Das perdas

Das perdas, hoje eu falo sobre perdas. Porque biscate também é ter coragem de mergulhar nesses buracos da gente. De se enfrentar sem escudos. De chorar e doer e varrer tudo por dentro. De ter tristeza, sim, de deixar ser triste quando a tristeza vem. Porque quem quer muito, tem muito muito. E às vezes o muito é a dor. Mas a gente busca o que Valter Hugo Mãe nos ensina em seu precioso livro “O Filho de Mil Homens”: aquela dor sobre a qual se foi capaz de construir uma felicidade ainda mais profunda. Ou, na melodia poética de João Gilberto madrugada adentro, cantando “pobre de quem não entendeu que a beleza de amar é se dar. e só querendo pedir, nunca soube o que é perder para encontrar..”. Porque a gente busca, sim, e uma hora a gente encontra.

Então, vamos ao texto!

Das perdas

“Agora é não perder a perda”, me disse a terapeuta no final da sessão de terça. Sai do divã ainda atônita, com a frase pincelada na hora certa, retumbando por dentro. A perda. As perdas. Gosto amargo, aspereza. Garganta ardendo. Sim, as perdas.

Depois de tudo, de toda chuva, de tanto tornado, de tanto vento, é preciso olhar o que se perdeu. Os escombros são meus, e eu os aceito. Aceito-os, sim, como parte de mim. Dos meus erros. Das minhas covardias. Das minhas escolhas tortas. Da minha pressa de viver que me conduziu a abismos e labirintos de minotauros com fome, dos quais eu não conseguir sair senão em sangue. Em tontura. Em pedaços desconexos. Em sombras afloradas que me fizeram ver o que eu não gostaria. O escuro de mim.

E eu vi, bem aqui diante dos meus olhos, com uma verdade quase insuportável a minha parca estrutura desconjuntada. Um buraco grande e negro de contornos desconhecidos, um território inexplorado dos meus escuros. Assustei, tentei correr, mas ele me sugava à medida que meus pés mexiam, ele me sugou e lá dentro eu fiquei, fiquei até gritar e querer sair, mas lá dentro ninguém te escuta a não ser você mesma.

Lá dentro é frio e é quente, e a gente se perde num tempo sem tempo, num medo de existir, num medo da nudez, num medo de ser quem a gente ainda não sabe ser. Num medo de olhar o feio da gente, o feio que é nosso e a gente tem que abraçar ainda em soluços, a gente tem que pegar no colo os feios da gente. Lá dentro parece que não tem fim, que não tem chão, que não tem ego, a gente é pequeno e frágil e não cabe em si, a gente é desconhecido da gente mesmo. Ali a gente não consegue mais sorrir e então ficamos assim, paralisados, sem movimento, sem palavra, com os olhos cheios e as mãos em prece.

E em suspiros a gente chora e sente dor, tem arrepio, tem morte e não tem sono – e às vezes tem muito sono, mas os sonhos não chegam, é um sono de cansaço que não tem imagem, que tem confusão e desacerto. É um deserto grande e seco, mas que chove gelo de vez em quando. A gente tem sede diante do lago e não consegue beber o lago, a boca fica seca diante das águas que não conseguimos engolir, e as pernas doem e não tem fim, e não passa nunca.

A fome se vai, a gente esquece que tem corpo, o corpo é máquina que anda e faz cócegas. Os sentidos desabrocham para o que vem de dentro e a gente quer sair de dentro, lá dentro é áspero e tem muita lama, tem cheiro ruim, tem muita água parada, tem sujeira e tem matéria prima que nos assusta. A gente quer sair desesperadamente, mas quanto mais nos desesperamos mais a gente escorrega, a gente escorrega o tempo todo e se sente sufocar pela própria saliva, pela própria respiração intercortada, pelo próprio peito aberto e úmido.

Mas não, não ainda, não temos força para sair dali, não temos mais forças para nada. É preciso ficar, ainda mais, é preciso parar de se debater e ficar ali, olhar o vazio, o escuro, as sombras que vão se materializando diante da gente. As sombras que ganham vida e nos contam segredos escondidos, daqueles que nunca contamos nem para nós mesmos, aqueles duros de espetar entranhas, aqueles que nos assolam e estão ali com a gente, desde sempre, e são eles que nos salvam.

De repente, assim, de repente eles nos salvam, eles nos abençoam para seguirmos em frente, eles nos olham e fazem as pazes conosco. E então a gente pode fazer as pazes com a vertigem do escuro, aceitar as nossas formas estranhas, o estranho da gente. O avesso que é tão feio e tão nosso. Nosso húmus, nossa matéria prima mais forte e assustadora, nossos próprios abismos de incompreensão e susto diante do descontrole da vida.

E eu estou aqui, ainda pela metade, eu estou parando em algum lugar que eu não sei onde é. E é desse lugar que eu te peço desculpas pelo que não soube, e por tudo que feri e afetei com as minhas mãos trêmulas e desajeitadas. Não, eu não me culpo, não é uma culpa católica de rendição, nada disso, é um pesar, uma pena, uma desculpa de pena de ter perdido o que, talvez, pudesse ter sido algo tão bonito e tão vivo de grandezas, algo ainda maior e imenso de beleza conjunta.

Eu perdi porque assim foi, porque assim foi como eu dei conta de viver, assim foi como eu soube, assim eu aprendi e continuo aprendendo e amadurecendo meus tantos eus dentro de mim, minhas tantas incógnitas que vão ganhando coragem de saberem-se. Até de saberem que nunca saberão, ao certo, um monte dessas coisas que a gente se pergunta junto. E eu me desculpo também, eu te agradeço e eu te gosto e eu te quero em flores e poesias de todo dia.

 

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12 ideias sobre “Das perdas

    • Pobre terapeuta que já me aguenta semanalmente…rs. Pois é, importante é nunca perder o bom humor, a poesia, e a vontade de felicidade! obrigada!

  1. Nossa, eu estou bem nesse mesmo processo de me interiorizar, assim como vc, descobrir os meus eus. Estou no incio de um processo que sei não terá fim, e como é doloroso, dificil, mas faz tão bem e realmente é o que nos desperta para o saber amar verdadeiramente…. =D

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