Das cruzes, ou sobre a vitimização

Dizem que cada um sabe a “cruz” que carrega. Um saber quase que fundamental. Conhecer a própria dor, ou dores, é a possibilidade de tomar as rédeas da própria vida, de tomar decisões conscientes – quem poderá dizer se são acertadas ou não? Mas o que dizer de quem, em nome próprio ou alheio, faz de alguma “cruz” um motivo de expressão da culpa coletiva sobre si? Como lidar com a vitimização?

As cruzes nossas de cada dia

As cruzes nossas de cada dia

Vitimizar é um processo de mão dupla. Começa em um lado não entender a dor do outro e o outro buscar atenção, por vezes supervalorizada, para si. Mas, atenção: vitimização não é aquela pessoa que chega pra você e quer conversar sobre um problema e você não está com saco. Isso é alguém com um problema e você, provavelmente, uma pessoa sem saco, ou um babaca, ou alguém que não se acha íntimo suficiente para tal. Vitimização é fazer do próprio sofrimento uma bandeira de privilégio. Vitimização é fazer da própria dor algo maior que a dor dos outros.

Eu sei, tem gente que tem bicho de pé e tem gente que tem HIV, tem gente que nasceu negro, pobre, marginalizado e tem gente que nasceu no Leblon, mas quem disse que a vitimização não está justamente em entender a dor do outro em relação à própria dor? Aliás, uma grande questão é como medir – se é que isso é possível, um sofrimento pessoal face ao convívio social? Quem tiver a resposta, tenho aqui alguns doces…

Suspeito, contudo, que é justo na dor do outro que encontramos a forma de entender e lidar com a própria dor – e não estou falando no “olha como ele sofre, que sorte que eu tenho”. Se é que essa existência serve para alguma coisa, ela serve para o fazer junto. Assim como nos satisfazemos em ter prazer com o outro, procurar lidar com a própria dor junto com a dor do outro é uma forma unir forças e encarar a realidade. É, sobretudo, uma forma de buscar apoio aos próprios problemas em um processo de troca. É uma forma de buscar carinho e apoio em alguém que tenha uma possibilidade de lhe entender.

Não por acaso, a tônica dos coletivismos minoritários é essa. Utilizar a própria situação de marginalidade, de enfrentamento do preconceito e da exclusão para reunir forças e se fazer valer para além de sofrer a existência. E, por favor, não entendamos a alegoria da “cruz” como algo imposto, como algo irrefutável. Talvez não seja a melhor alegoria para dor, mas tem a força simbólica, para além da religião, de um processo de superação. Afinal, entender a própria dor é um grande passo no auto-conhecimento, que não vai diminui-la, mas desconstruirá a ótica de “fantasma”que ela possa ter.

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