Para além de mãe e filho

Para além de mãe e filho

Para além de. Mãe e filho. É assim que a sociedade convencionou chamar a nossa relação. Biologicamente crescido no meu ventre, e nascido do meio das minhas pernas. Mas, desde que rompeu meu corpo em sangue e respiros próprios, nossa relação se esparrama para além desse binômio. Somos mais. Às vezes ele é meu mestre e às vezes eu sou filha. Às vezes ele é pequeno e eu sou avó. Às vezes ele é um menino irmão e a gente ri junto pela noite adentro, assistindo televisão ou lendo um livro, comendo com as mesmas mãos os pedaços de pizza em cima da cama. Às vezes ele briga comigo porque eu falo no celular dirigindo, ou porque eu esqueci de comprar o lanche da escola. Ele tira meus cigarros quando eu fumo, e sempre quer voltar para casa quando eu insisto em dar mais uma volta e esticar o dia pelas ruas de Brasília.

Teve um dia que ele me pegou no colo quando eu estava triste e desenhou uma namorada nova para mim, toda colorida e cheia de flores, com os olhos sorridentes para eu ficar bem feliz. Porque quando eu recomecei a vida ele veio junto comigo, ele veio me dando as pequenas mãos e me dizendo que ia ficar tudo bem.

Porque eu cuido dele nas noites de tosse e dormimos abraçados quando ele tem febre ou quando eu me sinto só. E quando ele chora eu choro junto por dentro, e sempre tenho a sorte de me lembrar a tempo de que ele não pode ter tudo. Aí a gente conversa e ele se acalma quando digo que na vida a gente pode ser feliz mesmo durante as ondas fortes e mesmo quando a gente não tem. Porque ele sorri com os olhos pequenos e me conta histórias de monstros, bichos esquisitos e heróis e inventa mentiras quando eu brigo com ele pela bagunça no banheiro ou na cozinha. A mãe também faz bagunça, e não gosta de cozinhar nem de lavar roupa (ele sorri em segredo).

Porque ele me ensina a acolher as perguntas sem resposta e eu o ensino a olhar a vida com poesia, a andar de bicicleta e a comer salada. Porque eu quero que ele faça capoeira e ele quer ir para as aulas de xadrez, e a gente disputa o jogo de computador e ele me diz que quer ser cientista. E então a gente faz experimentos juntos, experimentos dessa arte de viver a dois e perdidos no mundo, cada um com a sua individualidade de mãe e filho pequeno, de filho grande e mãe pequena, de mulher adulta e homem criança, de mulher e homem em diferentes tempos.

Porque a gente sai de casa ouvindo música alta, eu apresento a ele meus discos preferidos e ele quer ser roqueiro. Ele não gosta dos meus sambas, mas a gente canta junto o disco do Criolo, o África Brasil do Jorge Ben, o Pretobrás do Itamar Assumpção, a Karina Buhr. Ah, ele gosta da Cássia Eller e dos Beatles, e quando ele ouve “yellow submarine” ele imagina que está no fundo do mar.

Construímos nossas regras de convivência a quatro mãos, menos quando ele não quer cortar a unha do pé – e ele não quer nunca. Às vezes ele fica contrariado e eu acho bom porque ele tem que expressar o que sente para tentar mudar, quem sabe, o mundo. E às vezes ele vai comigo às minhas aulas e volta perguntando sobre cidadania e reivindicando seus direitos dentro de casa, e no seu mundo imaginário. Porque quando ele me pediu um irmão, ficou feliz em descobrir que podia ter um irmão emprestado.

É, a gente dorme tarde, e às vezes com a televisão ligada. A gente come brigadeiro e às vezes almoça as três da tarde. Quase todo dia tem sobremesa e sempre pode ter sorvete, menos com dor de garganta. Tem dias que a gente janta lasanha congelada e ele adora sushi e suco de melancia. De manhã a gente come banana e mamão e maçã cortada em pedacinhos. E quando ele diz que me ama eu me derreto toda e tenho certeza de que é possível ir adiante. Ele tem 6 anos, e eu 36. Mas às vezes não.

Ele adora o pai, e mora metade comigo, e metade com ele. A mãe viaja sozinha, e às vezes ele viaja com o pai, e quando voltamos tem tanta saudade e coisa para contar que passamos dias conversando sobre os aprendizados, e alimentando as distâncias necessárias para que sejamos nós mesmos. E assim ele cresce e aprende que a mãe é faltante, que a mãe erra, que a mãe goza, que a mãe chora, que a mãe se diverte, que a mãe sente dor.

Porque eu sou uma mãe-avó, uma mãe-biscate, uma mãe-viajante, uma mãe-livre para se reinventar a todo tempo. E ele é um menino-peixe, um menino-cientista, um menino-presente, um amor para toda a vida.

(e na foto somos nós, eu e Bernardo, Bernardo e eu, em sorrisos de domingo de sol). 

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13 ideias sobre “Para além de mãe e filho

  1. To aqui chorando e imaginando o meu pequenino Leon, com um aninho, que com seu olhar e seu sorriso já me faz sentir assim, a cada dia. E ao mesmo tempo imaginando daqui alguns anos, quando ele descobrir que sou mãe biscate, mãe vadia, mãe não convencional.

    Obrigada por essa poesia. Verdadeira, profunda e, ao mesmo tempo, delicada como um beijo dos nossos filhotes.

    <3

  2. Serei redundante dizendo que o post está comovente? serei e não me importo. Tem tanta coisa aqui que eu queria que o meu filho lesse e sentisse que é assim que eu sinto. Obrigada por saber fazer, do amor, letra, língua, dito.

  3. Acabei de receber esse texto lindo, enviado por minha irmã, e o li enquanto meu pequeno Daniel, de dois meses, mamava tranquilo. Impossivel nao se emocionar…

  4. Fiquei feliz, e muito emocionada com cada comentário. Acho que essa partilha de sentimentos é a coisa mais bonita de qualquer escrito. E viva a maternidade biscate!

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