Ridiculamente ridícula

Ridiculamente, ridícula. Porque ser biscate é poder ser, também, ridiculamente, livre.

Ridiculamente, ridícula!

Porque hoje eu cansei, cansei assim de escrever para você essas tantas cartas de amor. São ridículas, como disse Fernando Pessoa, todas o são, e eu cansei dos meus rodopios poéticos de amor extravasado. Rio. De mim. Das cartas ridículas, dos sonhos, das expectativas. Não seriam todos ridículos de tão bom? Eu posso ser assim, ridícula, é livre, é bom poder. Rio a brincadeira bonita e a sorte de querer viver, num declarar de janelas. Declaro ao mundo, atrapalhada com minhas flores mortas na mão. Coloquei tanta água que elas murcharam, uma a uma, excesso. Excedo-me, ridiculamente, rindo alto como exceção a mim mesma. Desajeito. Rio a dor sem pressa, o choro rouco, as bebidas e os cigarros das noites vazias, os poemas que não fiz, os convites que recusei, a ressaca, tantas delas. Rio eu todinha, e eu posso. Porque eu me permito, ridiculamente, exceção a mim mesma, galopes no ar e tropeços no chão.

E porque eu fui toda ali, eu fui querendo o impossível, boba eu, querendo suprimir distâncias e medos, querendo morrer ali nos teus braços calmos, na sua placidez profunda de mar. Querendo dizer o que você não diz, ocupar as suas entrelinhas, soluçar o seu soluço de choro nenhum. Porque sua voz embaralhava na minha e nos fios emaranhados das nossas roupas, nas imagens dos nossos espelhos invertidos, e então eu achei que podia. E eu posso, assim, ridícula de querer espalhado no chão, esparramada na tua voz que não vem. Grudada na tela, tão tão ridiculamente grudada a espera das tuas letras, os olhos doendo, rio de poder grudar e chorar quando aperta o peito pelas linhas que não chegam.

Porque eu canso de ser ridícula e aí eu digo nunca mais, nunca mais escrevo, nunca mais vou, não quero mais. Duzentas vezes não quero mais, podendo voltar atrás de todas elas. E eu volto, todas, sem pudor, ridícula. Então eu canso, mesmo, canso tanto da minha rouquidão de garganta seca. Daí descanso, adormeço, sonho de novo que o amor pode ser uma ilha calma no meio das águas, uma terra para me dar impulso. E então eu pulo, sozinha, remo, estiro os músculo e volto, eu sempre volto, exausta, você sabe. Não tem ilha, a ilha é ridiculamente criada por mim, com coqueiros e tudo, sombra e mar verde quente, som de rumba, assim, açucarada. Com todas essas alegorias frágeis do amor, todas elas tão frágeis e tão ridículas e eu coleciono todas, uma a uma, no meu corpo, nas minhas letras, nas minhas falas demoradas, no que me imagino de presente. E uma a uma te mostro, ridiculamente enfeitadas com fita vermelha, te dou os meus presentes para que não abras nunca e deixe-os guardados na árvore de natal que não existe, nem nos sonhos, quem vai querer uma árvore de natal com luzes pisca-pisca? Ridículo, eu sei. Mas eu quero.

 

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4 ideias sobre “Ridiculamente ridícula

  1. Amei o texto.Me traduz, ou melhor, traduzindo todos os sentimentos que escrevo e reescrevo, toda uma paixão criada e não ocorrida, todo o meu amor platônico pela Carô, todos os meus momentos ridículos , meus sonhos, meus desejos, a calmaria, as bebedeiras, os devaneios…
    Sílvia querida, tomei posse do seu texto, ainda que tão somente em minhas horas ridículas, pois me traduz.
    Abraços.

  2. Delicia!
    Tem texto que dá tesão.
    E eu to falando de físico mesmo, dá vontade de tocar, beijar, morder…
    Nem sei pq esse me deixou MAIS assim do que os outros..
    Sou ridícula tb! e ainda acho bom! Me achei!
    Parabéns, de novo e de novo e de novo e sempre!!

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