Hora de ir

E aí você disse que era para eu ir embora e eu fui.

Esse é um começo de livro. Um livro bonito, que eu comprei – como tantos – pelo nome, um dia: “L’enfer, son casino, sa plage” (o inferno , seu cassino, sua praia).
Mas nem é do livro que eu queria falar, e sim da frase e de seu contexto: uma mulher que é apaixonada por um sujeito que diz pra ela ir embora.

E ela vai.

Tantas vezes é assim: a gente não quer ir embora – mas é pra ir. Porque a outra pessoa, porque o mundo, porque tanta história. Porque já foi e não é mais. Porque tá escuro, tá cinzento, tá enevoado. Porque tem cheiro de tempestade. Porque algo puxa pra outro caminho, embora. Muito embora. Mas é pra ir e a gente sabe. A gente fecha os olhos apertado, a gente tapa os ouvidos com as mãos, a gente tenta não lembrar, mas no fundo a gente sabe. A gente sabe que sabe. Não quer saber que sabe, talvez: mas sabe.

E tem um dia em que a gente vai.

E, como na história do livro, a gente queria que tudo fosse outro, que o novelo da vida tivesse se desenrolado fazendo outros desenhos e que desse pra ficar. A gente pede, até, baixinho, olhando de lado: “me deixa ficar. só mais um pouquinho, vai.” Só que não. Não adianta, não é aquilo, o lugar onde a gente queria se enrodilhar já não existe mais. É um lugar-memória e pra lá dá pra ir às vezes. Depois. Quando não doer mais tanto.

Agora é hora de ir.

De arrumar a mochila, cuidando pra levar só o estritamente necessário: não tem sentido carregar peso demais, atrasa a caminhada. Atenção para os sapatos: se for possível, escolher dois pares – um que aguente o tranco, que seja companheiro das subidas e descidas dos terrenos desconhecidos, e outro levinho, uma sandália talvez, pra deixar os pés de fora em dias de sol, pra balançar na ponta do dedo, pra descalçar sorrindo.

Não tinha dito isso, e agora pode nem parecer: mas vai ter sorrisos também. Ainda vai ter, como não? Claro que vai. Sorrisos, de leve, à toa, braços abertos, banho de cachoeira, rede na varanda, conversas até de manhã. Gargalhadas, cigarros acendidos um no outro, mais cachaça, só mais esse, olhares de lado, olhares de frente, olhares. Mesas com poemas entalhados, o sol nascendo na praia, violão na Sé de Olinda, um jeito de tocar no cabelo.

Eu sei que não parece, mas vai ter.

Ah, se vai.

(mas isso é depois)

Agora, é hora de ir.

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17 ideias sobre “Hora de ir

  1. Às vezes, a certeza de que se deve ir, chega sem que ninguém peça pra gente ir e antes mesmo que as pernas obedeçam o comando do cérebro. Mas um dia a gente vai. Isso é certo. Mais um texto com lugar cativo entre os meus favoritos, Renata. Beijo!

  2. terminei a leitura lembrando de uma música cantada pela elis.
    “Acreditar na existência dourada do sol”
    e gostei muito de:
    “um que aguente o tranco, que seja companheiro das subidas e descidas dos terrenos desconhecidos, e outro levinho, uma sandália talvez, pra deixar os pés de fora em dias de sol, pra balançar na ponta do dedo, pra descalçar sorrindo.”
    descalçar sorrindo é tão biscate.
    eheheheheehh

  3. Gata, pensei hoje mesmo: e se ele me disser pra ir embora? E doeu fino. E eu pensei: ué, eu vou. E mesmo a dor doendo eu já sei os sorrisos, o pé na areia a beira-mar (eu sempre vou pelo litoral), o picolé solitário, as esquinas com amigos, outros ninhos, alguma cerveja, estrada. Eu, cigana.

    • Acho que a leveza tá nisso também, em saber que a gente pode botar o pé na rua, puxar o barco, ralar peito – versões cariocas 😉 -, quando for. Ser cigana: poder ficar, sabendo que às vezes tem hora que é pra ir.

  4. Enquanto os pés não me levam – porque a hora de ir já chegou faz tempo e ainda assim insisto em permanecer – , vou lendo as belezas que vocês, biscates, escrevem.

    • Alessandra, pra mim, a hora de ir é quando a gente vai… enquanto a gente fica, ainda não é hora. Por mais que haja dificuldades. Será que não?
      Beijo!

  5. Muito querida, lembrei afetivamente de João Cabral e o canto que se põe a construir miragens…. beijo grande.

    se diz a palo seco
    a esse cante despido:
    ao cante que se canta
    sob o silêncio a pino.

    O cante a palo seco
    é o cante mais só:
    é cantar num deserto
    devassado de sol;

    é o mesmo que cantar
    num deserto sem sombra
    em que a voz só dispõe
    do que ela mesma ponha.

    • Ô, Ricardo, que lindo e que alegria receber você aqui no nosso cantinho! <3
      Muitos beijos, venha sempre, que por aqui a gente garante cafezinho, rede, conversa boa.... 😉

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