Bora mudar de xingamentos

Um xingamento. O que se diz quando se está com raiva. Do que é que você chama alguém quando tá com raiva? Seja num jogo de futebol, seja numa discussão acirrada, seja num momento de revolta com gente que tem poder e está extrapolando? Do que é que você chama?

Parece simples. Parece óbvio. Parece inevitável. “É cultural, você ouve isso desde criança”. “Não quer dizer nada”. “É paixão, é descontrole momentâneo”.

Aí é que vem. Do que é que se está falando? Nossa machista sociedade guarda um espaço todo especial para xingamentos envolvendo formas de chamar homossexuais. Tem toda uma gama de xingamentos nessa linha: viado! boneca! Bichinha! Vai dar meia hora de cu! Vá tomar no cu! E por aí podemos prosseguir por várias páginas. Não quer dizer nada? Como não? Se isso é xingamento, é evidente: ser viado, ser bicha, ser homossexual enfim, é ruim. É feio. É algo que se grita com violência. Dar o cu é vergonhoso. É algo de que a pessoa deve se desculpar, que deve esconder. Não é pra ser feito. Não é pra ser dito. A menos que seja um xingamento. Que diminui. Que humilha. Um insulto. Uma agressão verbal.

Protestam contra a repressão aos xingamentos: “é o politicamente correto”, essa praga. “O mundo encaretou”, dizem.  Vocês acham isso mesmo?  Tem certeza que não conseguem ver ligação entre esses xingamentos “passionais” e corriqueiros, e o fato de que o Brasil tem um assassinato de homossexual a cada 26 horas, quase um por dia? Assassinatos realizados por gente que se chama de “homem de verdade”, que não pode admitir, não pode suportar gente percebida como diferente. Como outro. Como  alguém que é exatamente aquilo que, desde crianças, ouviram como xingamento.

E, assim como esses, outros “outros” são usados como xingamentos.

Viado. Puta. Biscate. Filha da puta.  Sapata. Vadia. Tantos outros.

Xingamentos que a gente ouve desde criança. E que moldam idéias, sentimentos.  É um trabalho se dar conta, mudar de hábitos, se desfazer de termos que foram por tanto tempo naturalizados como xingamentos. Ninguém disse que era fácil. É um processo trabalhoso, demora, irrita: pois xingar não é justamente dizer o que vem à cabeça, deixar de exercitar o controle? Sem dúvida. Mas a gente tem que se dar conta que a construção desses termos aí como xingamentos não tem nada de natural. As palavras têm peso, as palavras tem ponta afiada, as palavras entram na carne e na autoestima de gente que não tem nada a ver com isso. Gente que depois leva pancada. Por ser puta. Por ser viado. Porque o que ele ou ela é pode ser usado como xingamento.

Bora desconstruir então. Bora. Bora parar com essa idéia de que, quando se quer xingar, tudo vale. Respeito começa aí, no desnaturalizar o que agride o outro. Vamos desconstruir.  Vamos parar com esse olhar “de cima” (de cima de onde?) sobre o outro. Vamos incorporar: não é o outro. Somos nós. Nós, biscates. Nós, putas. Nós, viados. Nós. Com orgulho. Com leveza. Com uma vontade teimosa de desmontar preconceitos. Mesmo quando é difícil. Mesmo quando a gente fez isso desde criança. Mesmo quando o pai da gente, a mãe da gente. E não por mal: apenas “foram criados” assim. Bora fazer diferente.

Ecoou nos recentes protestos do Rio de Janeiro um grito irreverente,  que tem o espírito do que tento dizer aqui:

Ei, Cabral
Toma da polícia
Porque tomar no cu
Eu te garanto
É uma delícia !

 

 

 

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12 ideias sobre “Bora mudar de xingamentos

  1. concordo totalmente, to fazendo um esforço danado para parar de usar esses xingamentos porque me dei conta de que eles são sempre contra os oprimidos. Você falou mais do caso dos homossexuais. Vou falar um pouco do caso das mulheres.

    Se um cara é cafajeste ele é Filho da Puta. como assim? O que o fato de uma pessoa ter nascido de uma mãe que trabalhava como prostituta tem a ver com o caráter dessa pessoa? E por que a mãe é sempre a culpada? Por que não dizemos: filho de um machista! Não…Mas dizemos “bastardo” que, de novo, remete ao fato de que a pessoa em questão deve ser filho de uma mãe que não casou, portanto, de novo, tudo culpa da mãe. E essas mães que são culpadas, são sempre aquelas que não seguiram devidamente a cartilha do patriarcado: não casaram, foram sexualmente livres, etc. Por que?

    Pois é. To fazendo um grande esforço. To usando bastante cretino, cafajeste, desgraçado…outro dia usei desprezível. Sem culpar a mãe de ninguém e muito menos sem julgar as mulheres que não tiveram o comportamento que o patriarcado exige delas.

    • É exatamente esse esforço, aiaiai. Eu também tô fazendo, é trabalho de todo dia. Tem uns que dá pra usar, que não têm foco em oprimidos. E é mesmo uma reeducação. Mas não tem jeito, se a gente quiser ser coerente a gente paga o preço.
      Obs: nesse post aqui foquei mesmo mais nos homossexuais, só lembrando que existem outros grupos que são permanentemente atingidos por “palavras perdidas” que não tem, na verdade, nada a ver com eles.

  2. Apesar do aprendizado de não se ofender com viado ainda ser inconcluso, o puta, vadia já é um aprendizado mais fácil por ter as mulheres do biscate como professora. ;c)
    Vamos desconstruir. Bora fazer diferente.

    • Pois é, tem esse lado também, Claudio. De aprender a não se ofender, como uma proteção, como uma defesa. Mas eu acho mesmo que a gente devia era tentar reconstruir e usar outros termos pra gritar contra os juízes, os goleiros e os artilheiros que perdem pênaltis…

  3. E remarcavel como todos os xingamentos tem como principal acusaçao o comportamento sexual. Quando quers xingar as mulheres a observaçao sempre se volta ai comportamento sexual mais livre do tipo puta , galinha etc ,mas com homens jamais porque pros homens ter comportamento promiscuo é elogio, mas ofensa é associar o comportamento sexual masculino ao a de uma femea , o de suposta receptividade.

    • Pois é, Sofia. Nesse texto acabei optando por não incluir os xingamentos raciais, porque aí seria praticamente um novo texto.
      E então a gente fica, mesmo, com os termos que tratam da vida sexual dos outros.
      Num mundo onde esse comportamento fosse de fato tratado como de foro privado, esses xingamentos perderiam completamente a razão de ser…

  4. Recordo-me numa aula de Alemão em que um grupo fez uma exposição sobre xingamentos usados naquele país. Todos eles estavam mais voltados para incapacidades intelectuais (medíocre, burro, imbecil, desatento…) do que alguma característica física e, muito menos, por orientação sexual ou profissão. Curioso que a ofensa maior ali era algo que, ao pé da letra, era “cale seu focinho!”… Pequena diferença cultural…

    E o que espera de alguém que ouve “Vá te foder” ? Eu n perderia tempo nem respondendo… Iria direto ao ato. Se a pessoa que xingou fosse gato, eu sugeriria a ela fazer comigo o que mandou-me.

    • Sobre Alemanha não posso opinar, Elliott, por falta de conhecimento. Mas a reflexão vale, acho: o que se usa comumente como termo quando se quer agredir outra pessoa fala muito dos preconceitos de cada sociedade.

    • muitos ficaram de fora. Porque o texto fala de xingamentos que tipificam pessoas. A reflexão aqui é sobre como você se dirige a outra pessoa para xingá-la. Nesse sentido, o que deixei de fora – por se tratar de outra categoria de xingamentos – foram os xingamentos vinculados à questão racial. Que merecem outros textos.

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