Amor amigo

amor amigo

Quando você chegar

Não precisa interfonar,

Mete a mão na maçaneta e pode entrar

Você já sabe onde fica tudo aqui em casa

Fique à vontade, sem cerimônia*

Existem tantos jeitos e possibilidades de amar que tentar enquadrar algo já é, no mínimo, excludente. Amor não precisa de rótulo, nem de nome certo, nem de aliança apertada, nem de nó, nem de. Amor só precisa mesmo é de amor.

E nesse amar, cabe tanta coisa. Amor vasto e bom que lambe feridas e nos ajuda a seguir em frente. Que nos infla os pulmões. Estar junto para mais, para rir, para chorar, para falar besteira, para se embebedar e ver o dia nascer, ou só para ter presença. Ou para fazer sexo. Ou para dormir de conchinha. Ou para dar as mãos quando a gente tá com medo, para amenizar a solidão, para dar prazer, para compartilhar uma leitura, uma indagação da vida, um medo. Cabe tanto.

Cabem tantas possibilidades de amor e é bonito ver que cada um é um, cada um entra no nosso barco de um jeito diferente, e ocupa um espaço que não é de mais ninguém. Os amores não se excluem, não. Ledo engano. Eles se somam. E se transformam, sim, somos mutáveis, e os amores também. O amante que vira amigo, o amigo que vira amante, o amigo que vira irmão para sempre. Tantos irmãos – coisa boa que é o amor irmão. Amor de cumplicidade que nada pede. É só banquete de alegria.

Os amores variam e se contornam de muitos jeitos. Às vezes diminuem, às vezes mudam de lugar na prateleira, às vezes ganham novas cores, às vezes crescem tão grande que temos que abrir todas as janelas para que possam respirar. E às vezes evaporam. Mas o nome para cada um é a gente que dá. Ou não dá nome nenhum, o que é ainda melhor. Deixar ser e viver o que se é.

amor amigo

Tu já é de casa

Te conheço há tanto tempo

Sei de tudo, leio até teus pensamentos

Das novidades, te conto amanhã bem cedo

Pois entre a gente nunca houve segredos

Na geladeira tem salada

O incensário tá no armário

Aquele verdinho que você gostou

Deixa queimar

Não precisa me esperar pra nada

Você é a visita que eu gosto de ter em casa*

Ter um amigo amor e amor amigo é um presente. Um amor demais da conta, que nada exige ou espera. Que não precisa de nada além. Carinho de amigo cheio de afeto. Um colo bom para descanso. Um telefonema de alguém que está ali. Às vezes sem qualquer sexualidade, às vezes com carinho e sexo junto, ou de vez em quando, porque cabe como extensão do amor. Da admiração. Dos copos e das risadas partilhadas. Das intimidades. Porque não? Porque definir tudo com uma exatidão que escapa por entre os dedos?

Demonstrar afeto é bom. Sexo não seria, também, uma forma de afeto? Um dia, uma bebida, um carinho, um beijo no pescoço, um afago no corpo cansado, um gozo desavisado, uma vontade de. E pronto. Não precisa ser mais nem menos, e nem ter caminho nem rota traçada. Amor amigo é um prazer que pode, para além de qualquer limitação, viver como o pulso e respirar o dia livre. Porque ele volta e é folha leve na ventania. Ele é a base de muitos acordes.

Só não vá confundir

Todo esse amor

Se eu te dou carinho é só

Pra ser bom

Nunca passou de amizade*

E se houver confusão? Bom, aí a gente olha, e explica. Ou ri porque não se explica nada. Desenrola o novelo, conversa com sinceridade, se descobre. Pode ser que mude, e pode ser que não. Porque a gente nunca sabe. E de repente quem sabe. E pode acontecer também o inverso: tentamos o sexo, não rolou. Era para ser amante, namoro, qualquer união, mas não foi. Mas tinha amor. E o amor pode ser amigo. Tão bom quando isso acontece.

Porque o amor pode continuar a seguir seu curso desgovernado de rio, e se multiplicar em muitos outros amores sem nome que ainda hão de brilhar por aí.

*versos da música de Mariana Aydar. Aqui em casa.

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8 ideias sobre “Amor amigo

  1. Olha, eu como homem não sei oq dizer de pessoas tão “superiores” assim, vcs são as mulheres que homens q não são machistas boçais procuram! e procuram para que? para serem amigas do peito! para dividirem momentos únicos…para sermos felizes no eterno espaço do viver de cada dia…parabéns pelo texto e pelo blog! sou fã desde já! um grande abraço!

    • Oi Gustavo! Fico feliz que tenha gostado do nosso blog. Chegue sempre! Quando a sermos “superiores”, somos não. rsrsrs. Somos bem falíveis assim como todo mundo. Mas buscamos a liberdade de sermos quem somos. e um amor mais livre de opressões!! 🙂

  2. parabéns por esse texto tão leve, tão suave. ele resume bem o que diferentes grupos pedem,clamam: não dar nomes. E neste caso, entre cair no “binarismo” amizade X paixão, ambos podendo ser regados de amor, você propõe ir-se vivendo, o que se transforma e como você disse “Porque o amor pode continuar a seguir seu curso desgovernado de rio, e se multiplicar em muitos outros amores sem nome que ainda hão de brilhar por aí.”. Excelente!

  3. Olá, que lindo este post. Concordo totalmente. Tenho um blog também e, certa vez, postei sobre o amor de uma ex-namorada no dia em que ela defendeu sua tese de doutorado.
    Vamos de encontro no pensamento sobre amor. Maravilhoso!
    Eu poderia reproduzir este teu post em meu blog? Obviamente, citarei a tua autoria.

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