A ordem da casa

As ruínas da casa estão aí
Só paredes em pé, não tem telhado
Falta porta, está tudo escancarado

Depois de muito tempo olhei aquela casa. Eu estivera ali, mas parecia que havia pisado há mais de século naquele lugar. Tudo jogado ao chão. Cadeiras quebradas. Poeira. Um sem fim de teias de aranha. O sofá partido ao meio. A pintura descascada. Onde eu estive?

Voltei e vi. Com olhos de ver. Era eu quem tinha estado ali tanto tempo. Vivi sem prestar atenção. Não vi a lâmpada que queimou. Também não reparei na porta emperrada. Ah, e mexer nessa infiltração enorme no meio da sala? Não mesmo. Estava tudo feio, mas dava pra continuar vivendo ali. Sem gosto. Sem sol. Sobrevivendo.

Casa_abandonada

Fui me acostumando a não estar. A passar por ali. A não olhar. E cada vez que pensava no que estava desmoronando mais eu fechava a janela, o cenho, os olhos. Menos eu ouvia o passarinho no quintal. Mais eu tinha vontade de derrubar a goiabeira.

E foi assim até o dia em que abri aquele janelão antigo e a maresia entrou mexendo em tudo. Com ela, um cheiro de vida. Abri os olhos e vi. Vi com olhos de refazer. Percebi, assombrada, que aquela casa não era minha. Nem era meu esse lugar. Não daquele jeito. O que é meu tem cheiro de anis. Tem gosto de manjericão.

Pelo menos por enquanto. Posso enjoar do anis e trocar o manjericão pela salsa. Ou misturar tudo e fazer uma orgia nos aromas e sabores. Eu posso. Eu quero. A casa está sendo arrumada aos poucos. Tem dias que faço mutirão. Com cerveja estupidamente gelada prum batalhão e muita água no feijão. Tem horas que limpo sozinha os rodapés com escova de dente velha. Tem dias de sonho. Tem dias de alegria. Tem dias de dor fina. Mas essa tem sido visita rara. Uma tia que mora muito longe e dorme aqui só para seguir destino na manhã seguinte.

E nessas arrumações todas achei uma caixa no sótão. Tinha uma poeira fininha por cima, daquelas que a gente manda embora só com um sopro. Estava ali há pouco tempo. Era uma caixa de papel tão brilhante que era impossível resisti-la, envolta num laço de fita. Desfiz o laço. Abri. Achei o bilhete do trem que há muito havia comprado e guardei para um dia. Uma oportunidade. Uma próxima vida, talvez. Estava esquecido. Olhei a data da passagem e se eu corresse chegava na estação a tempo. Fui e volto para continuar a enfeitar a casa.

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2 ideias sobre “A ordem da casa

  1. Lindas as palavras, uma mistura de realidade e ficção, saudade e companheirismo, descobertas e incertezas… Uma mistura de estar dormindo e estar acordado! Seja bem-vinda à singularidade da vida e da fantasia, afinal janelas abertas, sempre nos mostram o verdadeiro e isso, é muito compensador.

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