença é que sou do tipo que se expõe e gosta disso, sente as coisas e fala em voz alta, transborda, vibra. Dizem por aí que há pessoas fáceis e pessoas difíceis, sou partidária que somos fáceis com pessoas interessantes e como conheço muitas delas, me apaixono o tempo todo.

O tesão pode vir em muitas matizes, às vezes é meu período fértil onde flerto quase indiscriminadamente e uma olhada diferente já me faz tremer as pernas, às vezes é uma covinha pronunciada, uma cicatriz, uma voz gostosa, um cheiro bom que veio do abraço, uma gentileza, um sorriso. Já cheguei ao cúmulo de flertar com um mímico que estava atravessando na direção oposta! E deu certo! Já flertei com um gringo ruivo maravilhoso, com a mocinha da loja, com meio mundo! Nem sempre me sinto linda, às vezes me sinto inadequada, torta, incapaz, pequena e esmagada diante de um coro de vozes que zombam de mim e me “colocam no meu devido lugar”. Aparece a amizade e o amparo daqueles que cuidam de mim, lembrando o tamanho dos gigantes que já derrubei, do quanto sou forte e inspiradora, surgem meus amores e amantes pra lembrar que além desse orgulho tenho uma pele macia, um abraço gostoso, uma bunda boa de apertar. Então olho no espelho e vejo que conjunto maravilhoso de traços guardo e o quanto eu sou mais bonita, mais gorda, mais gostosa e mais biscate do que fui em tempos idos e o tanto de prazer que a vida trará. Pois já não me contenta ter apenas a mente aberta, as portas tem de estar escanceadas para que eu possa usar as pernas para cruzar, correr, dançar e quando o desejo for grande, entrelaçar nos sortudos que cruzarem o caminho.

540595_617314221636033_691306795_nDeborah Sá defende a concupiscência, é de esquerda, vegana, feminista e curte fornicar, pratica regularmente o auto-retrato e escreve no blog Aquela Deborah.

 

 

 

 

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7 ideias sobre “Gorda, gostosa e biscate

  1. Delícia você! Quando crescer quero ser bem resolvida assim.
    Adorei aquilo de que “somos fáceis com pessoas interessantes” (e interessadas)! Grande verdade.
    Abs.

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