O direito ao (meu) ridículo

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

(…) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Poema em Linha Reta, Fernando Pessoa como Álvaro de Campos

É, não sou a mocinha bem comportada que alguns almejariam. Eu bebo além da conta, dou vexaminhos, fico com quem quiser,pago de musa para incautos, batuco pandeiros e tamborins, a saia levanta mais do que gostaria quando eu danço e a mim, só me resta rir de tudo isso quando me vêm a cabeça lapsos de memória do dia anterior. Ora, vamos, beber não é crime. Confesso que estou na vida e, bebendo ou não, que não é necessariamente o caso, eu assumo meu desejo. Digo o que penso, falo o que vem à cabeça, não tenho opiniões fáceis, e, pra piorar, gosto de música nigeriana. FelaKuti, pra ser mais exata.

Mas ficar calada numa mesa, muda em um relacionamento, como tantos casais que dolorosamente vejo por aí, não é a minha praia mesmo. Um par em silêncio? Não, obrigada. Prefiro a minha tagarelice atávica e celibatária. Não encerrada em mim mesma, porque o charme da solidão não funciona comigo. Por isso, passo a perna numa involuntária clausura e me cerco de amigos, amigas, convivas e amantes oportunos (ou não), que povoam a vida de cor, delícias e boas histórias. E isso não é niilismo. É, talvez, a dura consciência da máxima existencial: nascemos sozinhos e assim morreremos. Porque, afinal de contas, quando dói, só eu sinto. No máximo, você pode compreender a minha dor. Mas não poderá estar dentro dela. Não tem como terceirizar o sofrimento das agruras da existência. Tem???

ridículo

É, talvez por isso Freud seja tão válido, mas tão desgraçadamente caro. Sou a favor de análise pelo SUS. Ainda mais nessa cultura que ensina de modo tão claro e pedagógico a repressão às mulheres. Sei que pago um preço por andar à margem. Olham-me enviesado e pressupõem que sou a maior porra louca de todos os tempos. Ou será que sou eu faço de mim mesma esse julgamento? Dane-se o olhar do outro! Não serve pra nada, só pra ressuscitar velhas paranoiase culpas inúteis. Já ouvi conselhos pra ser menos altiva e mais “mulherzinha”. Por que eu devo me mascarar numa capa tão falsa pra conseguir um suposto afeto, de um suposto babaca (se o cara quiser uma “mulherzinha”, sim, ele é um imbecil)?

Beiber, rejeito o teu conselho.

Só digo uma coisa: não é fácil exercitar o direito de ser feminista, vadia e biscate. Explicar porque gostamos de ser livres é bem cansativo, né? Xô pra lá, patrulha da moral e dos bons costumes! Eu já adoro os meus maus-hábitos e não vou abandoná-los, só porque querem ver a biscate aqui redimida. A vida é minha nem que seja pra torná-la imprestável! E já vou avisando: mesmo levando porrada, eu vergo, mas não quebro!!!

jeane melo *Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

 

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7 ideias sobre “O direito ao (meu) ridículo

  1. Gente que texto mais tchananan! “A vida é minha nem que seja pra torná-la imprestável!” vai pro meu caminhão!!!

    ai como eu adoro esse blog!!!

  2. Parcialmente, todas as mulheres almejam dizer isso… pelo 75% das “falsas puritanas”, que já leram ou ainda irão ler este texto, ficarão meio depre, por perceber que no fundo (bem no fundo, mesmo), era exatamente isso, que elas tbm queria dizer, uma vez que, estas, restringem seus maus-hábitos, a 4 paredes, quando sozinhas, tendem a ser, quem realmente são.

    Parabéns pelo texto, a julgar que começastes com uma citação do adorável heterônimo do celebre Fernando Pessoa.

    Att,
    Sua fã, incondicional.

  3. ah!menina! vai driblando os olhares de consternação e saracoteando nas mesas das pessoas queridas. lembra de lembrar de tudo isso mais lá na frente, quando suas escolhas parecerem estéreis. essa vida livre é feliz, pode acreditar.

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