Sobre o ato de ensinar

Sobre o ato de ensinar. Por uma professora biscate.

E para os meus alunos, todos eles. Os que foram, os que são, e os que ainda serão.

Cena do filme "Entre os muros da escola", de François Bégaudeau

Cena do filme “Entre os muros da escola”, de François Bégaudeau

Tem vezes que fico feliz só por pensar que faço o que gosto, em um mundo de trabalhos massificados e corporativos. Claro que nem sempre, e nem tanto. Nem tudo dentre o que faço floresce, navego também por burocracias e papéis contemporâneos e weberianos. Exigências de publicações, linhas de pesquisa e cadastros, processos administrativos de fluxos e aprovações, enquadramentos. Somos todos sujeitos a navegar numa caixa, vez por outra.

E no meio desse mar, também enfrento uma ciência que se faz ciência protocolar e nem sempre alcança os muros para fora da Universidade, desgastes de neurônios e conversas cíclicas que esboçam devaneios E não me refiro aos bons devaneios poéticos. Mesmo não tendo muros nesta escola em que me localizo, eles existem, metaforicamente, jardim afora. Por entre os ipês e as pessoas que passam espremidas nos ônibus, a nos mostrar que o mundo é maior e mais complexo do que qualquer livro.

É, nem sempre, ou quase nunca, a ciência alcança a sociedade, os olhos, as mãos e as mudanças necessárias. Falta-nos o empirismo honesto e despretensioso. Empirismo de riquezas não escritas. As poucas apropriações do que se faz em letras e teorias, tantas e tantas vezes, não alcançam resultados importantes para a sociedade que vivemos.

Mas, sim, as minhas ilhas, elas existem: vamos a elas. São muitas. A cada semestre ganho novas ilhas que me fazem acreditar que é possível a renovação, e que o saber pode ser compartilhado para mais. Onde aprendo mais do que ensino, e o que ensino se faz diferente a cada fala e a cada pergunta, a cada texto meu que se reescreve com o que eles me trazem de presente.

Descansos de mar verde e de amor. Porque acredito, e sinto no corpo que se move pela sala de aula, que educação se faz com amor. E sabendo que educar é, sempre, um ato político. Mesmo quando não é. Então eu tento, tento agir politicamente e trazer a eles possibilidades. Mais perguntas. Mais dúvidas. Mais inquietações para que eles possam, quem sabe, tomar o mundo. Multiplicar, fazer crescer, viajarem e me mandarem cartas de longe questionando os meus dizeres, dizendo que eu estava doida, que eu estava lúcida, que eu estava errada, que eu estava certa, que eu estava sei lá onde quando eles me ouviam falar. E que eles continuam pensando.

Então eu ensino, de repente, com um amor que me transborda porque eu acredito, acredito em cada risada, em cada olhar pensativo, em cada olhar profundo, em cada arroubo, em cada brincadeira partilhada. Eu acredito em cada um deles, mesmo quando eles dormem na cadeira ou passam a aula mandando mensagens pelo celular – o que eles fazem sempre.

Faço questão de sabê-los pelo nome, de tentar entendê-los como são, de poder abraçá-los e demonstrar meu afeto e minha gratidão por eles estarem ali, sentados a minha volta, me dando o que mais gosto de fazer nessa vida acadêmica: o ensino. Agradeço por eles existirem com sede de saber, partilhando comigo construções que sonham um mundo melhor.

 

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