Reinvenção do amor possível

Reinvenção do amor possível. Ou impossível.

Porque uma das raras certezas que eu tenho, nessa vida corredeira, é que tudo está em constante transformação. Nossas pequenas moléculas vibram a todo tempo, e a gente com elas. Movimento de barco, esteio móvel, areia que molda diferentes formas carregada pelos ventos. Ventos improváveis, ventos leves, ventos avassaladores. E sempre tem vento. Somos todos filhos do tempo.

Uma das poucas coisas que sei, dentre tanto que não sei, é que a impermanência é nossa base, uma rota permanente feita de muitas transformações. Quer nos reinventemos ou não, a vida passa como um rio, e as margens mudam com a constante força das águas.

Reinventar-se não é tarefa fácil nesse nosso mundo capitalista que busca ilusórias certezas. Segurança jurídica. Lucro no banco. Investimento em imóvel que cai na bolsa e cai no chão. Guardar. Casar. Contratar. Acumular. Definir. Papel passado. Para sempre sem sustos. Rá rá rá. O susto vem com ou sem certezas. O papel rasga e o novo sempre vem. O inesperado tá na rua. E a gente pode ir. Reinventar-se sempre, e a todo tempo. Porque o susto passa. Dentro do buraco é escuro e a gente não sabe, mas é bom. É, não ter pode ser bom. Liberdade assusta. Mas é amor demais da conta.

Aqui um poeminha escrito a quatro mãos com a minha amiga-irmã-poeta-lindeza Kiara Terra, que divide tantas invenções e reinvenções comigo, rindo madrugada adentro das nossas tantas incompletudes e maluquices de cada dia.

amor

 

Passou de carrossel para montanha russa

Passou de montanha russa para montando cavalo à pelo

Passou de vou dar meus pulos para encontrei o trampolim

Passou de carrinho bate-bate para voando no trapézio

Passou de café requentado no microondas para feijoada com samba

Passou do apego para eu quero um passado agora

Passou de que saudades daqueles dias para Família vende tudo.

E da faxina na madrugada para organizando um álbum de memórias

—-

Passou de expectadora para protagonista,

Passou da mocinha para eu quero ser a vilã do filme

Passou de quem sabe um dia para só se for agora

Passou de só se for agora para quem sabe um dia

Passou de gata escaldada para tibum

E do tibum para barriga ralada no fundo do rio e eu quero de novo

Passou de princesa para mulher do povo

De sexo comedido para eu quero acordar o vizinho

Passou de coração passarinho para um cavalo no peito

Galopando, sem rumo, sem terra, sem rota

Passou do pijama para o vestido vermelho

Passou do chuveiro conta gotas para tomando banho de chuva

E do frio da chuva para eu quero uma toalha felpuda

 —-

Passou de qualquer migalha é lucro para seu muito pra mim é pouco

Passou de sapato reformado no sapateiro para prefiro sentir o mar nos pés

Passou do mais vale um pássaro na mão para revoada completa.

Passou de asa emprestada para me deixa voar agora

Passou de me deixa voar agora para seu colo é delicia

Passou do cafuné para flor no cabelo

Passou de mãe de família para mãe só dos meus filhos

E de mãe só dos meus filhos para eu quero ser mulher

—-

Passou de precisar caber para deixar-se transbordar para além das caixas.

Passou a brilhar no escuro passou a incandescer

Passou de já conheço os passos dessa estrada para amendoim torradinho

Passou do choro escondido para eu soluço no meio da rua

Passou do medo da dor para vem que eu seguro essa

Passou do vem que eu seguro essa para eu não aguento mais

Do eu sei para o eu sou pequena. Me pega no colo?

 —

Passou da loucura contida para a loucura declarada

Passou do deixar ser para o fazer acontecer

Passou do susto para o acolhimento de quem se é

Passou do guarda roupa cheio para não serve mais nada

e do amor certo para a reinvenção do amor possível

ou impossível.

 

 

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