De dois e de muitos

Imagine uma cena: você está num quarto com mais cinco pessoas de ambos os gêneros. Estão todos nus. Você, além de nua, está amarrada, vendada, e já sofreu todo tipo de sevícia – só das melhores, claro. Já gozou, já gritou, já apanhou.

Então você sente um calor se aproximando, uma pele se encostando, um cheiro. E você sabe. Conhece. Ali, no meio da suruba, no meio dos gemidos, das secreções, das vozes, você de repente está em casa. E o nome disso é amor.

Começou tudo bem antes, claro. Se for dizer exatamente, foi logo quando nos conhecemos. Antes que qualquer coisa acontecesse, ainda naquele processo saboroso de ir descobrindo o outro, conversamos sobre o desejo de viver um relacionamento mais aberto. Que não tivesse exclusividade sexual, que permitisse experimentar, viver, brincar. Que se levasse menos a sério.

(E ouso até supor que essa conversa foi fundamental no processo de encantamento. Mas divago, divago.)

Veio o apaixonamento, o encontro dos corpos, o frio na barriga – mas antes do status oficial, veio o combinado: seja o que for, será leve. Saíramos, ambos, de relacionamentos difíceis e cheios de possessividade. Estávamos cansados. Queríamos viver nosso desejo com liberdade.

Apesar disso, o namoro foi bem dentro do convencional. O sexo era bom, muito bom, cada dia melhor, como só a intimidade pode proporcionar. Acho a intimidade muito mais importante que o amor, no que se refere ao sexo. Nesse caso específico, além da intimidade o amor também crescia, com parceria, bom humor e leveza, até virar decisão: bora morar junto? Bora compartilhar a vida?

Porque era mais fácil, decidimos aproveitar e assinar uns papéis. E assim, casamos.

Com pouco mais de um ano de casamento, já falávamos em trazer outras pessoas para a nossa cama. Queríamos experimentar. Fazíamos listas das pessoas com quem gostaríamos de transar, preferencialmente outros casais. E não demorou até que surgisse a oportunidade, e logo com os primeiros da nossa lista, um casal de outra cidade.

pernasvarias

Foi sensacional. Depois que rolou, o que sentíamos era uma cumplicidade enorme, algo que não conseguíamos definir. Era meio onírico, era uma fantasia realizada, abria um mundo novo para nós. Criamos um relacionamento com o outro casal, nos encontrávamos esporadicamente, eu e a moça nos aproximamos bastante.

O que trouxe também alguns problemas. Testou nossos limites, os limites do nosso relacionamento, da nossa confiança, da nossa liberdade. Eu, especialmente, que sou mais possessiva e um pouco competitiva, sofri. Tinha pesadelos com medo de que ele fosse embora, com medo de que toda aquela liberdade tivesse preço.

Mas pra quem é desses, a curiosidade biscate não cessa. A vontade continuava. E assim aprendi a lidar com o risco calculado, que fui descobrindo cada vez menor, à medida que novas experiências e novas pessoas surgiam, e o nosso amor crescia cada vez mais. Transar com outras pessoas era uma experiência nossa.

Aí entra uma explicação sobre algo que todo casal com relacionamentos não estritamente monogâmicos acaba descobrindo: os limites precisam ser negociados e claros. Não dá pra confiar no não dito, no presumido, nem ignorar o que o outro está sentindo. O mínimo incômodo tem que ser motivo para parar tudo.

Foi assim, prestando atenção, que descobrimos o que estávamos buscando. Nós não queríamos um relacionamento aberto. Não queríamos estar, cada um, separadamente, com outras pessoas. Queríamos estar juntos – e também com outras pessoas. Ainda que eventualmente um dos dois não estivesse no clima, ou cansasse, e deixasse o outro lá pra se divertir, a experiência era fundamentalmente nossa, como casal.

Por termos entendido isso, a vivência nos aproximou e nos fez crescer. Libertou de algumas amarras que a monogamia tradicional causa: não gasto tempo me preocupando se ele estará interessado em outras mulheres, ou flertando com alguém. Falamos livremente disso, aliás, falamos das pessoas que nos interessam, continuamos criando nossas listas, e eventualmente transando com outras pessoas, quando dá vontade. Cada vez com menos restrições, não fazemos mais questão de casais. Qualquer pessoa que nos interesse pode eventualmente vir parar na nossa cama.

“Quem, aquela? Será que ela topa?” “Acho que topa, olha como ela está te olhando.” “É, ela já disse que tinha vontade de ficar com a gente.” Chegamos perto, sentamos perto. Ele me beija com vontade, vejo que ela está curiosa. Vamos conversando, trocando olhares. Propomos. Dali, vamos para casa. A dupla é afinada.

Nosso casamento não é prisão, não nos restringe. Expande. Permite. Amplia. Mas dá trabalho, porque nada é dado. Tudo precisa ser pensado e negociado, até a sedução desses outros que incorporamos. Seduzir como um time é aprendizado. Cada um na sua hora de avançar, sussurrando os próximos passos, decidindo como proceder. Trabalhando juntos para o prazer comum.

Mas houve um efeito colateral curioso, que percebi naquela experiência lá do começo do post (que aconteceu  de verdade, e foi deliciosa): o sexo com as outras pessoas, por si só, ficou um pouco menos interessante. Porque se as outras pessoas têm o mistério, a novidade, o inusitado, eu e ele temos a intimidade, a prática um no outro, a vivência conjunta. Cada nova pessoa traz aprendizado, não só de si, mas de nós. E o sexo melhora, e o amor se aprofunda.

Então ali, no meio da orgia, no meio do gozo, eu entendi: minha casa é ele. E as visitas são bem vindas.

muitos

 

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4 ideias sobre “De dois e de muitos

  1. O texto é incrível. Me identifiquei e me emocionei.
    Eu e minha companheira acreditávamos viver uma relação aberta até que ela transou (digamos, de uma forma bastante machista, “de fato”) com outra pessoa e eu me vi em uma crise de ciúmes que apenas revelou o quanto não consigo fazer o que ela faz e o quanto isso é sinal de insegurança. Não consigo, por incompetência no trato com os comuns, flertar.
    Ela é uma biscateira de primeira e eu biscate apenas de vontades. Esse texto me ajudou a repensar a minha crise com ela, mas ainda sofro, choro e penso que nosso relacionamento acabou e não sei como me sentir sobre isso. A possibilidade de colocar um outro alguém no nosso sexo me pareceu um caminho para me imaginar e imaginá-la com outros corpos e por consequência ter mais confiança. Nós já buscamos uma pessoa próxima e que confiamos para por nosso plano em prática. Espero me libertar das amarras da monogamia (que eu, feminista, acreditava ter superado) por que desejo outros corpos e desejo muito a mulher que amo, mas acima de tudo, preciso aprender a me desejar.
    Obrigado pelo texto e não vou mentir que espero um comentário qualquer que possa dar um pouco mais de paz ao meu coração. Eu sofro por toda essa situação e por vezes não sei o que fazer.

  2. Uauuuuuuu gente me perdoa, tenho receio de não ser respeitosa, mas molhei a calcinha hahaha que delicia de historia, quem dera eu viver algo assim com meu namorado, eu acho que estou preparada mas ele não, eu o respeito por isso e o amo, somos amantes vulcanianos eu tenho os mais deliciosos e prolongados orgasmos, mas tenho vontade dar um chute na monogamia e me deliciar na liberdade do ser, eu simplesmente acho muito natural. Uiii!

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