Não é Pelo Direito ao Amor

Por Everson Fernandes*, Biscate Convidado

Tem uma parte da militância LGBT*, mais precisamente G, onde me encaixo [na verdade, eu nem me considero um ‘militante de verdade’], que tem um apego que considero excessivo ao discurso sobre o amor. O discurso é quase sempre baseado no poder amar ao próximo. No poder constituir família. Poder viver o sonho do amor romântico burguês e heteronormativo. E não me importa muito que alguém queira vivenciar isso como um desejo individual. Incomoda-me quando isso vira um discurso militante, onde os direitos são reivindicados – pelo menos no nível do discurso – apenas aos que se enquadram nesses casos.

Não é pelo direito ao amor que eu faço minha luta. Não é pelo direito de amar quem eu quiser. Não é pelo direito de manifestar meu amor em público. Não é pelo direito de amar e ser amado por outro homem. É pelo direito de vivenciar minha sexualidade da maneira mais ampla possível, sem ser marginalizado, discriminado, violentado e desumanizado. É por eu poder trocar afetos sem necessariamente ser com alguém que eu ame. Pode ser com alguém que eu tenha conhecido hoje. Ontem. Semana passada. E não amar.

É pelo direito de quem não quer amar. Quem não quer manter um relacionamento estável, monogâmico, heteronormativo, etc. Quem não quer manter um relacionamento. É também pelo direito ao amor pra quem quer amar, mas não é só por isso. Minha luta não tá baseada no amor, nesse sentido. Minha luta tá baseada no direito de vivenciar. E não é um direito que eu suplico. É um direito que eu exijo.

438086083_640

É importante que, principalmente nós gays, revejamos nossas posições de certos privilégios em relação aos outros grupos da sigla LGBT*. Que desconstruamos nossos  machismos, homofobia, misoginia, transfobia. É inegável que entre  gays há muita misoginia, que quase sempre se manifesta em forma de “humor”. O machismo, em grande parte, se manifesta na ridicularização “das passivas”, que também é  reflexo da misoginia. Sem falar no elitismo e classismo que são fortemente reproduzidos entre gays – o clássico caso da “bicha pão-com-ovo”. O preconceito geracional se mistura com homofobia e machismo na divisão dos homossexuais mais velhos em “tios” ou “daddy” e “bicha velha” ou “tias”. Sendo classificados como tios ou daddy os homossexuais com mais idade que se enquadram num perfil mais higienista, reprodutor de padrões de corporalidades e beleza. No segundo caso, resta aos homossexuais a partir de certa idade, que estão mais à margem desses padrões, e são, em geral, efeminados.

Outro ponto que precisa servir de reflexão e desconstrução por parte dos homossexuais masculinos, é o binário ativo/passivo como categorias fixas. Quando essas categorias são fixadas e se tornam um discurso normativo, a reprodução dessa binaridade também é a reprodução de ordem heteronormativa e misógina. A visão de ativo como desempenhante do papel de homem, provedor, líder e de fodão, enquanto o passivo é retratado como submisso, projetado como a mulher da relação, é marginalizado e muitas vezes ridicularizado é extremamente machista, misógino e – de novo – heteronormativo.

ThumbnailFS

É função e dever de todos nós gays, especialmente gays brancos, de continuarmos em luta e não nos acomodarmos com a conquista de alguns direitos que beneficiam principalmente nós mesmos, e em especial os de poder aquisitivo maior, enquanto os outros grupos continuam na marginalidade, invisibilidade e discriminados. É importante continuarmos atentos às investidas de grupos conservadores e somarmos forças no combate à lesbofobia, bifobia, transfobia. É importante que todos nós trabalhemos para mudar a sociedade e não para que a sociedade nos mude e nos molde a ela: classista, machista, misógina, elitista, capacitista etc.

Para que o combate às reações conservadoras sejam ainda mais eficazes, é preciso que haja uma radicalização por parte das pessoas que lutam contra essa ordem heterossexista, que é responsável por centenas de mortes por ano e aprisiona milhares de outras vidas em seus aspectos sociais e psicológicos. É preciso que os gays em geral percebam que continuar reproduzindo uma série de comportamentos e discursos que visam  manter o status quo pode tornar a luta mais longa e difícil.

everson

*Everson Fernandes biscateia como quem samba de ladinho. No twitter, nesse ritmo: @eversonF.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *