Imagine

Por Camila Pavanelli*, Biscate Convidada

Não tenho nenhuma condição de comentar o que quer que seja sobre o horror que é este caso, mas posso dizer uma ou duas palavras sobre um argumento muito revelador utilizado pelo advogado da juíza que autorizou o envio de L.A.B., uma menina de quinze anos, para uma prisão masculina, onde foi estuprada repetidas vezes.

Em primeiro lugar, vale dizer que a matéria é péssima – refere-se aos detentos como se fossem bichos (“jaula atulhada de machos”), confunde estupro com promiscuidade e, no melhor estilo Veja, reproduz sem problematizar a opinião de um delegado para quem o principal responsável por todo o horror foi – quem mais? – o governo federal.

Mas a matéria tem pelo menos um mérito, que é o de reproduzir a seguinte fala do advogado da juíza:

“Se um juiz mandar soltar todas as pessoas que estejam presas em situação degradante no Brasil não sobrará ninguém atrás das grades.”

Para o advogado, portanto, a juíza estava certa em mandar L.A.B. para a prisão masculina porque, se os juízes começassem a miguelar os mandados de prisão ~apenas~ porque as prisões colocam os presos em ~situação degradante~, então todo o sistema entraria em colapso!

Imagine...

Imagine…

Minha questão é: e por que isso seria ruim?

Talvez esteja mesmo na hora de todo o sistema entrar em colapso.

Talvez esteja na hora de reformular um sistema prisional em que presos são tratados como machos (ou fêmeas) entulhados em jaulas.

Talvez, inclusive, já tenha passado da hora de questionar se o melhor que podemos fazer para estarmos todos mais seguros é cometer um crime contra pessoas que cometeram crimes, enviando-as para prisões superlotadas sem nenhuma condição de recebê-las.

Tudo isso para dizer que, ao ler “se um juiz mandar soltar todas as pessoas que estejam presas em situação degradante no Brasil”, o que me vem à cabeça é a melodia de Imagine.

Já imaginou as pessoa tudo vivendo em um país onde os presos são tratados como cidadãos com direitos e não como bichos a serem enjaulados?

Pois é, eu já.

 

Camila Pavanelli

*Camila Pavanelli é daquelas. Daquelas que sabe rir, muitas vezes de si mesma. Daquelas, marota, que nos faz rir também. E pensar. Daquelas que faz biscoito em casa – e de gatinho! – porque sabe que a vida dói, mas isso não deve nos impedir a ternura e o bom. Daquelas que recorda, repete e elabora no seu blog (aqui). Ah, claro, não se pode esquecer… Camila é daquelas: gente de humanas.

 

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Uma ideia sobre “Imagine

  1. Pois é, a gente segrega as pessoas, trancafia, violenta de todas as formas e quer que voltem lindas e fofas para o convívio social. Ôôô burrice! Sem falar no quanto o direito penal é seletivo e tem alvos certos.
    Abolicionismo penal. Já leu sobre? Acho que você pode ser dessas, viu?!
    Abração.

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