Uma Vida Sem Inverno

Por Liliane Gusmão*, Biscate Convidada

Era 1994 o ano em que não houve inverno. O ano oficial do começo da minha biscatagem. Esses dias me peguei pensando nessa época, talvez seja a saudade do cheiro da maresia, o cheiro do mar é coisa que falta nesse canto do mundo onde moro agora. E, sobretudo no verão, o cheiro da maresia é causa de dor no meu peito, no buraco que a escolha do exílio cavou, mas essa é outra história.

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Então eu lembro que tinha a gente caminhando juntas, na beira d’água, na maré seca, de Porto de Galinhas até Maracaípe. Era noite, madrugada talvez, estávamos juntas quatro ou cinco amigas, num fim de semana movimentado por causa de um campeonato de surf. Estávamos lá por causa de um show de Chico Science, o surf não nos interessava nessa época.

Tinha a lua cheia também, que nos acompanhava a caminhada neste dia e que também nos assustou e arrebatou numa outra noite, quando no meio da bebedeira ao ver a lua nascendo entre as nuvens, julgamos ver um OVINI. E tinha a música que cantávamos ao caminhar. Talvez tivéssemos bebido. Não lembro mais.

Na minha memória ficou o cheiro da maresia, o nosso companheirismo naquela época, a nossa busca por novas experiências, nossa busca pelo prazer, a descoberta dos nossos corpos e das possibilidades que essa descoberta nos dava. Na minha memória ficaram as músicas que cantamos e o cheiro da maresia que hoje se misturam em uma sensação de felicidade intrínseca que acho que vem dessa época e talvez até dessa noite em particular.

Escuto essas músicas e lembro dos amassos na beira do mar, dos beijos, dos luaus, dos encontros furtivos, e dos nossos sumiços pelas madrugadas, com os eleitos pelos nossos desejos, fugindo para fazer sexo – que hoje julgo precário e apressado, mas que na época era intenso, subversivo, rebelde e avassalador- na areia do mar. As músicas que cantávamos nessas noites ficaram no meu coração biscate para sempre. A que eu escuto agora e que me inspirou a escrever esse texto é na minha modesta opinião o master piece biscate de todos os tempos: Folhetim.

Liliane

Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 38 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna. É autora do Ponto de Fuga.

 

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