A sexualidade das meninas ou a incompreensão dos adultos

O olhar recriminador do adulto sobre a criança. Aquilo que diz mais sobre quem olha do que sobre quem está na mira. O difícil exercício de compreender que crianças têm sexualidade, mas que não a categoriza, como nós, adultos, fazemos. Para uma criança, brincar é brincar. Um brinquedo é um brinquedo e pronto. Quem diz “isso é de menino”, “isso é coisa de sapatão”, são os adultos. Somos nós, que muitas vezes esquecemos que fomos crianças, que marcamos o que é aceitável ou não para nós.

Há alguns dias conversando com um casal de amigas sobre família e essa intensa relação de amor e ódio, elas me contaram algumas histórias sobre esse olhar castrador dos adultos sobre suas vidas. Elas diziam que obviamente nem se sabiam lésbicas durante a infância e a adolescência, mas sabiam que havia “algo errado” pelo modo como suas famílias se comportavam.

Eu tinha apenas sete anos de idade, quando fui apresentada às regras de uma sociedade machista, homofóbica (lesbofóbica, transfóbica), adultocêntrica, e heteronormativa. Brincava de descobrir corpos com uma vizinha de mesma idade, quando fui vista por minha irmã. Meu pai fez questão que a retratação fosse pública, enquanto esperava pelo castigo em casa, ele foi ao encontro dos pais da minha amiguinha. E de casa ouvia os chicotear do cinto e os gritos de dor. Eu despida, levei uma surra na frente de todas as minhas irmãs, irmãos e minha mãe, enquanto ouvia sermão, que tinha como objetivo me guardar de uma futura desonra. Ali havia tanta vergonha e resignação, e se a época tivesse consciência, diria que naquele dia Eva se vestiu. Passei uma semana sentindo dores no corpo e me sentia estranha perante meus colegas de escola e em casa era consultada se já tinha consciência do meu ato. Me proibiram de ser amiga de minha vizinha e nunca saberei como seria essa amizade. Me inscreveram nas turmas do catecismo, ganhei uma bíblia e por muito tempo fui obrigada a ir a igreja todos os sábados”.(M., 30 anos)

E tem duas coisas aí para se pensar: 1) não existe orientação sexual certa e errada. 2) os adultos deveriam ser mais tranquilos com suas próprias vivências para conseguir dialogar com crianças e adolescentes. A sexualidade feminina é reprimida desde a infância, enquanto a dos meninos é muitas vezes encorajada (quando voltada para as meninas, claro!). Quantas vezes adultos dizem “menina não senta de perna aberta”, “menina não anda só de calcinha pela casa”, “menina não dorme no mesmo quarto que menino”? E quando “essa menina” brinca com outra menina? Quando ela beija a amiga na boca? Encosta no corpo da outra movida pela curiosidade e por saber que é bom encostar em outra pele?

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Mas entendo também que a violência dos familiares sobre a criança são muito sutis quando se trata da “desconfiança da homossexualidade” da menina. E não são violências mais ou menos dolorosas que aquelas, porém são igualmente violadoras. Colocam as crianças- e aqui no texto, as meninas – numa posição em que elas não sabem o que fizeram de errado, mas que foi algo que deixou os pais/tios/avós/professores chocados, tristes, bravos. As crianças não têm como elaborar esse medo de abandono e podem querer “evitar” fazer isso de novo, sem nem mesmo saber o que fizeram.

Na adolescência, a sexualidade das meninas é cada vez mais vigiada e punida. O medo muitas vezes irracional que os adultos têm que elas namorem, transem, engravidem alimentam essa ideia de machista de “mulher pra namorar” e “mulher pra transar”. As adolescentes que estão descobrindo seus corpos e seus prazeres com outras meninas são alvo de perseguições na escola e a cobrança dos pais para que não assumam suas vontades e desejos.

Findando a adolescência, houve um all star vermelho na minha vida, comprado pela internet, um número a mais, um pouco grande para mim, enfim, um sapatão. Mas era lindo e era vermelho, o suficiente para ser meu tênis favorito. Por algum motivo misterioso (será?) estes tênis viraram alvo de perseguição da minha mãe, que dizia ser horroroso. Toda vez que os calçava, percebia que isto era um problema para ela, que tentava de tudo para que eu os tirasse, para que jogasse fora. E neste exato momento em que relembro, passados uns 10 anos do ocorrido, me dou conta de que: 1) os tênis sumiram (mother wins!) e 2) eles simbolizavam uma (homo)sexualidade até então só vislumbrada por ela.” (A., 30 anos)

Eu já tinha 18 e namorava a minha segunda namorada quando minha mãe descobriu tudo e contou pro meu pai. Foi uma conversa bem pesada, mas ao mesmo tempo aliviante pro meu lado porque eu não teria que mentir mais pra ninguém. O que me irritou e me irrita de lembrar é que nessa conversa e em outras que vieram depois meus pais ficaram pagando de compreensíveis e que ficaram chateados não pelo fato de eu namorar uma garota e sim pela mentira, por eu não ter contado pra eles… Mas minha gente, sempre fui intimidada com perguntas e comentários maldosos sobre a homossexualidade, porque eu contaria uma coisa dessas????” (A.,23 anos)

Mas nem só de histórias tristes deve se fazer a luta pelo reconhecimento das diversas formas de amar e se relacionar. Há sim, pais/mães/avós/educadores que respeitam suas crianças e que tratam a sexualidade de forma livre, sem opiniões inquisitórias.

Acredito que como professora tenho que questionar alguns modelos de comportamentos que nos são impostos. Trabalhei quase 5 anos na educação infantil com alunos de 0 a 4 anos e as vezes me partia o coração ver alguns comentários machistas e homofóbicos vindo das crianças. Sempre bati o pé pra eles entenderem que não existe cor/brinquedo/brincadeira/roupa ou qualquer outra coisa que seja de menina ou menino. Como também já briguei com adultos que reforçam esses modelos machistas/sexistas/homofóbico com as crianças. Uma vez duas meninas (de 3 anos cada, que estudam juntas desde o berçário e são super amigas) falaram que iam se casar porque se gostam muuuuuuuuuuuuuuuuito. Nossa, teve educador que quis morrer com esse comentário, chegando ao ponto de discutir na sala dos professores que esse comportamento era preocupante. Sorte que o resto da equipe não levou isso muito a sério. (A., 23 anos)

Nessa Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual (quinzena para nós que somos amostradas) é preciso pensar numa outra sociedade possível. Uma sociedade que tenha uma mirada menos arbitrária e castradora sobre as vivências infantis (Oi, Lu!), que mostra apenas que o importante é “a gente namorar com quem a gente gosta e que trata bem a gente”. (A.,23 anos). E, quem sabe assim, conseguimos naturalizar as relações que os adultos constroem e sermos mais felizes e em paz com nossos próprios desejos e sentimentos.

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