Violência psicológica, essa sutil

A violência psicológica é das formas mais sutis de violência. Geralmente, não se percebe, e ela vem travestida de cuidado, carinho, zelo. Para as mulheres isso é ainda mais perverso, pois somos criadas sob a ideia de que só nos realizamos em função da relação amorosa em que estamos. E que um homem ao seu lado (sim, pois além de tudo a heterossexualidade é a única possibilidade de vivência da sexualidade) é melhor do que ficar sozinha. Ainda que esse homem seja violento.

If he tries to go  too fast, too soon,  this spells DANGER

“Você é o sol, a lua e as estrelas para mim…”

(If he tries to go too fast, too soon,this spells DANGER/ Se ele tenta ir muito rápido, muito cedo, isso se chama PERIGO)

Esposa: – Eu também! Eu quero fazer tanta coisa durante minha vida…
Eu quero escrever um livro, expandir minhas companhias… aprender a voar…
Marido: – Espere um momento… Você não quer ficar comigo?
Esposa: – Sim, mas…
Marido: – Sem mais – agora você precisa pensar em NÓS no plural! Esqueça as outras merdas!

(If he demands that you give  up your dreams,  this spells DANGER/ Se ele demanda que você abandone seus sonhos, isso se chama PERIGO)

Uma das coisas que dificultam perceber a violência psicológica é a sua sutileza. Ao contrário da física que deixa hematomas e sequelas que podem ser vistas por outras pessoas, a psicológica demora para ser entendida como tal. O namorado ciumento é visto como amoroso. O marido possessivo é visto como zeloso. A ideia geral é que não há violência ali, apenas amor. Um amor exacerbado e controlador.

If he insists that his plans  are more important than yours,  this spells DANGER

Marido: – Faça suas malas, estamos indo pra Grécia no sábado.
Esposa: – Espera, eu tenho prazo na semana que vem para entregar um trabalho no escritório.
Marido: – Esqueça os prazos, aonde esta o seu senso de aventura? Além disso, eu venho planejando essa viagem há semanas!

(If he insists that his plans are more important than yours, this spells DANGER/Se ele insiste que os planos dele são melhores que os seus, isso se chama PERIGO)

WHO-WILL-LOOK-AFTER

Esposa: Quem vai cuidar das crianças?
Marido: Não me interessa. Pergunte a sua mãe, ela deve servir para alguma coisa!

(If he uses derogatory language towards your family & friends, this spells DANGER/Se ele fala de modo depreciativo da sua família e amigos, isso se chama PERIGO)

E aí que frases ofensivas são tidas como brincadeiras. “Ah, o seu colega dá em cima de você. Ele deve bater uma punheta pensando em você hein?”. Poderia ser uma brincadeira (de péssimo gosto) ou a ideia de que você é uma pessoa irresistível e que todos os homens do mundo te desejam. Mas uma frase dita nesse viés revela o controle que o parceiro tenta exercer sobre a mulher, estendendo seu domínio até sobre o efeito que a mulher tem sobre outras pessoas. E, muitas vezes, as insinuações se aprofundam, dando a entender que a mulher provoca intencionalmente os sonhos eróticos com ela e, claro, que um dia vai realmente ter um relacionamento com ele.

If he is inconsiderate, disrespect- ful, or puts you down in public,  this spells DANGER

Marido para a esposa do amigo: – Então Lee, como você consegue estar sempre tão bonita?! Você deveria dar umas aulas pra minha Roz!

(If he is inconsiderate, disrespectful, or puts you down in public, this spells DANGER/Se ele não te considera ou te desrespeita em publico, isso se chama PERIGO)

I-DONT-WANT

Marido: Eu não quero saber de você falando com os vizinhos.

(If he tries to isolate you  from friends and family, this spells DANGER/Se ele tenta te isolar dos seus amigos e família, isso se chama PERIGO)

Com toda essa paranoia em cima, a pessoa passa, gradativamente, a ter medo de ser vista na companhia de qualquer outro homem (e, a princípio, claro, ela não chama de medo, é cuidado, respeito ao namorado, etc). Seja amigo, colega, ex-namorado. Ops, ex-namorado é entidade proibida para pessoas que se comportam dessa forma. O desejo dele é que você não tenha história, que sua vida comece a partir do momento em que se conheceram, e que você tenha nenhum afeto por aqueles com quem já dividiu a cama e outras coisas.

SLAM

Marido ao telefone: Eu te amo!
(após alguns segundos, ele bate o telefone com violência no gancho).

(If you experience illogical incidents of abuse in the middle of bliss, this spells DANGER/Se você percebe incidentes irracionais de violência em meio a um momento de calmaria, isso se chama PERIGO)

DID_I

Marido: Eu realmente fiz isso? Eu não me lembro do que aconteceu na noite passada.

(If he acts like nothing has happened after an abusive episode, this spells DANGER/Se ele finge que nada aconteceu depois de um episódio de abuso, isso se chama PERIGO)

A violência psicológica machuca. Cada palavra aparece como punhal. Corta. Dilacera. Detona com a auto-estima. E, se um dia você consegue perceber isso e reagir, ele virá pedindo desculpas. Porque é assim que o agressor se comporta. “Foi só dessa vez”. “Você sabe que eu te amo”. “Não quero te perder”. “Não fiz por mal”. “É a minha opinião”. “Você não me ama mais?”, “Me desculpa, não queria te magoar”. E depois do tempo regulamentar das pazes, ele age novamente, vociferando acusações, injúrias e dizendo que te ama.

SLUT

Esposa: Você me chamou de puta…
Marido diz rindo: Chamei? Deve ter sido por causa do seu biquini vermelho – vamos dar um mergulho!

(If he blames you for what has happened and minimizes his abuse, this spells DANGER/Se ele te culpa pelo que aconteceu e tenta minimizar a violência, isso se chama PERIGO)

DUMB

Namorado para outro homem: – Não se faça de bobo… Eu vi você olhando a minha namorada!

(If he shows intense, unwarranted jealousy, this spells DANGER/Se ele demonstra ciúme injustificável, isso se chama PERIGO)

Num relacionamento violento, só existe gentileza, amor, carinho quando há concordância. Em tudo. Se a mulher faz algo que desagrade, pronto. Tudo vira um inferno. “Seu vestido é muito decotado, mas você é quem sabe se quer usá-lo”, “Tá vendo? Sua saia é tão curta que mostra tua calcinha”, “Você vai viajar sozinha?”, “Por que você não atendeu o telefone?”, “Como assim você não quer sair hoje? Eu já comprei os ingressos, você trabalha amanhã”. “Por quê não quer que eu durma na sua casa?”

RING

Telefone toca e a namorada está dormindo.
Namorada: Alô?
Namorado: Onde você estava? Com quem você saiu?
Namorada: O que?? Onde?

(If he checks up on your every move this spells DANGER/Se ele segue todos os seus passos, isso se chama PERIGO)

E por aí vai uma série de questionamentos que colocam a companheira como um móvel a disposição do homem. Ela deve fazer tudo o que ele deseja para que assim o relacionamento possa caminhar em paz. Como ela ousa questionar suas atitudes se ele já lhe dá todo o amor do mundo? “Não entendo essa coisa de se sentir sufocada. Eu sinto ciúmes porque te amo”.

PAWS

Esposa: Brian, está 40 graus abaixo de zero lá fora – as patinhas dela (provavelmente uma cadela) estão congelando!
Marido: Olha só! Eu não preciso dessa merda… Eu já disse que não vou deixar ela entrar!

(If he mistreats pets this spells DANGER/Se ele maltrata animais, isso se chama PERIGO)

E aí que esse homem não é nada melhor do que aquele outro – sim, porque homem agressivo é sempre o outro – que bate na mulher num acesso de raiva.  Que se descontrola e quando vê já deu um soco no rosto da namorada. Que no meio do calor da emoção, puxou o braço da companheira e lhe xingou de vagabunda. Não, eles não são diferentes. Ele não é um cara legal que, de vez em quando, tem atitudes terríveis. As atitudes terríveis fazem parte de quem ele é.

DREAM

Dançando após um episódio de violência física:
Esposa pensa: Será que eu sonhei com aquela agressão?

DANGER: The first sign of dissociation is when  you start to wonder if it really happened at all. (To confirm your reality, find a witness, or write down what happened and date it)/O primeiro sinal de dissociação ocorre quando você começa a imaginar se o episódio de violência realmente aconteceu. (Para confirmar a sua verdade, procure uma testemunha ou escreva em um papel o que aconteceu e quando aconteceu.)

Então, eu convido as pessoas que chegaram até o fim desse texto a olharem para seus relacionamentos e perceber como ele está sendo construído. Dentro dessa relação que você vivencia, ou que já experienciou, você se sentia sujeito? Você se sentia livre? Você sentia medo do outro?

WHAT

Esposa ou namorada pensa: – O que foi que eu fiz de errado?

(Your better question is, “What is he doing wrong?”/Um questionamento melhor é “o que ele está fazendo de errado?”)

Esses quadrinhos fazem parte de um livro – Friends of Rosalind – que  mostra uma mulher que passa por várias situações que podem ajudar você a pensar sobre seu relacionamento também:

http://www.friends-of-rosalind.com/learn.html

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10 ideias sobre “Violência psicológica, essa sutil

  1. Já vivi uma situação assim. No caso a pessoa se fazia de frágil, chorava, fazia cena de coitado para me manipular, era ciumento ao extremo. Ele sabia que se tivesse uma postura agressiva não ia colar comigo. Aí foi que percebi que eu quem me tornei violenta, andava aos gritos e até o dei uma tapa, num dos seus episódios de ciúme. Quando me vi reproduzindo o que eu DETESTO, caí fora sem olhar pra trás! Nunca mais eu banco a Mulher Maravilha, se alguém demonstrar que não está bem para amar, primeiro vá se tratar, porque violência pega!

  2. Pois é, Manu. Uma relação violenta acaba nos tornando violentas tb, quando é aquilo que mais repudiamos. Que bom que estamos livres dessas relações terríveis q nos magoam tanto.

  3. Homens também são vítimas de violência psicológica.
    Sou refém em um relacionamento assim e não consigo me libertar por medo de ficar longe de meus filhos.

  4. Não sabia que era comum este tipo patologia: cimento e ofensivo que traumática qualquer uma. As sequelas são vistas no corpo com dores de tensão e na mente com o sono. Terminamos ficando violentas como eles para nos defender das loucuras impostas e pelo estresse vivido. Nada saudável.

  5. Sao pessoas desequilibradas. Se sentem boas, perfeitas, melhores. São inquisitoras. Cuidado com estes doidos. São românticos, prometem tudo o que uma mulher quer: companheirismo, carinho, filho, casamento. Mas o básico não pode oferecer: PAZ.

  6. estou vivendo uma relação um pouco conturbada. há um ano. ele é muito carinhoso, atencioso, mas muito mentiroso e mulherengo, e de um tempo pra cá passou a me comparar com prostituta por causa das minhas roupas, só posso sair com ele de calça, fala dos meus amigos, diz que sou chata, que ligo demais… que gasto demais, faz brincadeiras com minha cor (sou negra), faz eu me sentir muito mal. sou universitária e tenho um bom emprego, casa própria…. tudo que ele não tem. mas amo muito ele. sei que ele tá me ofendendo. já decidi, vou deixá-lo.

    • Regina,
      Para além de manifestarmos a necessidade de consciência e combate à violência em todos os casos, principalmente a sofrida pela mulher no ambiente da relação afetiva. Entendemos, ainda que com dor, que a decisão sobre qualquer atitude é de quem se sente ofendida e que a superação do medo requer um apoio incondicional de família e amigos. É muito difícil lidar com esse tipo de violência, mesmo porque a quantidade e a qualidade do sentimento envolvido é muito complicada. O que temos pra te dizer, com certeza, é que amor nenhum sobrevive à opressão e desejo nenhum se deveria permitir sofrer.

  7. acabei tem pouco tempo um namoro, meu namorado era carinhoso e amoroso, mas qualquer coisa ele se irritava, me xingava, falava que não queria mais me ver, que eu só desgracei a vida dele, e no outro dia fingia que nada aconteceu. O incentivei a procurar tratamento e ele não quis.Ele não queria que eu visse nenhuma amiga, pq era como se ele não fosse o suficiente para mim, sentia muito ciumes, quando terminei ele chorou muito. Não sei o que fazer, fico preocupada com ele. Mas não posso mais voltar, a mãe dele me apoia muito nisso. Lembro de como ele é atencioso, mas lembro tbm da insegurança e o medo de que a qualquer momento o humor dele mude. Estou angustiada… ele está atrás de mim, mas to evitando ele.
    Se ele ao menos se tratasse, mas já que não quer eu preciso cair fora mesmo. Só fico triste por ele ser assim, ele não faz amigos e não quer fazer. É uma pena

  8. Estou casada há 7 anos. Meu marido por poucas coisas me xinga xingar de pura, vagabunda, prostituta… O q mais me dói é que ele não se arrepende. Ele me faz me sentir culpada por ser tratada dessa forma. Ele me trata bem e duma hora pra outra devido a uma colher cair no chão por exemplo, ele começa tudo de novo com as humilhações. Eu nao tenho forças de sair desse relacionamento. Não sei mais o q fazer.

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