De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado

A ideia deste texto surgiu num diálogo no feicebuco com as biscates Renatas, Luciana, Niara e com a Amanda, num post da Renata mineira sobre a pesquisa do chega de fiu-fiu, reclamando da falta de empatia de muita gente com a questão, numa linha que adotava o deboche. Fui provocado a escrever alguma cousa, depois que escrevi algo nos comentários…

Não foi fácil chegar. Porque sou o que é convencionado de “cis” tudo: branco, classe média sempre,  heterossexual. Porque mexer nesses vespeiros é olhar para dentro da gente. Nas vezes em que fizemos gracejos inconvenientes e insistimos. E já não tínhamos mais desculpas da idade. Na embriaguez que encoraja, mas na verdade, covarde. Em pensar em nossos comportamentos, nossos olhares, nas clássicas “conferidas”. E sim, concluir, que as vezes posso ter ofendido. E mais, causado medo. E mais, sido um imbecil completo.

Escrevi um pouco. Não é necessariamente um texto opinativo, daqueles que pegam argumentos e são defendidos com algum rigor, técnico – advogado costuma fazer isso… São impressões. E alguma prosa.

É isso. Espero que dialogue.

chega de fiu fiu

De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

Diria, assim, de longe, de cá donde estou, que os dois combinavam. De fio a pavio. E mesmo cá, não era uma combinação estética, somente. Era o jeito que ela olhava para ele, como quem completa. E o jeito dele, mão no rosto dela, como que extensão. Era bonito. Parecia que conversavam, riam, se divertiam.

Mas um algo de estranho ali. De repente. Talvez algo que ele disse, talvez algo que ela notou. Bafo, bebida, cigarro, religião, clube, pt, psdb, deus, fome. Sempre é assim, complexo assim, nesses jogos de um com um, de flerte, beijo, sabonete, sexo, manteiga, amor, dor, razão, vinho tinto. Uma hora ou outra a tal chama apaga ou desata ou engana ou enterra.

O fato é que o que era bonito passou assim a ser… feio. Porque ele mudou feição, mudou corpo, se impôs, peito que estufa, voz que sobe, mão que não era mais extensão. Porque ela definha, muda, amiúda, deixa de sorrir. De longe aquilo começou que começou a incomodar.

Sorte que ali ela saiu e foi embora. Mas ele foi atrás. Não sei porque não acompanhei mais e comecei outras furtivas. Só mais tarde soube. Que os dois se estapearam no estacionamento e se não é o segurança da farmácia a coisa tinha degringolado. Não sei o que aconteceu, porque não vi.

Mas o fato é que dia seguinte haviam duas versões. Que ela, a sacana, provocou tudo e disso isso aquilo e aquilo outro, que aquela vestido preto já dizia tudo. De fato, de cá onde estou, o vestido era lindo e ela combinava com ele. Era curto, diziam. Era convite, apalpavam. A outra versão dizia que ela se cansou, tinha que ir embora, trabalhar dia seguinte e era tarde. E não tava a fim. Também não sei, porque não vi. Estou longe. Mas, afinal, escolhi a segunda versão. O vestido lindo não era senha. Nunca foi. E de longe aquilo tudo começou a me incomodar.

“Afinal, o que vocês pensam que são?”. “Mas é complicado, né, ela provoca e depois pula fora!”. “Ela não quis, uai. É tão difícil assim?”. “Você diz isso para ficar bem com elas, ter discursinho. Queria ver se acontesse com você. Ficar de pau duro assim e nada.”. “Ah… vai tomar no cú.”. “Veado.”

Há algo de errado. De cá de onde eu estou…

Outro dia li sobre uma tal pesquisa que concluía com uma bandeira: a do chega de “fiu-fiu”. A polêmica que gerou é que este tipo de reação, a de que a proibição da brincadeira, significaria o fim dos flertes, o fim do romance, o fim da cousa toda. Li mulheres dizendo que não querem o mundo assim, que tudo ficaria chato, que elas conseguem se defender e que é fácil identificar uma agressão de uma simples cantada. Não sei, não vi. Algo me incomoda nessas assertivas. Porque há algo de estranho, de senhas. Tantas e tantas vezes, galinha que sou, me dei num gracejo, numa brincadeira, numa visão de comédia romântica.  Certamente eu conheço os limites, as regras, o que pode e não pode. Até o dia que não, nada se encaixa:  A rua escura, o não, o corpo, os jogos. As estatísticas, dos outros….

 “Afinal, o que vocês pensam que são?”. O feirante e o “mulher bonita não paga, mas também não leva.” A obra, o “ô lá em casa.”. A rua e o assovio. Do lado de cá, certamente, tudo parece combinar. Mas o vestidinho, tão bonito, que combina tanto, que tão curto.  Quem nunca ouviu esta, para tentar explicar senhas?

De cá onde estou, basta não ficar tão longe, já dá para ouvir a conversa, o tipo, sentir a mão no rosto, a bofetada, a cusparada, o riso, o deboche, a força física, a imposição, os julgamentos, o dia que foi ruim, o cio, a lástima, a perda, o ódio, o fetiche, o corpo, a mercadoria, o consumo, o vício, a doença, o flerte, o combinado, o acordo, o desacordo, o linho e o desalinho. Só não dá para identificar todas as senhas. Estas só estando ali, no lugar do outro.

E quando estou longe, mas também quando estou perto, talvez seja a hora de escolher não só uma das versões, mas adotar um lado, um lugar: não é senha. Simplesmente não é.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

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4 ideias sobre “De lugares donde estamos nesses jogos de azar…

  1. Lindo, Fernando… LINDO! Nunca achei que respeito atrapalhasse flerte, paquera ou fosse menos sedutor. Até porque é do jogo abrir mão das senhas quando elas não funcionam e ser mais direto verbalmente, respeitosamente, dando ao outro o direito de decidir querer ou não. Apreciar o vestido curto como eu aprecio barbas e volumes em calças e bermudas é do jogo, ir além disso depende da manifestação do desejo do outro.
    E cá entre nós, a inteligência de manter o flerte com respeito é bem mais sedutor que olhares cafajestes, toques não autorizados, repugnantes cantadas baratas e o velho e falível papinho-de-cu-pra-piça.
    Simplesmente amei. ♥
    Bjs

  2. Ah, gente, eu não posso perder esse tipo de post. Me dói. Porque eu leio tanta merda todo dia, e fico tão estressada, cansada, sem esperança…

    E aí eu vejo esse texto. Essa ternura. Esse relato poético e só fico com a certeza que esse clube é o meu!

    Beijos, Fernando, gratidão por você. <3

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