A Aids e as mulheres

Ela é promíscua. Não sei bem o que é isso, mas, segundo a ONU, pessoa promíscua é aquela pessoa que tem mais de dois parceiros sexuais em um ano. Creio que 90% da população brasileira se encaixa aí. Ela a quem eu me refiro é a personagem Inaiá, interpretada por Raquel Villar, na novela das 21h da Globo, Amor à Vida.

Quando fiquei sabendo que essa personagem descobriria que tem Aids (sim, eu sou noveleira e me interesso pelo que ainda vai acontecer nas tramas que acompanho, ou não), alguns questionamentos me vieram à mente: por que uma mulher? Por que uma mulher negra? Por que uma mulher negra e que teve mais de um parceiro ao longo da trama?

Bom, aí que muita gente, e o próprio autor Walcyr Carrasco, poderia me responder: foi coincidência, uai. Mas não, isso está muito longe de ser coincidência. Inaiá é a ÚNICA mulher negra da novela (outro ator negro da trama é Kayke Gonzaga, que interpreta o menino Jayme) e me pergunto: por quê ela? Ora, ela reúne – de acordo com o pensamento machista, racista e reacionário vigente – todas as prerrogativas para ter Aids. Ela é negra. E as mulheres negras estão no mundo para serem consumidas sexualmente por todos. Ela é “da cor do pecado”, foi feita pra isso. Ela exerce sua sexualidade livremente. Antes do atual parceiro, ela já transou com outro médico da trama – pra ONU e pra muita gente, ela já é promíscua.

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Ora, reunindo essas duas características, Inaiá seria a personagem ideal para Walcyr Carrasco arrotar por aí que está focando num problema social: a feminização da Aids. Só que não está. Ele está apenas reforçando estereótipos machistas e racistas. E afirmando que apenas mulheres “promíscuas” terão Aids, e em nada acrescentando ao debate de uma educação sexual necessária.

Que a feminização da Aids é uma realidade, creio que muita gente sabe. Desde a década de 1990, o índice de infecção do vírus aumentou entre as mulheres, e, hoje 50% das pessoas infectadas no mundo são mulheres.

Para que chegássemos a esse patamar, muita coisa atuou em conjunto. Falta de informação, ação das igrejas para a não utilização de preservativos, confiança na tal da “relação estável”, e o machismo. Sim, sempre ele a nos espreitar. Porque os três motivos que eu apresentei – e aí acredito que existam outros – têm sua gênese no machismo.

As mulheres não são educadas para se posicionarem, para exigirem do parceiro que ele use camisinha, para acreditar que ter um parceiro fixo é sinônimo de prevenção. Não foram educadas para adquirir camisinha. A família acha que uma mulher com camisinha na bolsa é “puta”. O posto de saúde também. O atendente da farmácia, idem. As escolas acham que “falar sobre sexo” estimula adolescentes a fazê-lo. Os parceiros ainda se saem com aquela velha e máxima “você não confia em mim. Por isso que quer usar camisinha”.

Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.

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