#biscate #platônica

Por Cristina Charão*, Biscate Convidada

Faz dias que ensaio este texto. Um texto para falar de quanto de sexo cabe em 140 caracteres. Mas talvez eu esteja tão viciada nos tais 140 caracteres – e, por certo, no sexo e no romance que ali habitam – que aí já não sobra tesão para ir além.

Então, um tempo atrás, a Niara de Oliveira escreveu este texto aqui  – e cunhou a biscatagem platônica. E era exatamente disso que eu ia falar. Porque o quanto de sexo que cabe em 140 caracteres é todo o sexo que você puder imaginar. E eu imagino. Ah, imagino…

Imagino a barba por fazer do rapazinho que já tuíta suas graças às 9h. Imagino que ele saiba que aquela barba por fazer é mais uma das suas gracinhas e não teria nenhum pudor de me acordar no meio da madrugada roçando na minha nuca o queixo afiado por pelos que ainda são só uma sombra. E então ele me faz uma proposta absurdamente direta no meu ouvido, espera meu espanto virar risada, me abraça sorrindo marotamente…

Imagino que o atento analista, sempre tão preocupado em achar as palavras certas para expressar os conceitos certos em um mísero tuíte, me desmontaria em cinco frases. Não sem antes passar a noite toda me olhando, da outra ponta da mesa do bar, sem me dirigir palavra. Apenas olhando, como quem mede, pesa, apalpa, revira. Olhando através. Para, no final, me explicar quem sou eu com tal precisão que eu passaria a precisar dele pra sempre. E sairíamos do bar em silêncio, caminharíamos em silêncio até o carro. Mas eu me incomodaria com o silêncio, pularia no seu pescoço (sim, ele é bem mais alto do que eu, só lá do alto pode se ver tão longe) e lhe daria meu melhor beijo. A mão dele seguraria precisamente o meio da minha nuca e todo o resto da noite seria de precisão…

Imagino o permanente comentarista esportivo com uma esperada barriguinha de quem não pratica esporte algum. Imagino a indignação crescente ao ver seu time perder para o lanterna do campeonato, o silêncio raivoso ao final do jogo e, com o mesmo ímpeto com que bebia a cerveja em goles fartos, me faz sentar em seu colo, pede desculpas pelo mau humor, diz que só eu mesmo pra estar ali…

Imagino o efeito que minha nova foto ou aquele tuíte ou aquele link praquela música do Chico… Porque a gente não faz de propósito – que quando a gente faz de propósito, é outra coisa [é ciúme, é despeito, amizade ou horror] –, mas é claro que a gente imagina o efeito.

E neste tanto de imaginação a gente encontra uma certa satisfação. Certa, sempre ali, sempre a postos, que o que vai na cabeça da gente está à mão a qualquer momento. Mas esta satisfação que vem do que se imagina não substitui o que não é ideal. Então, não se preocupe se eu não te imagino. #ficaadica

CrisCharao*Cristina Charão [@cris_charao] é uma jornalista que vive de biscates – ou uma biscate que vive de jornalismos. É mãe, mas não mãezinha. Às vezes mulherzinha, às vezes mulherão. Gaúcha. (Sim, eu sei fazer churrasco. E troco lâmpadas. E mato baratas. E faço ballet nas horas vagas.) Fala mais do que faz. Escreve menos do que
pensa.

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