Biscatinha Social Club

Por Cíntia Moraes, Biscate Convidada

 A revista Capricho, voltada para o público adolescente, recentemente tem nos dado provas e mais provas que deixou de ser uma revista interessante, sequer aceitável. Antes, ilustrava em sua capa garotas segurando uma camisinha e tinha páginas e mais páginas falando sobre liberdade sexual e sexo seguro, hoje em dia não entrega mais do que posts que só reforçam o papel que o patriarcado quer que as mulheres exerçam:  um enfeite interessante e bem comportado, ciente de que seu lugar é sempre secundário na História e em sua própria vida.

luana-piovani-na-capricho---marco-de-1993-1335822251386_300x420

Luana Piovani na “Capricho” – março de 1993

Capricho1166

Capricho 2013

Matérias como ‘meninas pra namorar X meninas para ficar’ [que depois de muita repercussão negativa foi devidamente excluída do site da revista] são um exemplo claro de que a publicação é um absoluto desserviço para jovens que estão vivenciando suas primeiras experiências sexuais. Além de nos deixarem com a impressão (?!) de que a Capricho não passa de uma fábrica de leitoras da revista Nova: mulheres heterossexuais que acham que liberdade sexual é sobre criatividade para satisfazerem todos os desejos de seus parceiros. Tudo pra eles, nada pra elas.

Fica difícil imaginar que se essas potenciais leitoras de Capricho não tiveram a sorte de crescer num ambiente feminista elas tendem a reproduzir o tipo de comportamento ‘ensinado’ em publicações desse tipo, além de sofrerem opressões que sequer imaginam que tenham um nome: machismo. Como exemplo claro temos a menina dando o depoimento na própria Capricho sobre sua primeira vez ter sido terrível porque ela foi forçada a transar, falando sobre o quanto se sentiu mal com isso, mas que entendeu que primeiras vezes não são lá muito boas mesmo e que hoje deu a sorte de estar com um cara legal mesmo não tendo conseguido manter relações por mais de um ano com ninguém… Ela contava isso de maneira muito natural, como se isso não fosse violência, como se ser forçada a transar não fosse estupro, mesmo que você ame o cara, mesmo que você tenha chupado o pau dele, mesmo que você esteja nua na cama dele. Ela não entendeu que aquele desconforto, a vergonha e a culpa que ela sentiu por meses, não eram próprios de uma primeira vez que simplesmente não foi legal… Ela não entendeu a que tamanho de violência foi submetida.

Então, como falar com essas meninas? Essas meninas que de tão naturalizado que está, não percebem o machismo como algo nocivo, ou melhor, sequer percebem o machismo? Como dialogar com elas e fazê-las perceber que pode ser diferente? Que escolinhas de princesa e boas maneiras censurando seus modos e suas personalidades não precisam nem devem ser aceitos? Como explicar pra elas que um homem não pode interferir nas suas liberdades e nas suas escolhas e que elas não precisam vestir a carapuça de serem ~mocinhas pra casar~? Não são perguntas retóricas as que faço, são dúvidas sinceras. Dúvidas de quem percebeu esse machismo lá com seus 22 anos e se descobriu feminista algum tempo depois apenas, e que sente o tanto que seus caminhos teriam sido diferentes e suas escolhas teriam sido melhores se tivesse essa consciência mais cedo.

Não quero poupar ninguém de seus erros ou desatenções, nem ensinar nada, mas falo de dar mais escolhas. Feminismo, antes de tudo, é sobre escolhas, sobre igualdade, penso eu. Essas dúvidas são dúvidas de quem se colocou a pensar num projeto de dialogar com essas garotas, meninas (meninos também? Não sei), crianças mesmo, e não chegou a uma resposta correta, uma fórmula, um norte. Um portal, uma revista? Ciclos de palestras?

Vejo muitas feministas jovens falando sobre, mas pra quem já tem algum repertório sobre o assunto.

Como fazer as pessoas descobrirem o feminismo?

Pessoas bem intencionadas, apenas, dão conta de lidar com um público tão heterogêneo? Qual a linguagem? Apresentar-se feminista, ou deixar que elas percebam que a abordagem das matérias (?), palestras (?) tem algo de diferente e permitir que se questionem sozinhas?

Qual o caminho?

Eu, sinceramente, não sei, mas penso que algo deve ser feito, que comece pequeno, que se torne grande depois, ou que continue como trabalho de formiguinha. Este post todo é uma vontade sincera de que os comentários se encham de dicas, de pessoas com um visão adiantada dessa questão e com propostas ou que debatamos até chegarmos a algo que faça sentido. Para que surja algo que permita que essas pessoas com as quais pretendemos falar pensem fora da lógica do patriarcado. Que se sintam livres e donas de si. O que, de fato, são.

 

cintcha*Cíntia Moraes é ex-jornalista, feminista e caipira.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

19 ideias sobre “Biscatinha Social Club

  1. Guria. O machismo não atinge só as meninas, mas tb a gente, os meninos. Pra mim o feminismo é uma das facetas necessárias da liberdade humana e tenho muito apreço por isso.
    Fui vítima do machismo por ser mais sensível do que o estereótipo comum durante toda a adolescencia e juventude. Pouco a pouco vou trabalhando meus valores e tentando alcançar um pouco mais de liberdade a cada vez. Mas tb procuro criar duvidas nas pessoas sobre seus próprios valores. Com isso, não normatizo como agir e não agir, só deixo com elas a possibilidade de pensar. Não quero formar opinião, mas questionar essa opinião comum.
    Aqui em SC encontrei uma cultura muito mais machista do que a que encontrava em SP. Então, procuro atingir no dia a dia estes valores, diretamente com as pessoas a quem eu tenho acesso. Simples perguntas.
    Alguns exemplos são:
    Uma guria, super com vontade de transar mas “não podia” dizer isso. Então tentava de todas as maneiras demonstrar, mas com uma certa sutileza pra “dar-se o respeito”. Então disse que ninguém faria nada se ela não pedisse. Demorou mas ela tomou coragem pra convidar e foi assim que rolou. Eu poderia ter convidado e sabia q seria aceito, mas isso reforçaria o machismo.
    No dia a dia, valores como: ahh.. meu marido é tãooooo bom. Ele lava a louça de casa as vezes. Então entro com a questão: pq as vezes? Não é ele que usa tb?
    Na empresa que trabalho, todas as tardes as meninas fazem rodizio para preparar o café. Fui lá e disse que eu tb deveria entrar na escala. Disseram que eu não sabia fazer café. Eu disse q mesmo q não soubesse, eu deveria aprender.
    Eu levo as questões pro meio dos caras tb. Critico comentários e piadinhas que nem são grandes ofensas, mas que carregam em si valores intrincados da cultura machista.
    Enfim, acho muito importante o trabalho das blogueiras que escrevem sobre isso. Das manifestantes que marcham, mas acho igualmente importante e eficaz a (im)pertinente polemica cotidiana no meio que vivemos.

    • reforçar esses questionamentos no dia a dia é muito relevante. é um trabalho de formiguinha, mas pode ser feito com mais cuidado e intimidade do que os textos publicados em blog nos permitem. esse diálogo instântaneo que pode surgir do estranhamento do outro funciona como uma brechinha pra gente entrar cada vez mais no mérito em conversas cotidianas e ir percebendo como a pessoa vai lidando com essas informações. por isso tenho muita vontade de levar esse projeto adiante, tanto como portal, quanto em rodas de conversas. essa resposta imediata que se vê no olhar do outro é parte muito importante do que alimenta a vontade de continuar falando sobre 🙂

  2. Como fazer as pessoas descobrirem o feminismo?

    Um caminho, que você mesma propõe, pode ser chamar a atenção para o machismo, destacá-lo e jogar questionamentos que levem a pensar “opa! tem algo errado aí!”

    Bem importante suas reflexões, Cíntia. Gostei! 🙂

    • penso que, talvez, levantar a bandeira logo de cara possa assustar uma parcela significativa da audiência que pretendemos conquistar com esse projeto. usar uma linguagem diferente, propor pautas feministas, mas sem levantar a bandeira logo de cara, pode deixar o leitor/ouvinte confortável com o que lê/ouve e possivelmente acabar refletindo sobre…
      ideias, ideias, ideias…

  3. Uau, Cintcha. Que texto bom! Sabe que há um tempo, enquanto lia alguns ótimos textos sobre feminismo, me peguei pensando nisso? Era aterradora a ideia de que os textos eram didáticos, divertidos e interessantes e que por serem veiculados em portais feministas ficavam restritos a feministas.

    Lembro que pensei que se o mesmo material fosse descoberto ou pensado e discutido por pessoas que não se declaram feministas, mas que vivenciam o machismo (e, como bem disse, às vezes nem sabem), as coisas seriam diferentes .

    Talvez, sei lá, as próprias adolescentes exigiriam um conteúdo diferente da Capricho e afins.

    Enfim, enfim. Não cheguei a nenhuma conclusão. Só fiquei triste. Porém, com seu texto, comecei a pensar de novo. E, sei lá, bateu vontade de juntar uma galera legal e desenvolver algo para esse fim. Sei lá.

  4. Oi!
    Acho que o caminho do Thiago, aí em cima, é legal.
    Tudo que sugeriu no texto também. É trabalho de formiguinha e de todos juntos.
    Mas, quero responder à sua pergunta “meninos também?”. Com muita convicção e como mãe de meninos e menina: Sim! Por favor! Fundamental e urgente. Sem eles não vai dar certo.
    Precisamos educar nossas crianças, todas elas, para a liberdade, a diversidade, a isonomia.
    Senão vamos ficar o tempo todo lidando só com os efeitos.
    Às causas!
    Abs.

    • pois é, daria trabalho pensar numa linguagem que fosse interessante tanto para meninos, quanto para meninas, mas acho que vale a pena inclui-los nesse ‘debate’, fora que, se chegássemos nessa linguagem ideal, estaríamos contribuindo para a desconstrução [isso pode soar pretensioso, desculpe] dessa segmentação por gênero das publicações.

      • Ah! Entendi! Via blogs e que tais. Legal!
        Não acho pretensioso de jeito nenhum e sim importante pensar as coisas como colocou!
        Não há assunto de menina e assunto de menino, são basicamente os mesmos os interesses, o que muda é o enfoque que se dá às questões, considerando-as a partir da ideia de gênero e de estereótipos. Mesmo nas peculiaridades – que existem – o que interessa a um interessa ao outro.
        Viajando aqui: que tal escolher um tema e trabalhá-lo a partir do que se levantar diretamente com eles e elas? Ter, tipo, um laboratório, uns pilotos de testes (de uma escola, sei lá). Bolar perguntas instigantes e deixá-los à vontade para falarem sobre o assunto, o que der na telha, sem intervir. A partir do material vai saber o que precisa falar, para quem e até como. Será que não? Trabalhão ia dar isso, né? Sei lá. Jogando ideias aqui – rs.
        Adorei sua iniciativa!
        Bjo.

  5. Muito bom o texto. São ideias pra se pensar mesmo. Acho que muito conteúdo feminista na internet (não sem motivos, e não é uma crítica negativa) pega pelo lado da teoria, quer meter mil teorias e tal. Acho que além da internet ser o suporte ideal pra alcançar esse público novinho, seria legal usar MUITOS exemplos práticos, de onde o machismo pega as meninas de 11/15 anos, por exemplo, mostrar exemplos de meninas que fazem e pensam diferente, dando voz pra elas e enfim, tentando fazer um trabalho meio de reportagem mesmo, entrar nesse mundo pra perceber como é que é, pra não ficar o post teórico de onde fala uma adulta que tinha 14 anos há 10 anos e nunca mais tentou saber de nada. Fazer algo COM esse público, sabe.

    e bom, eu fui uma adolescente há cerca de uma década e acho que a capricho mudou de faixa etária. naquele tempo a revista era mais pra meninas de 13/17 anos, pelo que eu me lembre, e tinha uns ídolos mais “adultos”, digamos. Hoje é justin bieber pras meninas de 11 anos. Ou seja, acho natural que não tenha uma capa como a da Piovani (não falo isso com moralismo, mas enfim, a abordagem da questão sexual pra meninas que são quase crianças é outra, não necessariamente indo diretamente ao sexo em si [e acho que esse é teu ponto também])

    • essa questão dos textos irem pro lado mais teórico ou serem mais compreensíveis para quem já tem leitura sobre feminismo, afasta consideravelmente essa audiência que pretendemos conquistar com o projeto. nõa que eles tenham que ser menos teórico, não é isso, mas a minha proposta é fazer um meio do caminho para que as pessoas que acabem se interessando pelo tema possam encontrar esse textos mais densos já tendo familiaridade com a causa

  6. Excelente texto. Eu tenho essa angústia também, de falar com jovens, mas não sei por qual caminho.

    Sou professora de educação infantil, este ano estou trabalhando com uma turma de 2-3 anos e através de brincadeiras, histórias e conversas venho fazendo eles pensarem sobre estereótipos de gênero, que já nessa idade podem ser vistos: rosa é de menina, menino não usa batom. Quem limpa a casa e faz comida é a mãe e por aí vai. Vamos conversando e logo eles percebem que é muito simples, que eles são livres para fazer o que quiserem.. aí quando alguém diz “azul é cor de menino”, já tem um amigo que responde: não, azul é de quem gosta e quer usar”! E assim tudo vale a pena.

    Mas no próximo ano eles estarão com professoras que não pensam assim e nem penso muito em como vai ser.

    Da minha parte tenho conversado com os pais nas reuniões e com as professoras que trabalham comigo, mas é um trabalho de formiguinha. Na maioria das vezes as pessoas reproduzem esses estereótipos sem perceber….

    Enfim, gosto de pensar que minhas crianças não vai esquecer o que conversamos quando não forem mais meus alunos, mas sinceramente não sei.

    • nossa, parabéns pelo seu trabalho.
      seria legal um projeto pedagógico dentro das escolas que incentivasse os professores a falarem sobre ou a desconstruírem esses papéis de gênero independente da idade de seus alunos. quanto mais cedo ele compreendem isso, mais chances de não perpetuarem o machismo [fora tantas questões naturalizadas que podem ser tratadas tbm]
      torcendo aqui para que seus alunos dêem sorte de encontrar muitas professoras como você 🙂

  7. oi cíntia, adorei seu texto!
    seu questionamentos são muito pertinentes. e me lembraram que há um tempo venho pensando num espaço/blog/qualquer coisa que ajude a debater feminismo com pré-adolescentes, mas ainda não encontrei nem tive inspiração para dar um ponta pé inicial.

    abraço!

  8. e viva as feministas jovens (solteiras), eu gosto muito, só acho que a dificuldade principal do movimento está em ter mais mulheres que homens em ‘Sampa dacmendes’ por exemplo, ai a lei da oferta e da procura, tende a direcionar o mercado ‘relaxar’ em algumas coisas…

    • Não entendi a referência a feministas jovens e “solteiras”, muito menos a comparação numérica homensXmulheres parecendo desconhecer que aqui privilegiamos discursos que não tenham preconceito de idade, não sejam heterossexistas nem tenham padrões de relacionamento como norma.

  9. Tenho 21 anos e nunca houve uma conversa sobre sexo e coisas relacionadas aqui em casa, muito do que sei li nessas revistas. Minhas amigas compravam e circulavam pela escola, líamos na sala e havia conversas escondidas no intervalo sobre isso. Muitas meninas como eu não tinham para quem perguntar várias coisas, e só sabiam pq liam nessas revistas. Hoje elas não agregam conteúdo nenhum, devem achar que incentiva a ser biscate. Se fosse melhor ainda né? hehehehe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *