Beijo gay porém hétero

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Acho que todo mundo soube do selinho do jogador Sheik no amigo, né? Pois. Esse ato que a princípio seria uma forma de combater o machismo e homofobia no futebol – e na sociedade, porque os torcedores também são a sociedade – acabou explicitando como essa luta ainda é difícil dentro do esporte. Muito se falou sobre homossexualidade no futebol, inclusive, ao que parece, o jogador vai ganhar o Oscar Gay 2014. Ok, tudo isso é legítimo e importante, mas eu quero levantar outra questão.

Beijo gay, porém hétero

Ao que se sabe, Sheik e o amigo são héteros. Preocupa-me um pouco que o selinho no amigo tenha levantado de maneira tão forte a questão da homossexualidade no futebol, enquanto o debate deveria ser outro: as relações de amizade e trocas de afetos entre homens, de qualquer sexualidade. Não, gente, eu não acho ruim pensar que alguém seja gay, isso soaria até absurdo. Eu acho ruim pensar que a sexualidade de alguém possa ser questionada e desrespeitada baseando-se na forma como a pessoa expressa seus afetos com amigos (por exemplo: uma lésbica abraçando um amigo homem, considerar que ela seja hétero pela forma como abraça o amigo homem é desrespeitar a sexualidade dela baseado em como ela expressa o afeto).

Parece-me um reflexo do machismo, e consequentemente da homofobia, que a questão da homossexualidade tenha sido tão fortemente levantada, porque a reação ao selinho foi imediatamente considerar que por ser um homem beijando outro homem não há outra resposta que não questionar sua sexualidade. E aí a gente volta naquele papo antigo do homem machão – e machista – que mantém certa distância (inclusive física) dos amigos homens.

Todo aquele ideal de masculinidade de homem viril, forte, bruto, do homem que não pode demonstrar sentimentos (leia-se fraquezas, nesse caso), do homem que “não se abre”, não desabafa, porque tudo isso é “coisa de mulher” e esse mesmo homem acha um horror que ele possa ter qualquer traço dito feminino, o que também é reflexo de uma cultura misógina, afinal. É esse ideal de masculinidade que poda, em partes, as relações de amizade entre homens.

Eu vou me repetir em coisas que já disse antes, mas é preciso: a amizade entre dois homens, para não ser questionada como outra coisa, tem que ser aquela do soquinho no ombro, do aperto de mão, do bar assistindo futebol. Nossa cultura não permite que a amizade entre homens seja uma relação de troca de afetos, de segredos, de desabafos etc.

O selinho fez levantar a questão da homofobia, que é um debate importante e de maneira legítima, claro. Até porque as trocas de afetos entre amigos também perpassam pela questão da homofobia. Mas, considerando que Sheik e o amigo são héteros, tratar o episódio como um beijo gay me parece mais um dos reflexos do machismo, onde homem ‘de verdade’ não sai por aí beijando outro homem se não for gay. Isso sem mencionar o binarismo da situação toda: a palavra “bissexualidade”, por exemplo, sequer foi mencionada em qualquer lugar.

Pra finalizar o texto, só quero relembrar que o jogador, aparentemente pressionado, pediu desculpas e disse que não quis ofender ninguém com o ato. E é bem triste pensar que a gente vive numa sociedade onde as pessoas precisam se desculpar por demonstrar afetos aos amigos (ou amantes também). E, pior, que uma parcela bem grande se sinta ofendida por um simples selinho entre amigos. É triste pensar que nossa sociedade ainda precisa caminhar muito para que entenda e coloque em prática o respeito ao outro, à diversidade e ao ser humano. Eu não acho que estamos perdidos, mas, nesse caso, o beijo virou pó. Foi-se o beijo, vingou o ódio

538825_427404223950208_2010822677_n*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

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12 ideias sobre “Beijo gay porém hétero

  1. Se o pedido de desculpas já foi péssimo. O segundo pedido então, em que cita o São Paulo, é o horror.
    Além de não cogitarem a bissexualidade, a “comprovação” que dão para serem heteros é terem mulher e filhos. Então, tá, né?

    • Oi, Cláudio!
      A reprodução da piadinha homofóbica (~provocação futebolística~) foi mesmo de lascar, né? E eu chego a achar meio cômico essa tentativa de comprovação da heterossexualidade mostrando filhos e companheiras, não porque eu acho que a heterossexualidade é uma farsa, nesse caso, mas porque isso realmente não comprova nada. Abs =)

  2. Muito fiscal de fiofó e periquita por aí, né — pra ficar só nos orifícios, já que, como bem disse a Niara, o povo tem uma fixação…

  3. Sim, Everson, eu tb acredito que eles sejam heteros. A justificativa é que é péssima mesmo. Fica parecendo que eles acham que pau de gay não sobe. eheheheheheh

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