O gosto dos outros

Eu gosto do gosto dos outros, do cheiro, da saliva. Gosto de língua. Na boca, na nuca, entre as pernas.

Gosto de dentes cravados no ombro dele. Ou na minha bunda. Gosto das unhas nas costas.

Gosto de mãos espalmadas, de suor. Gosto da respiração ofegante. Do gemido na hora da petit-mort.

Gosto da carne entre as minhas mãos. Do corpo entre as minhas pernas. Dele em cima de mim. Dentro de mim.

outros

Cena do filme Um copo de Cólera

Quando dentro de mim, gosto de ver seus olhos e me ver dentro deles. E ver o desejo, a paixão, o tesão.

Tenho pavor do silêncio. Gosto dos palavrões, aqueles que profanam os ouvidos, falados altos ou sussurrados. Gosto de dizer ao mundo (ou só aos vizinhos) que se é feliz nessa casa. Que se come, se bebe e se trepa e só se vicia. Ave Maria.

Tenho pavor de quem tem nojo de si, de mim, de sexo. De quem quer trepar com vidrinho de álcool gel. Detesto até manifestação com gente arrumadinha demais, que dirá de sexo limpinho demais, cheio de regrinha de mais. E com prazer de menos.

Não gosto de quem só faz no escuro, de luz apagada e com a porta trancada. Com medo dos próprios desejos, que não se permite ousar, que não se permite gozar.

Gosto da luz. Do sol ou da lua.

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2 ideias sobre “O gosto dos outros

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