As desvantagens de ser invisível – malcriações translésbicas

Por Fernanda Monteiro**, Biscate Convidada

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Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Sabe, adiei muito a confecção deste texto, que me fora encomendado com carinho pela minha eterna @deb_em140gotas, essa bárbara (permito-me o trocadilho). Adiei por me sentir inapta a expressar a dimensão do tema, quanto mais de forma competente como retratados aqui, aqui e aqui, textos que condensam tanto do que disse que até servem como glossário para este (e tantos outros aquis e tantas outras vozes, que me senti encarregada de, antes de escrever, expressar minha pouca voz com outras pessoas transfeministas na intenção de fazer algo um pouco mais colaborativo – não deu em muito, razão abaixo, mas vai do meu jeito mesmo, ainda assim).

Adiei porque não sou qualquer voz de respeito neste meio, ao contrário, venho cavando afonia e me sinto cada dia menos trans, menos negra, menos feminista, menos escritora. Sinto-me à vontade para dizer que sou uma futura stealth* (futura? já ajo como tal se não me solicitam, não fossem os perjúrios com documentação e todo o processo legal que persiste em nos tornar inviáveis, além do mais), sou um paradoxo ao escrever este texto por ser quase invisível o bastante para torná-lo absurdo.

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E por fim ao dizer isso já conheço os adjetivos todos a seguir: dramática, vitimista, histriônica. A cada palavra me convido a ser uma voz a menos em um universo em que eu, predominantemente lésbica (contudo melhor adequada sob o chapéu da pansexualidade), longe dos nichos translésbicos, me sinto convidada a possuir outro genital para exercer qualquer direito à minha sexualidade. Exagero? Não em um mundo cuja ótica genitalizadora te relega a certa sorte ao invés de ciência, à chance de ser “aceita”, mesmo que a diferença que tal “apetrecho” faça seja nenhuma – há poucas semanas, poderia dizer que nunca foi sequer utilizado, agora não mais; o que, embora não devesse ser um relato digno de culpa ou crime, e sim libertário, serve a muito como uma prova irrefutável da sua “virilidade” (sic). A sensação, para mim, é a de dildo de carne. Mas assim como não importa como seu cérebro te faz sentir pertencente a um determinado gênero e identificar-se com seus padrões (e suas quebras, especialmente), muito menos como seu corpo se comporta. Mais uma vez, desnecessária.

E assim, soando cada vez mais vocífera e dolosa. Meu discurso segue invisibilizando, e aos poucos vou fazendo questão do papelzinho incutido pela segregação nada soror de “pessoas normais”, machistas, radicais feministas. Pessoas. É um texto sobre como se jogar na cumplicidade. Sobre como não ser considerada audível. Sobre como continuar sendo considerada perigosa, violenta, ameaça a algo que você continua buscando a preços absurdos caso escolha tal discurso, a feminilidade. Aquela de caixinha e com um rótulo bem grande: contém padrões barrocos, euro-centristas e masculinos. Ou sobre como continuar taxada e demonizada, jogada na outra caixa, de vítima, que como tal pode ser culpabilizada por suas “más escolhas”.

Enfim, é um texto sobre como ser invisível. E ao contrário do personagem do best-seller de Stephen Chbosky devidamente referenciado, enxergar que não há nenhuma vantagem em sê-lo. Conforme-se, viva uma vidinha normativa e goste de homens “como qualquer mulher faria” (sic). Aí, eventualmente, seja reconhecida como tal. A outra opção sequer se critica. Existe gente bem melhor para falar das venturas da liberdade sexual, da liberdade amorosa, de como é interessante ser visível em um nicho que se pratica, que veste intersecionalidade.

Eu existo. Mas provavelmente estas são as primeiras e últimas palavras menos tímidas que me disponho a escrever. Fiquem aqui pelas pessoas trans* lésbicas, pansexuais, demisexuais, assexuais, e demais transcrições da expressão afetiva e sexual cuja definição parte da identidade de gênero e não do modelo genético, e cuja forma de expressão é irrestrita e criativa como a quase totalidade da expressão humana. Fique por quem importa e tem ou precisa de uma voz. Eu existo, mas por mim, um sumiço a menos já não faz a menor diferença.

* Stealth: significa “disfarce”, “camuflagem” ou até “invisibildade”

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**Fernanda Monteiro, nascida em um dia (gerado por computador) de 85, faz um pouco de tudo e um muito de nada, música pra ter voz, escrita pra ter discurso. Pode até parecer que não tem orgulho de ser uma mulher transexual, mas na verdade não tem orgulho é de ser humana.

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3 ideias sobre “As desvantagens de ser invisível – malcriações translésbicas

  1. Xuxu

    Ler seu texto me dá orgulho de você, por ter tido essa coragem de escrever, de mostrar sua visão, única, ácida, dedo na ferida.
    Mas também me enche de dor. Por que tem de ser tão difícil? Quando esse mundinho mesquinho em que a gente vive vai evoluir? Quando neguinho vai parar de querer criticar o que não entende, o que não é dele, o que não lhe diz respeito?
    Viva, minha linda, seja feliz. Y la mala leche para los caretas. Azar deles.
    Beijo!

  2. Essa semana conversei sobre não me
    sentir confortável com os rótulos e por tabela não me identificar com nenhuma tribo lésbica..etc. O que vale pra mim é amar, sentir prazer independente de gênero.
    Adorei o texto Fernanda, me estimulou a ler mais sobre o assunto, tenho que aprender muito sobre diversidade sexual.
    Nao se sinta culpada por suas escolhas.
    Bjs

    😉

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