O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?

Por Fred*, Biscate Convidada

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Por vezes as músicas nos perseguem pra esfregar na cara, como que por troça, uma situação difícil que experimentamos. Assim tem se passado minhas últimas semanas. Venho de um longo relacionamento, aberto. O ciúme nunca nos visitou antes, ou melhor, nunca tinha o incomodado o fato de eu ser mais biscateira. Ele, feminista, de uma masculinidade não-hegemônica nunca se sentiu bem em ter de provar sua virilidade enumerando conquistas, logo, teve bem menos envolvimentos afetivos e sexuais (em número e em profundidade) do que eu. Para “piorar”, é bastante tímido. Isso nunca foi um problema pra mim, porque oras, adoro tímidos. Mas isso torna as coisas mais difíceis entre nós.

Como o destino gosta de me ensinar a rir da própria condição (seja ela qual for), a música do Só Pra Contrariar tem me perseguido, mesmo quando estou a quilômetros de casa. “Tô fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração…”. Isso não é piada. Pessoas completamente desconhecidas, na van, no ônibus, rindo, cantando. Pois bem, a questão é que meu coração não pertence a ele, não será pra sempre dele. Meu coração é grande, imenso, mas é só meu (com bastante espaço interno, área verde e vista para o mar). Isso não significa que eu não me entregue, me entrego demais aos que amo, a tendência inclusive é abdicar e me anular em nome dessa dedicação (resquícios cristãos e patriarcais). Tomei uma decisão que SPC (os fortes entenderão), pode ser muito mal interpretada: Escolhi esperar. Talvez você esteja rindo porque lembra o slogan da virgindade pré-nupcial, mas estamos aí, pra ressignificar. Há uma aura na qual os relacionamentos não-monogâmicos jamais passam por crises, não germinará a sementinha do ciúmes por essas bandas. É mentira.

Todos os relacionamentos passam por negociações, todas as pessoas estão sujeitas a insegurança (o broto do ciúme), a revisão de sua própria identidade, aos ajustes. É óbvio que nos desgastamos muito até chegar a essa conclusão, durante esse acordo choramos horrores, trocamos palavras ásperas, busquei ajuda algumas vezes, menos até do que deveria (lá no fundo, uma voz diz que todos tem problemas demais para os importunar). Chegou ao ponto em que eu não conseguiria ficar com outra pessoa sabendo que o iria magoar. Me envolvo com consentimento de todos os envolvidos, sempre, é meu código de ética. Isso não significa que meu desejo por outras pessoas adormeceu, continuo as desejando, me deixando enfeitiçar por elas, mas sem consumar nada além de abraços. Isso é, eu continuo a me envolver afetivamente, mas não mais sexualmente, ao menos por enquanto.

Não vou dizer que isso é fácil, que não é doloroso, sinto que perdi um pouco do viço, esmoreci. Foram anos para me soltar e me aceitar como alguém que deságua. Inesperadamente fecharam as comportas e o que era torrente em várias direções, virou um riachinho. Eu estou, na mais generosa das hipóteses, estranha. Não sou mais a mesma, essa experiência nos transformou profundamente. Ele, tem de se esforçar em se aproximar de gente nova (para alguém introvertido e tímido, isso é bem difícil), experimentar mais e se empoderar a sua maneira. Eu, preciso esperar e ver no que vai dar, tentar como uma equilibrista não negar meus desejos e pulsões, os adormecer, mas não os matar. É  o cuidado com a geada, é dormir de lampião aceso para não deixar fenecer a mim, a ele, a nós.

Pode ser que após se soltar eu esteja tão insegura e amedrontada (de tanto puxar o freio, de tanta contenção), que precise de amparo e de um tempo. Pode ser. No entanto, tenho o privilégio de negociar minha liberdade, uma vez que a gente só pode negociar aquilo que nos pertence. Se uma voz bem baixinha diz que tudo vai dar errado, uma outra, mais orgulhosa e atrevida diz que posso me dar esse luxo, afinal, sou leoa com vasta experiência em lamber cicatrizes.

1371737_635984596446219_1167967509_n*Eu sou Fred. “[…] Eu costumava andar nu pelo meu quarto. Uma vez, eu estava fazendo isso com as portas abertas, quando observei que havia uma mulher me olhando de um apartamento fronteiro ao meu. Ela estava sentada em sua varanda, me observando, sem demonstrar que estivesse sentindo a menor vergonha, e algo fez que eu resolvesse fingir que não havia percebido sua presença. Temia que ela fosse embora se percebesse que eu tomara conhecimento dela. E ser observado por ela me deu o mais extraordinário dos prazeres.”

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