Casa de biscate

Nunca morei em muitas casas nessa minha vida. Então, mudar pra mim tem algo de levar as raízes pra se fixarem outro lugar. O nomadismo não combina com a minha pessoa. Aguento ser do mundo apenas por pouco tempo. É verdade que trabalho no interior e por isso viajo toda semana. Mas a minha casa é aqui, ou melhor, um apartamento térreo incrustado numa movimentada avenida de uma capital nordestina. Eis minha residência. É pra cá que trago amigos, amores, problemas, provas pra corrigir e projetos a escrever. Devo a este imóvel de 60 metros quadrados, comprado em prestações a perder de vista pela caixa econômica, minha independência emocional.

Ainda escrevo as memórias desse sofá de cor tão discreta...

Ainda escrevo as memórias desse sofá de cor tão discreta…

Tenho muita saudade da casa da minha mãe e da minha irmã – única família – mas não quero voltar pra lá; nesse ousado projeto de viver sozinha, desafio que fiz a mim mesma como meta existencial maior, tenho aguentado as chatices de acordar e ver a louça suja, a pia entupida, a geladeira vazia, as garrafas para encher e o chão cheio de cabelos que despencam da minha farta e voluntariosa cabeleira.

À parte dos momentos tediosos do cotidiano de quem mora só, esse apartamento tem muitas e dignas memórias. De quando a minha melhor amiga anunciou sua gravidez; de quando trouxe o meu ídolo pra cá, pra gente tomar vinho e ouvir música; de quando eu tive um acidente de carro e fiquei me recuperando deitada na cama; de quando acertei cozinhar sardinha na panela de pressão; de quando aprendi a sobreviver aos dias de dedetização e baratas zumbis e cambaleantes invadiam meu espaço; de quando, mal e porcamente, ensinei a Narcisa a dançar tambor de crioula; de quando comecei a entender a causa de amores passageiros e ligeiros… Enfim, a lista é grande e significativa demais. As baratas sabem disso!

Às vezes penso em povoar essa casa com plantas, gatos, cachorros e até filhos. No segundo quarto que atualmente não é de ninguém, poderia habitar um bebê chorão que em anos se tornaria um adolescente chato. Peraí, pensando bem, não, melhor não. Por ora, a única coisa que penso em criar e maturar aqui comigo é um bom chileno cabernet sauvignon. Porque, jogando nas bases da franqueza, não tá sobrando e nem faltando nada.

E isso tem bastado pra biscate aqui ser quase feliz.

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6 ideias sobre “Casa de biscate

    • Lu, às vezes dá medo arcar sozinha com tanta responsabilidade. Mas a sensação final que fica é boa, é de poder e realização. Adoro ser dona da minha casinha!

  1. …na casa de biscate sempre cabe mais um ou mais uma. É acolhedora..lugar de risos e de lágrimas. Falo como uma autentica frequentadora do lugar! Tenho uma notícia boa: vamos para lá! Ai, não estou bem: é para lá que eu vou. Naquele sofá cor-de-beringela que conversa com um quadro abstrato-geométrico, muitas conversas aconteceram. O melhor é o sorriso da biscate-mor ao abrir a porta, é como se ele (o sorriso) dissesse: vocé é bem-vindo, a casa é sua, volte sempre! E eu, eu não resisto. Viva a biscataria!

    • A biscate-mor se compraz em receber amigas como tu, que me inspiram a coragem e a viver a vida conforme regras próprias, de quem escreve com letras maiúsculas seu destino. Biscates-autoras, biscates que se jogam, que assumem suas escolhas: é isso que somos.

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