Um basta ao mito da “heroína incomodada”¹

Por Mabelle Bandoli*, Biscate Convidada

Algumas notícias veiculadas nos últimos dias em blogs feministas e afins, me colocaram o desafio de digerir um tema meio controverso e que vem me incomodando há algum tempo: a maneira como algumas militantes têm se proposto a repensar a menstruação e seus significados.

As disputas discursivas e simbólicas se manifestam em meios muito comuns aos nossos movimentos e vêm se apresentando em toadas que vão desde uma tentativa de resgate da “Deusa Mãe Fundamental” a fóruns da Marcha das Vadias, passando por artistas – ativistas que chegam a propor que o sangue menstrual pode ser matéria-prima para pinturas corporais.

Acredito firmemente na validade da desconstrução dos mitos em torno da menstruação e do corpo feminino e seus fenômenos, em geral. Presencio, como toda mulher, a guerra travada contra nossa sexualidade e as insistentes tentativas de transformá-la em algo sujo, pecaminoso, repulsivo. A era da assepsia extremada não nos poupa de antigos tabus, os reinventando de formas a cada vez mais rebuscadas e cruéis. “Ciclos”, “fluxos” e “incômodos” “daqueles dias” precisam ser combatidos como inimigos vorazes e contínuos, à espreita todo mês, prontos para nos transmutar em criaturas asquerosas e um tanto obscuras – já que o sangue que nos “jorra aos borbotões pernas abaixo” não é o suficiente para ameaçar nossa existência, como as hemorragias que acometem os “corpos humanos perfeitos e integrais” masculinos.

THERE WILL BE BLOOD, ensaio fotográfico de Emma Arvida Bystom 2

Mas a verdade é que eu não entendo muito essa reivindicação da “celebração da menstruação” proposta por algumas feministas. Essencialmente, porque acho que esse não é o melhor caminho para que as meninas e mulheres lidem de uma forma legal com o próprio corpo. No fundo, acho essa onda meio fetichista. Se é um acontecimento natural, essencial para os nossos corpos, acho que o melhor é que seja tratado exatamente assim, concordam? Sinto uma pegada meio estranha nisso tudo, uma reminiscência de como as mulheres de outras gerações celebravam o fato de as meninas “virarem mocinhas” e acabavam criando uma enorme pressão sobre a vida delas, com uma sobreposição imediata de um papel social de procriadora com um fato natural da vida.

Acho que a criação de expectativas é algo muito ruim quando tratamos de corpo humano – ainda mais de corpos femininos, historicamente tão vigiados, afastados da noção de humanidade, “sacralizados” quando inseridos na lógica da “Santa Mãe” e repudiados quando atuantes como seres complexos e autodeterminados. A ritualização da menstruação, a meu ver, é a outra face da lógica aristotélica que reafirma que a mulher é o outro do homem, o corpo imperfeito e faltante, “frio e seco”. Para o filósofo grego, a menstruação era prova cabal de nossa natureza imperfeita, de nossa incapacidade de aquecer o sangue e transformá-lo em substância mais nobre, o sêmen – semente da vida. Algo parecido só poderia mesmo acontecer com o empréstimo de calor gentilmente feito pelos homens durante o coito, o que nos permitiria gerar leite² para as crias.

sueca Emma Arvida Bystom

Não acho que esse processo se reverta com uma despropositada glorificação de algo que devia ser encarado com leveza, naturalidade, espontaneidade. Como no caso dos movimentos feministas ligados ao resgate do “Sagrado Feminino”, acho que isso tudo tem, na verdade, um potencial muito opressor, porque nos retira de nossas condições concretas, de nossa “natureza” que é cultural e biológica, intrinsecamente. Acho que as meninas que têm a chance de viver essa transformação em seus corpos de uma forma menos fetichizada têm mais chance de levar a vida de uma forma mais autônoma. Além disso, essa essencialização ancorada no corpo biológico nega às mulheres trans sua necessidade de autoafirmação e o reconhecimento dos seus direitos à livre experimentação dos seus gêneros – que, nos lembremos, é algo construído social, cultural e emocionalmente. Por acaso as mulheres que não menstruam, não engravidam, são menos mulheres? Insistiremos na perspectiva do silenciamento de suas vozes?

Enfim, acho que o caminho que segue pela ritualização de tudo não desemboca em outro alternativo ao que transforma a menstruação em tabu. Aliás, acho que é exatamente a mesma coisa, com vernizes diferentes. “Agora você entrou pro clube das mulheres e deixou a condição de menina”. Sente o drama? É uma conseqüência muito possível e usual dessa abordagem. Essencializar nossos corpos e gêneros me parece seguir na contramão de tudo o que os estudos e movimentos feministas produziram de mais libertário e fértil.

O vídeo de uma propaganda de absorventes íntimos me parece positivo quando dá os verdadeiros nomes e cores às coisas, mas embarca nessa maré que afirma que “você é uma super heroína”, “você é capaz de superar a dor”. Quem disse que precisa ser doloroso? Quem disse que é um obstáculo hercúleo algo tão corriqueiro? Quem disse que atravessar os famosos “aqueles dias” é uma saga heróica? Como dizer para uma menina que se contorce de cólicas se conformar – “cause this it’s your life now” – pode ser algo libertador? Não, gente. Tá errado. Menstruar é pra ser algo tranqüilo e corriqueiro, indolor e não traumático. Se é sofrido, tá errado. Se é glorificado pela “superação do sacrifício”, também. Se é transformado em ritual de passagem, vira fonte de ansiedade, inquietação e alienação do corpo, a cada santo mês da sua vida.

Tudo isso me lembra um pouco um simulacro de resgate de rituais tribais³ nos quais as meninas mudam imediatamente de papel nas suas sociedades com o primeiro sangramento, ficando impedidas de viver sua infância – que não acaba imediatamente com a puberdade. Acredito que esses grandes rituais femininos não são diferentes, mas incorporam a parte que nos cabe na reafirmação de sistemas patriarcais, na garantia de seu funcionamento integral. São a celebração de nossa condição de outro, de menos humanas, menos “gente”, menos sujeito. Não tem nada a ver com aceitação e “pacificação” das nossas especificidades. Tem a ver com transformá-las em tabu.

THERE WILL BE BLOOD, ensaio fotográfico de Emma Arvida Bystom 3

Não seria mais legal e estratégico se as mulheres que infelizmente mantêm uma relação ruim com o seu corpo pudessem dizer “ya basta!” olhando para suas experiências com mais naturalidade? Felizmente, minha vivência se transformou, ao longo do processo de construção da minha identidade, em uma relação potencialmente muito parceira e solidária com meu corpo e seus ciclos, embora já tenha tido meus percalços com cólicas homéricas e constrangimentos socialmente impostos. Elas mesmas foram resolvidas com uma boa dose de autoafirmação e desejo de estar bem comigo, a despeito de conselhos médicos que me induziam a encará-las como uma experiência essencial do “ser mulher”. Reconciliar-me com a menstruação só foi possível quando recusei todo e qualquer simbolismo aprisionador que me retirava o direito de desencanar com meu corpo, o vendo como “coisa” minha, viva, como instrumento e aparato que tende a funcionar a meu favor.

Não é mérito menstruar. É mérito lutarmos por nosso direito às possibilidades de uma vida humana, plena. Menstruação não é jornada épica. É só o nosso corpo, sendo vivo.

¹ Este texto foi escrito a partir de debates enriquecedores com as militantes Xênia Mello e Luciana Nepomuceno. Além delas, preciso ressaltar a parceria sempre presente na elaboração das minhas inquietações, construída com a minha irmã Alexandra Bandoli e minha mãe Margot Bandoli.
² A memória me trai e me faz perder informações essenciais obtidas lá nos idos da graduação. Fico devendo, envergonhada, a referência adequada do texto. Mas acredito que este seja uma produção de Françoise Héritièr, antropóloga estruturalista e feminista francesa. Se alguém se lembrar da referência, é de imensa gentileza compartilhá-la aqui.
³ O uso deste termo não é exatamente consensual nas Ciências Sociais, em especial na Antropologia. A alternativa encontrada seria o uso do termo “sociedades tradicionais”, mas talvez ele perca um pouco do potencial de comunicação para pessoas de outras formações e saberes, bem co mo implique em determinadas conseqüências políticas – como é intrínseco à produção científica em geral – que opto por não assumir, no momento.
Imagens do ensaio fotográfico THERE WILL BE BLOOD de Emma Arvida Bystom, que retrata mulheres menstruadas em situações cotidianas.
mabele*Mabelle Bandoli é cientista política, formada pela Universidade Federal do Paraná. Carioca radicada em Curitiba, acha o “Rio de Janeiro uma beleza” e “ora sim, ora não” crê que “dor não é amargura”. Feminista com raízes que vão desde sua “mil- avó”, “carrega bandeiras”, hoje, no cotidiano não institucionalizado de movimentos sociais e partidos políticos, sabendo-se profundamente devedora deles para sua (trans) formação como ser humano. Na batalha pra ser uma “mulher desdobrável”, vai levando a vida e pelejando pra “cumprir a sina”, escrevendo, falando e vivendo o que sente.
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14 ideias sobre “Um basta ao mito da “heroína incomodada”¹

    • Fred Caju, a poesia só me faz seguir a linha de raciocínio que me fez escrever este texto. Veja bem: “[…] “O sangue masculino/tinge as armas e
      o mar /empapa o chão/ dos campos de batalha / respinga nas bandeiras/ mancha a história.//O nosso vai colhido/ em brancos panos/ escorre sobre as coxas
      benze o leito/manso sangrar sem grito/que anuncia
      a ciranda da fêmea. […]”
      A essencialização do que é ser bicho-mulher e sujeito homem aparece na separação entre o sangue masculino (remetido à agressividade, virilidade, potência como sujeito histórico no espaço público e das grandes relações de poder) X feminino (sempre relacionada à doçura, procriação, mansidão, objeto animalizado que se domestica e se guarda em casa. Muito sangue de mulher se derramou nas guerras. E muito (muito mesmo!) desse sangue, veio de combatentes no front. Nem toda mulher menstrua. E mulher é mais que doce adorno domesticado para leitos de alvos lençóis. Não acho menstruar “bonito”. Acho normal, como é normal e corriqueiro suar.

  1. Querida Mabelle (ou seria “minha bela Mabelle”? – lindo nome!),

    Estou muito feliz de ver que o movimento do “Sagrado Feminino” está sendo reconhecido como tal no meio dos movimentos feministas e gerando discussões assim. Sim, sou dessas 🙂 Mas ainda não descarte meus pensamentos, vamos quem sabe buscar algum ponto comum nos nossos discursos?

    Eu acho que cada mulher segue na busca da auto aceitação, auto determinacão e empoderamento como quiser, com quaisquer instrumentos/textos/idéias que reverberem dentro.

    Se você não sente a menstruação como sagrada, e ficou em paz com seu corpo de outro jeito, que bom! O objetivo é o mesmo e o final, feliz. Cada uma no seu caminho. Eu continuo achando/sentindo a menstruação hiper mega sagrada, e quem quiser ritualizar isso, ótimo. Quem não, ótimo também.

    Não acho que tem pressão nenhuma, nem acho nocivo esse endeusamento da menstruação. É mais uma alternativa que se abre para a mulher moderna se afirmar. Não precisa ser A alternativa para todas.

    Se for visto como pressão essa sacralização, então acredito que uma pressão paralela seria a ode de muitas feministas à liberdade sexual, que poderia “forçar” as mulheres a fazer o que quiserem com seus corpos e quem sabe tentar espelhar a liberdade que os homens sempre tiveram, sem considerar que para muitas, o sexo pelo sexo, pela liberdade sexual, não faz bem.

    Mas tudo bem, não estou dizendo que é errado, se for visto como MAIS UM caminho. Tem mulher que gosta, outras não.

    E tá de boa.

    Vamo juntas, mulheres. Que o objetivo é o mesmo, ainda que caminhos sejam diferentes. Vamos nos encontrando, e encontrando umas às outras, nos apoiando, respeitando nossas diferenças e, quiçá, exaltando alguma semelhança que possa existir por aí, entre eu e você, entre todas nós.

    Beijos!
    Julia

    • Julia,

      acho que a questão que a Mabelle trouxe é um pouco mais abrangente do que o simples “vamos fazer o melhor pra cada uma”. Porque o “melhor pra cada uma”, de maneira estrutural pode ser excludente e opressor para muitas. Sacralizar coisas como menstruação ou parto porque são naturais e conferir-lhes status exclui e oprime mulheres trans, por exemplo, assim como oprime e exclui mulheres que estão na menopausa, mulheres que tiveram que retirar o útero, etc. Não penso que se trate de uma questão de opinião, mas de posicionamento político, mesmo.

      Acrescento que não consegui entender o paralelo com a questão do que você chamou liberdade sexual que poderia forçar (oi, liberdade? forçar?) mulheres a ter relações sexuais sem que seja seu desejo. Não consigo imaginar porque uma luta para que a mulher seja autônoma e senhora do seu corpo (e faça dele e com ele sexo quando, se, com quem e como quiser) poer ser comparável, já que esta luta inclui, evita julgamentos e hierarquizações e não o contrário.

  2. Ah entendi, certíssimo Borboleta!

    E propaganda de livro, pode?

    Esse livro foi escrito por um ginecologista de São Paulo (não tem nada de nova era nem sacralização, eu juro!): chama A Inteligência Hormonal da Mulher, e fala da importância de conhecermos nossos estrogênios e progesteronas, como eles atuam no corpo e no cérebro e por aí vai.

    Super recomendo, é científico e interessante!!!

    http://books.google.com.br/books/about/Inteligência_Hormonal_Da_Mulher_a.html?id=ItJNKaFJNmYC&redir_esc=y

    Beijos!

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