Máscara

Porque os sonhos exigem. Porque o silêncio não nos protege. Porque o desejo lateja. Porque a gente insiste. Porque a gente acredita. Porque a gente anseia. Porque a gente foi desaprendendo as amarras. Porque a gente sente o corpo e o que ele pede é gozo. Porque a gente sabe que o Outro também dói na gente. Porque a gente não mede o salto, não fecha o olho, não solta a mão. Para o bem da verdade, a gente agarra com as duas mãos e, na hora que o coração pede, rebola pro alto. Porque a gente não se esquece de olhar pra trás, porque a gente sabe que tem que olhar pra frente, mas a gente gosta mesmo é de olhar pro lado e saber caminho e caminhantes. Porque a gente anda de cara lavada, mas usa máscara se for preciso. Porque a gente chora as pequenas perdas e grita as maiores. Porque a gente vela os mortos com luta. Porque a gente se incomoda. Porque a gente sustenta sem embaraço uma esperança teimosa e vadia. Porque a gente descobriu que o amor é uma coragem. Porque a gente sente que nas pequenas desimportâncias está a beleza. Porque repetimos poesia como mantra e sabemos que tudo vale a pena. Porque a opção é o horror, nos alimentamos de abraços e esperas. Porque é com o porquê na mão, no peito, na cara, que nos dizemos: gente. E então?

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Então, acendemos as luzes. Então, batucamos nas panelas. Então, arrancamos as vendas à força, tocamos os sinos, destelhamos as casas. Então, gritamos. Então, ocupamos as ruas. Então, damos a máscara a tapa. Então, cantamos, choramos, batemos, apanhamos, estamos. Então quebramos as normas, os padrões, as vitrines. Então seguimos, empurrando o cansaço com a barriga, carregando o medo nas costas, arrastando correntes, com nó na garganta e vazio no estômago mas com o peito  batucando o possível. Então tiramos as roupas, abrimos as veias e escrevemos na pele os projetos de futuro. Então recolhemos mortos, memórias, perdas e costuramos na carne a máscara que usamos na rua. Então descobrimos que sobreviver é uma ousadia, abraçamos o espanto ante nossa insistência em ser e seguimos, biscates de luta, de sonho, de gozo desenhando um céu de estrelas com caneta bic num papel de pão.

 

 

 

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