Umas histórias delas


Meu texto ia ser um que não foi. Aí vai outro, meio assim, meio solto, escrito no meio da madrugada. Lembranças de histórias entre mulheres. Lembranças de livros, que são minha praia. Colagens. Impressões. Gostos e sensações. Um texto colcha de retalhos.

A primeira história que me vem à mente, e que já contei aqui, é a de Pombinha com sua madrinha “mulher da vida”, de “O Cortiço” do Aluísio Azevedo. Eu, adolescente, lia fascinada a história de Pombinha, sua metamorfose. E sua entrega à madrinha. Reproduzo o trecho em que falo disso:

E, de todas as personagens, a que mais me fascinava era Pombinha, santa, pura, virgem, cuja madrinha “de vida fácil” aproveita-se de sua inocência e, aos poucos, vai transformando-a no que ela está fadada a ser. Pombinha, moça fina e pálida, e seu encontro, a um só tempo assustador e maravilhoso, com essa mulher mais velha, excessivamente maquiada, excessivamente perfumada. E ela nunca mais será a mesma. O livro descreve a incompreensão da moça, seu susto, e os olhos lúbricos da madrinha, atraindo-a, desejando-a, seduzindo-a para finalmente devorá-la qual aranha determinada.

Logo depois, lembro de Colette e de seus “Claudine”. Uma série de livros, ao que consta, inspirados na vida da autora. Amores de escola, professoras, assistentes, colegas. Amores femininos. O tempo é o final do século XIX. Começo de vida. Convivências. Amores. Ciúmes, intrigas. Faz parte. Colette, parece, continuou se relacionando com mulheres, ao longo da vida. Apesar de ter se casado com homens.

Seguindo pela senda dos livros, a gente chega a Anaïs Nin, claro. Essa explicitamente autobiográfica, em seus “Diários”. Ou será. Vai lá saber o quanto de um diário é realmente verdade. Enfim, diário. Diários.  Começo do século XX, anos 30. A história que ficou mais conhecida envolve o escritor Henry Miller e sua mulher, June. E a paixão de Henry e Anaïs por June, linda, selvagem, cigana. Anaïs, amante de Miller, se encanta também por June. Que já tinha histórias com mulheres. Aventuras. Caminhos. Possibilidades. Aberturas.

Maria de Medeiros e Uma Thurman, como Anaïs e June.

E, por último, uma história que me encantou tanto quando li, mas cujas referências nessa rede que habitamos são poucas. Pesco na lembrança, pois. A história se passa em tempos de guerra, e o livro é “Winter Love” – Amor de Inverno, de Han Suyin. História contada em primeira pessoa. História de amor e dor, de mulheres que se apaixonam em um momento de exceção. E se não houvesse guerra? E se os homens estivessem por perto? Será que teriam se apaixonado? Hesitações, vislumbres. Tons de cinza. Não dá para saber: o fato é que o encontro entre as duas moças acontece, e é lindamente contado. E, como esse post é um post-colcha de retalhos, vai o que escrevi sobre ele aqui, em outro post do Biscate:

Os estranhos desejos de tempos de guerra, onde mulheres ficavam sós para tocar a vida cotidiana, homens dormiam e acordavam com outros homens. Um dos meus livros favoritos, aqui, é “Amor de Inverno”, de Han Suyin. Delícia de história entre mulheres, em tempos de guerra. Orelha pequena, brinquinhos. Longos cabelos. Encantamento. Tempos de exceção. E o depois.

O depois é o sofrimento da personagem-narradora, já que a dona das orelhas pequenas de brinquinhos de ouro, ao final da guerra, vai para os braços do noivo que voltou pra casa. Ela, a narradora, também acaba por encontrar um pretendente, gentil e atencioso, pelo que me lembro. Conforma-se com a vida convencional. Novas diretrizes em tempos de paz. Mas o amor, a paixão, ah, esses permaneceram guardados na memória.
Junto com a imagem dos longos cabelos.
E dos brinquinhos de ouro.

Azul é a cor mais quente.

 

semana_lesbica_bissexualEsse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

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