Amanda Palmer: a biscate que pede

Por Francine Emília e Fabiana Nascimento, Biscates Convidadas

Cada biscate – ou cada vez que biscateamos por ai – tem um clima, um estilo, uma imagem vinculada. E Amanda Palmer consegue trazer para a biscatagem um ar clássico, um estilo diferente. Afinal, podemos biscatear em todos os estilos.

 Amanda é uma biscate casada, mas vejam que esse é só o terceiro fato lembrado sobre ela na maioria das vezes. Ela é lembrada assim: linda, grande cantora  e mulher do – ai ai… – Neil Gaiman. Um casamento aberto e que no final das contas foi um acordo biscate de ambas as partes. Ela casou-se com um biscate e nenhum dos dois é lembrado de imediato como cônjuges, os dois são lembrados na sua profissão por sua… Competência. O fato de serem casados só diz que os dois têm muita sorte.

 Usa e abusa da lógica que a imagem da mulher tem que ser o “cartão de visita”, ela faz de sua imagem um atrativo para obras visuais e auditivas lindas. Aliás, ela própria é sua maior obra, porque seu corpo é parte do seu trabalho e seu modo de agir é tão importante quanto à música que produz. Música que, além de tocar em pontos politicamente importantes, agradam seus muito seus fãs – seus álbuns não costumam ser muito bem recebidos pela crítica internacional, mas críticos, bem, são críticos, não é o que importa.

O corpo como mensagem

O corpo como mensagem

Ficou conhecida por sua banda cabaré punk brechtiano Dresden Dolls, ou seja, seu trabalho, desde o início de sua carreira, tem um forte componente teatral sensual e político. Uma mistura nem sempre bem aceita (ah, esses críticos que não entendem do que realmente importa), mas sempre visualmente impactante e eloquente.

O duo – que muitos vêem como a principal arte de Amanda – é formado por ela e também por Brian Viglione e o tal “punk brechiano” só surgiu porque ficaram horrorizados com a possibilidade de um termo envolvendo a palavra “gótico” ser utilizado para defini-los. Isso mostra que ambos não se valem de rótulos, mas se for para ser rotulado, que sejam por si mesmos.

Um nome que se trás em si a dualidade da destruição – o bombardeio feito a cidade de Dresden – e da delicadeza – marca das bonecas da cidade antes da guerra. A música reflete essa dualidade com o equilíbrio delicado entre eles na melodia.

A banda passou por um hiato de 2008 ate 2010. O retorno não rendeu nenhum novo cd, mas biscate que é biscate não fica esperando por ninguém. Desde 2007 – antes do hiato do Dresden Dolls – Amanda se apresenta por ai com uma banda contratada. Um estilo diferente do Dresden Dolls, mais sujo, mais agressivo.

Amanda já pediu demissão através de música – motivada porque a gravadora cortou umas fotos onde aparecia a barriga “gorda” dela. Ela também declarou sua liberdade do contrato com a gravadora por uma música. Já se envolveu em polêmica por fazer uma música envolvendo aborto e estupro em shows de rock.

Recentemente foi protagonista de mais uma polêmica, porque uma foto de seu seio, que apareceu durante uma apresentação no festival de Glastonboury, foi destaque  no jornal inglês Daily Mail, Indignada com o fato de a notícia sobre sua apresentação ter se centrado em sua nudez acidental, Amanda compôs a canção “Dear Daily Mail, Sincerely Amanda Palmer” Na canção (aqui) ela diz que se eles quisessem uma foto dela nua poderia ter encontrado facilmente na internet, porque ela não se importa com isso, mas que naquele momento ela estava fazendo música, e o jornal demonstrou uma postura machista ao fazer alarde com sua nudez, enquanto que a de outros astros do rock é vista como normal. No vídeo gravado no momento em que essa composição é apresentada, ela se despe, na intenção de provar que sua indignação não decorria do fato de uma foto sua com o peito a mostra havia sido divulgada, mas porque o jornal ter ignorado completamente de que ela é uma cantora.

 Amanda Palmer é muitas e nós não conseguiríamos escrever sobre todas elas.  Mas é importante destacar a importância e a relevância do seu modo de agir dentro do atual contexto de crise na comercialização e divulgação da arte. Do reconhecimento de que para mudar é necessário agir, de que se queremos exercer a liberdade de fato é necessário enfrentar o que se entendeu como normalidade.

 Numa palestra para o Ted Talks, Amanda faz uma síntese de sua trajetória de artista combativa, que começou fazendo estátua viva nas ruas e que por isso desenvolveu a habilidade de estar sempre em contato com as pessoas que sustentam seu trabalho. Mesmo depois de ganhar notoriedade, continuou alimentando essa característica mambembe, de “passar o chapéu”, de sempre ser nômade:

Eu realmente não queria perder esse sentimento de conexão direta com as pessoas, porque eu amava isso.”

Amanda e seu público

Amanda e seu público

Com o Twitter essa arte de pedir foi sendo aprimorada e em qualquer lugar do mundo onde Amanda se apresentava, conseguia encontrar acolhida. E de cidade em cidade, dormindo em mansões e casas simples. Surfando em sofás e sobre multidões, foi estreitando os laços com seu público.

No entanto, para as grandes corporações esse tipo de laço não é o suficiente. A gravadora da qual pediu demissão, disse que 25 mil álbuns vendidos era um fracasso. Para ter condições de viabilizar o lançamento de um novo trabalho, decidiu pedir, do mesmo modo que pedia ajuda aos transeuntes quando era artista de rua. E por meio de um financiamento coletivo pela internet (crowdfunding) conseguiu arrecadar 1,2 milhões de dólares, um recorde nesse tipo de iniciativa. E o mundo se perguntou qual teria sido o segredo desse sucesso. O segredo era que as mesmas 25.000 pessoas que haviam comprado seu disco lançado por uma grande gravadora, haviam doado dinheiro para Amanda. Ou seja, o segredo da cantora era ter estado nos braços de seus fãs durante todo esse tempo.

Não raro, Amanda aparece na imprensa mais por sua atitude combativa – atitude essa que é exatamente a marca de seu trabalho em qualquer campo – e por sua recusa em seguir os padrões estéticos dominantes (como por exemplo ter raspado as sobrancelhas e não se submeter à depilação), do que por sua música.

Num momento em que vivemos numa sociedade em que a convivência entre as pessoas é cada vez mais mediada por artefatos de alta tecnologia, onde a música é um arquivo digital e os amigos se contabilizam numa lista de uma plataforma de internet, Amanda Palmer nos propõe uma volta à raiz do trabalho do artista: a do contato direto com o público. Sem medo de se entregar a estranhos, oferecendo seu corpo (muita vezes despido de tudo) como agradecimento. Por confiar em sua arte, Amanda propõe um retorno à troca de afetividade, a construção de um relacionamento duradouro entre artista e fã, revoluciona fazendo algo que estava esquecido.

Fato é que não há gravadora ou Daily Mirror que limitem o que Amanda Palmer faz: bicatagem como um todo, biscatagem por inteiro.

Desfrutem, mas alguns vídeos são para maiores de 18 anos.

 (somos fãs e admiramos a arte de Amanda, mas também reconhecemos suas falhas: aqui em inglês uma crítica ao fato de ela ter arrecadado mais de um milhão de dólares e pedir para que os músicos tocassem de graça, aqui em inglês uma crítica ao suposto descaso às pessoas com necessidades especiais quando fundou um projeto em que se travestia, junto com um amigo, de irmãs siamesas, o Evilyn Evelyn, e aqui um apanhado geral de suas polêmicas)

 fabiana*Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

 

 

fran Francine Emília, nerd/geek, Biscate em treinamento, RPGista, Feminista, Violonista, Baterista e vários “-ista” por ai. Acredita que toda zona de conforto tem saída e que a gente pode se confortar em todas as zonas…

 

 

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