Escolha

Escolha é uma palavra que, volta e meia, aparece no meu discurso ou nos discursos que me rodeiam, especialmente entre feministas. A princípio parece simples, se acreditamos nas pessoas como autônomas, capazes e responsáveis pela sua vida, é preciso lutar com ênfase para que cada um – e, mais especificamente, cada uma – possa viver de acordo com suas escolhas.

Acontece que tem algumas coisas silenciadas nesse discurso que me incomodam e a principal dela se refere a uma tendência à essencialização ahistórica… como se houvesse um “eu mesmo” puro, a priori, que tivesse soberania em relação a todos os eventos e, podendo manifestar-se livremente, fosse sempre escolher o “melhor” pro sujeito, o que ele “realmente quer”. E eu não acredito que exista um “eu mesmo” e nem um “o que a gente realmente quer” essencial, natural, intocado pela cultura.

Nada do que é humano é natural, dado, essencial. Nem mesmo sermos humanos. Ser humano é uma construção histórica, geográfica, social e econômica. Ser humana hoje, no Brasil, é muito diferente de ser humana, trezentos anos atrás, na Índia (apesar da base bio/anatomo/fisiológica igual). Não apenas porque cada indivíduo é peculiar, único, mas porque cada coisa implícita nesta oposição ser humana hoje no brasil X ser humana tempos atrás na índia, muda (implícitos e determinantes: classe social, gênero, língua, valores, tipos de vínculos…). Isso não significa que “essa eu” é apenas e passivamente “produto do meio”. Mas significa refletir como as dimensões humanas são individualmente produzidas nas relações com os Outros e com o mundo. As respostas não são fáceis, não estão prontas, não são convenientes. O eu mesma que aqui escreve é produto e produtora de si mesma – ou de mim mesma, mais exatamente. Sou ativa na formação de quem sou, mas ser ativa não significa ser consciente. Não é uma construção apenas voluntária – embora, depois de uma determinada maturidade, seja preferencialmente. Sou quem eu sou pela forma como subjetivei as experiências, a forma como fiz isso é única e também resultante da série de relações e situações em que nasci e cresci imersa.

Então, a cultura tá aí. É nela que nascemos. Aliás, até a forma como nascemos, as complicações, as alegrias, tudo referente ao parto, são construções sociais. Nasce-se de acordo com a época e com a narrativa da época, do lugar, da classe. A propósito, morre-se também imerso na cultura. Até o eremita radical que se isola, vive e morre de acordo com a cultura, nem que seja reagindo a ela, negando-a, transformando-a.

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Não tem, aqui, uma eu mesma dentro de mim, misteriosa e autosuficiente, cheia de valores, gostos, ações potenciais independentes do contexto em que os tais valores, gostos e ações foram forjados. Tem uma pessoa em processo, aberta, vulnerável, que diz e é dita, que se faz e é feita. Essa, uma, eu. E até as palavras que escolho, nome que porto, estrutura que escrevo, diz de quem me fiz e vai me fazendo no próprio processo de ser.

Quando a gente fala de escolha é preciso lembrar que escolhemos a partir de uma gama mais ou menos limitada de opções. Tais opções são conformadas por fatores como gênero, raça, classe social, escolaridade e, até mesmo, época e geografia. Além disso, não escolhemos no vácuo subjetivo, a nossa história e como a significamos, a cultura que introjetamos com seus valores e hábitos, os aprendizados, as perdas, os medos, a autoestima, a visão de mundo e de nós mesmos, também intervém na escolha – e no próprio processo de escolha, ou seja, na forma como compreendemos as alternativas.

As escolhas não são absolutas. Não são puras. Não são dados naturais. Não é um “eu sempre quis assim” onde esse “eu” advém de uma essência (biológica? transcendental?) anterior ao contexto, às relações, à linguagem, à cultura. As escolhas são “lidas” pela sociedade de uma determinada forma e nós agimos e reagimos a essa leitura com maior ou menor compreensão do processo. A escolha de ser mãe, por exemplo. Se a mulher é solteira – má escolha. Se a mulher é casada – boa escolha. Mas se a mulher é negra, com outros filhos, mesmo casada – má escolha. Se a mulher casada não quer ter filhos – má escolha. Mas se a mulher que não quer ter filhos é lésbica – boa escolha. E isso vemos replicados em tantas outras escolhas cotidianas (terminar ou começar um relacionamento, ter um relacionamento aberto ou monogâmico, fazer faculdade e trabalhar, largar o trabalho pra estudar, largar o estudo pra trabalhar e por aí vai). Assim, não há como ler as escolhas individuais a não ser inseridas e contextualizadas em um quadro de complexidade mais ampla e que inclua a diversidade como elemento de análise. As escolhas, mesmo que pareçam ser a mesma, são diferentes. (Uma ressalva importante: uma escolha aprovada, lida como “boa” pela sociedade não implica em nenhuma medida em um maior apoio ou comprometimento dessa sociedade com a escolha. Ou seja, escolher ser mãe, mesmo nas “melhores” contingências, não é garantia nenhuma de contínuo apoio e condição de realizar a escolha. Porque os processos são dinâmicos e, entre outros aspectos, as escolhas são transformadas e “ressignificadas” continuamente). E ainda na questão as escolhas mesmo que pareçam as mesmas, são diferentes, é bom lembrar que também o são não só pela forma como a sociedade lida e acolhe (ou não) as escolhas, mas pelo sentido que damos a elas.

E isso tudo são apenas aspectos do que está implicado nas escolhas individuais. Ainda tem, pra ser pensado, que estas escolhas individuais ao mesmo tempo em que são construídas em um repertório simbólico, o qualificam e constituem. Assim, as escolhas que determinado grupo apoia e aponta discursivamente como adequadas ou mais desejáveis (mesmo que não seja o grupo dominante ou hegemônico) tem dimensões políticas e fazem parte da construção da cultura e do universo simbólico em que novas escolhas serão inseridas. Nesse contexto, é necessário destacar que as opções, as escolhas, têm consequências e que, na mesma lógica da autonomia e responsabilidade de cada sujeito, estas não podem ser ignoradas quando vamos analisar aquelas. Não no aspecto: “rá, se fudeu” ou “escolheu, agora se vire”, mas de forma a colaborar no processo de construção dos significados das escolhas levando em consideração as implicações, individuais e coletivas.

Deveria ser desnecessário, mas vou ressaltar mesmo assim, que analisar as escolhas e suas consequências em um quadro amplo e historicamente contextualizado não significa, de maneira alguma e em nenhum aspecto, julgar individualmente as pessoas que escolheram. Não significa, em nenhuma instância apontar dedo, cagar regra, culpabilizar. Mas também não implica em naturalizar as escolhas, desvinculá-las das implicações ou ignorá-las.

Eu compreendo que lutar com ênfase para que cada um – e, mais especificamente, cada uma – possa viver de acordo com suas escolhas, é lutar pra desconstruir padrões, pra desnaturalizar processos e sim, neste caminho tem espaço pra dizer, opa, esse caminho aí outrxs percorreram e as consequências foram X e Y. Não significa que vai ser sempre assim (a vida social é dinâmica, plural e complexa) mas significa que este cenário tem que ser levado em consideração. Continuo acreditando que quando somos capazes de assumir e nos responsabilizarmos por nossas escolhas damos um passo a mais na direção de sermos capazes de reconhecer e respeitar a alteridade, de reconhecer e respeitar o direito do outro escolher e se responsabilizar por suas escolhas e, assim, nos tornamos um tantinho mais livres de avaliações e julgamentos das nossas escolhas e das escolhas alheias.

Então a  minha luta (que não é pelo direito ao amor nem à felicidade) é até simples no que se refere às escolhas: que o leque de alternativas cada vez mais se amplie para cada vez mais pessoas e que, na hora de escolher, possa-se fazê-lo desse jeito biscate,  biscatemente descrito pela Renata Lins:

“Tantas vezes é assim: a gente não quer ir embora – mas é pra ir. Porque a outra pessoa, porque o mundo, porque tanta história. Porque já foi e não é mais. Porque tá escuro, tá cinzento, tá enevoado. Porque tem cheiro de tempestade. Porque algo puxa pra outro caminho, embora. Muito embora. Mas é pra ir e a gente sabe. A gente fecha os olhos apertado, a gente tapa os ouvidos com as mãos, a gente tenta não lembrar, mas no fundo a gente sabe. A gente sabe que sabe. Não quer saber que sabe, talvez: mas sabe. E tem um dia em que a gente vai.”

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6 ideias sobre “Escolha

  1. Putaquepariu, Lu! Que texto!!!
    “…diz de quem me fiz e vai me fazendo no próprio processo de ser.”
    Outro dia li que pessoas não são objetos, são processos.
    Nossa vida é tinta e papel. Nela fazemos nossa obra, pintamos como queremos, seguimos tendencias e estilos se quisermos ou criamos o nosso próprio. Sofremos influencias ou negamo-nas. O papel é nosso. Podemos copiar o desenho que a maioria copia, ou fazer um totalmente diferente. A escolha é nossa. As escolhas, neste processo, são nossas.

  2. “Nada do que é humano é natural, dado, essencial.”

    Isso está errado. Você muito provavelmente é destra, independentemente da sua cultura. Posso afirmar tranquilamente também que você tem dois braços com grandes chances de acertar.

    Veja, não estou falando nesse naturalismo dos cristãos de “ai, homossexualismo (sic) não é natural”, afinal tudo que está dentro da natureza é natural. Falo no sentido de “vindo de fábrica”. Essa coisa de tabula rasa, explicando TUDO como se fosse puramente cultural, já foi falseada pela biologia e pela neurologia há muito tempo atrás.

    A verdade é que nascemos com certas predisposições, que podem se confirmar ou se alterar de acordo com o meio cultural em que vivemos. Teorias evolutivas pra explicar alguns conceitos humanos, como beleza por exemplo, tem um sucesso incrível. Pessoas de várias culturas diferentes acham bonito um quadro em que haja uma estrada, uma montanha, um gramado e algumas árvores. Pessoas em cuja cultura esses quadros nem existem acham esses quadros bonitos mesmo assim. É impressionante. A minha cultura me leva a gostar de cinema americano, e eu gosto, mas também acho bonita arte rupestre e as pinturas do leonardo da vinci, pra me ater a esse exemplo.

    Acho legal que realmente a gente viabilize uma vida mais tranquila para todos, com mais escolhas, mas isso não quer dizer que as escolhas sendo consideradas boas ou ruins já não existam. Já disse o Sartre que, quando você vê a plaquinha “não pise na grama”, não é a plaquinha que te impede de pisar na grama – é você mesmo e o medo das consequências do seu ato.

    • Carx A, como você deve ter percebido (ou não) eu desenvolvo no resto do texto a ideia da frase que você pinçou. Dizer que nada do que é humano é natural não é dizer que a base biológica inexiste, mas que também ela sofre uma narrativa, que sobre ela opera a cultura, a história, vários outros fatores. Ter dois braços é base biológica, mas que isso faça de mim uma pessoa “normal” e aceita mais do que quem nasceu apenas com um u perdeu um em um acidente, não é um dado. Em nenhum momento falei em tábula rasa, falei de interação. Falei que o sujeito age sobre o mundo e o mundo sobre ele. Quanto ao resto do seu comentário, não há chance de conciliação, beleza é um dos conceitos que mais evidentemente é construído socialmente (o Eco tem um excelente livro sobre). Imaginar que as escolhas são um a priori é essencialista e determinista. Quanto ao exemplo do Sartre, a pessoa que lê a plaquinha não existe no vácuo. Ela foi socializada em uma cultura onde existe lei, obediência, linguagem (pra saber ler a plaquinha), ela teve experiências de confrontação, ela foi premiada ou reprimida, etc. Quando ela se depara com a placa e escolhe não pisar na grama não escolhe porque a escolha já estava lá desde sempre, mas porque essa escolha foi construída em sua vivência. E, aliás, é justamente sobre consequência das escolhas uma parte do texto e como devem ser levadas em consideração quando analisamos porque umas escolhas parecem mais aceitáveis ou desejáveis que outras. Enfim, discordamos, você acha meu texto equivocado por focar no processo, eu acho seu raciocínio equivocado por ser essencialista.

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