Você Não Acredita No Amor?

“Os amantes estão, de fato,condenados a aprender indefinidamente a língua do outro,
tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis.O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.” (J. A. Miller)

Uma das coisas que frequentemente me perguntam quando me identificam com a biscatage e nosso clube é sobre o amor/paixão (e, não aleatoriamente, relacionando esses temas com monogamia, perpetuidade dos relacionamentos, fidelidade)… “e então, você não se apaixona nunca?”, “você é contra o namoro/casamento?”, “você acha certo alguém trair?” e a mais legal de todas: “você não acredita no amor?” Então eu começo este post dizendo: não, eu não acredito n’O Amor. É esta a questão que vou desenvolver nesse post, mas adianto que sim, eu me apaixono – muito e com intensidade; não sou contra nenhum tipo de relacionamento (mas tenho preferências sobre os tipos de relacionamento onde quero estar), eu não acho certo ou errado alguém “trair”, mas me interessa muito repensar o uso desse termo.

556-13_Eros_Psique_BenjaminWest

Então, voltando ao lance: eu não acredito n’O Amor. Não acredito n’O Amor maternal, filial, fraternal. Não acredito nO Amor romântico, erótico, whatever. Não acredito que O Amor se aposse de alguém. Invada. Domine. Não acredito n’O Amor como entidade, abstração, à parte de alguém, do sujeito. Esse amor maiúsculo, abstrato, anterior a nós mesmos, independente do sujeito que o sente, esse amor – para ficar na frase da moda – não me representa. Não acredito em um Amor que seja em si mesmo, maior do que quem o sente (embora acredite, claro, que nem sempre damos conta do que sentimos).

Penso que o viver é material. Que o sentir é material. Que os amores – sempre no plural – são construídos, aprendidos. E que no processo de construção do amar, construímo-nos sujeitos. E ao nos fazermos únicos, fazemos única nossa forma de sentir. Penso que o amar é na concretude de cada existência. Que amamos não apesar de, mas em relação a: ao lugar, à época, à classe, ao gênero com o qual nos identificamos, pra citar só o básico. Penso (oi, psicanálise) que a materialidade vivida e que dá estofo ao sentir se faz narrativa em nós. Acredito que é como ficção que se faz possível o amor. Que o amor é um deslocamento de ausências. Acredito que amamos a suposição de uma resposta sobre a nossa verdade. Amamos a ideia de que é possível que alguém possa nos completar, que alguém possa saber, além de nós mesmos, o que queremos. Vivemos em um mundo de discurso (é pela linguagem que somos inseridos e nos inserimos no mundo e nos humanizamos, é o discurso que localiza poderes, é o impossível de nomear que identifica nossa falha estruturante) e isso é determinante também – acho eu – quando tratamos do amor.

Assim, acredito que o amor, que os amores, são construídos, aprendidos, vividos e simbolizados a partir de uma dinâmica (que eu vou chamar de dialética, tá) entre o que está incrustado no discurso em que nos formamos e nossa forma particular de construir, aprender, viver e simbolizar – e esta forma particular não vem de fábrica, também ela é processual e construída a partir dessa mesma relação dialética do sujeito que age no mundo e mundo que age no sujeito.

Vamos pro exemplo? Eu penso que o sujeito A ama o sujeito B de uma determinada forma em uma determinada época, em um lugar específico. Mudando-se o sujeito, o lugar, o período, muda-se o amor. Ou ele nem acontece. Por exemplo: a sujeita L pode amar, hoje, um sujeito C, mas talvez não o amasse se o encontrasse dois anos antes. Ela e ele seriam outros. Outras necessidades, vivências, hábitos, rotina e por aí vai. A sujeita L poderia estar em um relacionamento que, na época, a fazia feliz. O sujeito C. podia ter um filho pequeno que lhe demandasse mais tempo e atenção. Ou seja, podiam se cruzar na rua, no bar, se notar (ou não), se considerarem atraentes (ou não) e necasquitipitibiriba de amor. Ou, ainda, a sujeita L que ama hoje o sujeito C pode ainda amar o mesmo sujeito C daqui a dois anos, mas se o encontrasse só daqui a dois anos, pode ser que nunca viesse a se interessar por ele, dependeria do que eles estivessem vivendo nesse tempo futuro, né (e não há garantia, acho eu, que os sujeitos C e L continuem se amando daqui a dois anos, embora eles até pretendam e se alegrem se for o caso).

O sentido disso é que penso o amor como um sentir histórico em um dado contexto sócio-cultural. Fico com um pezinho atrás quando leio críticas aos laços sociais contemporâneos (e eu tenho várias) que se baseiam na ideia de um certo X errado nas relações. Como se houvesse um jeito “bom” de amar e estivéssemos nos equivocando. Como se houvesse um “deve ser” no amor e não um “o que foi”. Eu sou a favor da arqueologia das emoções (lato sensu). De aprender com o que fomos e sentimos e não prescrever o que devemos ser ou sentir, a não ser no dimensionamento de um espaço ético para as relações humanas.

Uma coisa que me inquieta e, vez ou outra até irrita, é a facilidade com que se rotula os relacionamentos, nossos ou alheios. Se isso então aquilo. Se o sujeito A faz assim com o sujeito B então (e apenas) tal coisa. Um exemplo que apareceu na minha TL essa semana reproduz bem essa lógica:

1016618_351678188300577_1174566177_n

No primeiro momento a gente pode até se inclinar a rir, parece que é discurso aliado da biscatagi, né? questionando os relacionamentos monogâmicos aparentemente certinhos e tal e coisa e coisa e tal. Mas eu digo não. Eu acho que não tem forma ou modelo pros relacionamentos e que eu prefiro não julgar intenções e realidades. Digo que acho meio moralista e caga-regra dizer como os outros devem se sentir e expressar o seu sentir (e muito, muito melancólico que esse “como” passe pela dúvida da felicidade). Digo que cada pessoa constrói, aprende, vive e significa seu sentir da forma que quiser e o expressa da maneira que sua estrutura e conjuntura permitem e possibilitam. E digo que ser feliz não é impossível.

E me repito: como não tem receita, modelo ou prescrição. O como é a medida da individualidade. Quando somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas damos um passo a mais na direção de sermos capazes de reconhecer e respeitar a alteridade, de reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas e, assim, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias.

Então, como uma cobra que morde o rabo, eu volto ao mote eu não acredito n’O Amor, mas não duvido das várias formas que as pessoas constroem pra viver e expressar o que sentem. Eu não acredito n’O Amor, mas acredito nos amores como possibilidade de encontro. Lacanianamente eu repito, como uma cantiga de dormir: amar é dar o que não se tem. É, para além de sustentar a promessa de completude, o encontro de duas ausências. O amor, assim, se faz recíproco: ao nos colocarmos, também, como objeto do desejo do outro e sujeitos do nosso querer, acolhendo que o outro seja sujeito do seu desejo e não apenas objeto idealizado. Amar alguém diz algo sobre esse alguém, algo que se vislumbra e se interroga, algo que talvez o outro desconheça. O olhar e o amor do outro, por sua vez, me indicam algo que desconheço ao mesmo tempo que me colocam no lugar de sujeito desejante. Amar assim demanda que se ignore o ridículo e se abra mão do controle, implica em saber que a incompletude é o que nos torna humanos.  Amar assim implica reconhecer (nem sempre em uma elaboração consciente) que o lugar do amor é o lugar da ética, em última análise; e que é a falha que nos dá acesso à linguagem e, com ela, ao que resta, gozo. Só é possível enunciar este saber enunciando-o. E se oferecendo como lugar de enunciação.

É nessa brecha, o amor que acredito: minúsculo, diário. Um amor que só é naquele momento, para aquelas pessoas, naquele lugar, daquele jeito. O resto é com a sujeita L, o sujeito C, o desejo e tanta vida por viver.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

11 ideias sobre “Você Não Acredita No Amor?

  1. Li esse texto pensando nas minhas experiências de vida. E tb no quanto ele dá uma paulada naqueles livros proféticos sobre o amor (ex: no futuro próximo, as relações serão assim, as relações serão assado). É bom desconfiar dessas projeções tão essencializantes. É isso aí, Lu, lição aprendida: o amor é único.

    • Né? Cada amor é aquele, daquele jeitinho que ele é e pode ser. Lembro sempre da frase do Montaigne: porque era ele, porque era eu.

  2. Que O Amor não exista, a gente aceita. Existem esses poemas mais ou menos fugazes, que depois a gente esquece os versos, troca as palavras e acaba só balbuciando o ritmo.

    Mas aí tem aqueles seres que aportam no seu inconsciente, queimam os navios e saem a conquistar o novo mundo. E antes que você sequer pense que precisa resistir, já fundaram uma colônia, construíram cidades e passaram a chamar a terra incógnita de lar. Pior, no mais das vezes eles fazem isso sem nem notar.

    E quando se vão, como é inevitável, deixam uma terra arrasada, povoada de lembranças fantasmagóricas.

  3. Acho que, para amar alguém, é necessário primeiro cultivar o amor-próprio e, às vezes, isso é muito difícil, se vc não teve ninguém que o ensinasse a fazê-lo.

  4. Muito cedo, recebi no rosto e na alma “O Beijo da Mulher Aranha”, o livro, muito antes de virar filme, peça. Me apaixonei pelo livro. O local: uma cela. Os personagens: Molina e Valentin. Uma relação que só existiu naquele tempo, naquele lugar, naquelas condições. E no entanto, tão verdadeira quanto qualquer outra. Em outro tempo, em outro local, em outras condições.

Deixe uma resposta para Borboletas nos Olhos Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *