A biscatagi é nosso grito de resistência

Eu e a morte, a gente vem desde sempre.
Feridas muito muito antigas, de infância.
De que eu nem lembro, mas que deixaram marcas.
Tem uma em particular: aquele dia em que minha mãe me deixou, com menos de dois anos, na casa da minha avó no Recife. E foi embora. Sem avisar. As circunstâncias disso eram complexas, era durante a ditadura, ela precisava ir, precisava arranjar, de novo, um novo apartamento. Mas ela achou melhor me botar pra dormir, como sempre, e ir embora. E eu acordei no outro dia sem mãe.
Não lembro dessa história: me contam que quando finalmente eu vim pro Rio, segurei a mão da minha mãe, a mão do meu pai, pra não soltar nunca mais. E o que lembro é que eu passei muito tempo com pânico de dormir. Achando que o mundo ia sumir quando eu fechasse os olhos. Precisando de luz acesa, de porta aberta. Eu sabia que não tinha nenhuma racionalidade. Mas achava. Mas sentia.
Isso – é claro –  tem reflexos. Muitas vezes tudo sumiu. Já contei isso em outro texto.
Aí a consequência é que eu vivia sempre como se não fosse ter amanhã.
Meu exercício foi  o contrário: o de me convencer de que amanhã, provavelmente, virá.
Possivelmente.
Mesmo que às vezes possa parecer que não.
Se possivelmente virá, a gente pode guardar um pouquinho pra viver amanhã. Não precisa chupar a manga até o caroço hoje. Há esperança de amanhã. Amanhã provavelmente vai chegar.
Ele normalmente chega. Por que não chegaria, justamente amanhã?
É certo que, no entanto. Às vezes. como eu contei acima. Tem amanhãs que não chegam. Tem pessoas que um dia estão e no outro nunca mais. Tem horas que é pra ir porque ali não tem mais nada. Mas não tem jeito, a gente precisa dessa esperança de amanhã. Precisa relaxar pra dormir confiando. Precisa encontrar caminhos, estratégias. Não dá pra viver todo dia como se não houvesse amanhã. E aí a biscatagi é resistência. A gargalhada desafiadora da biscatagi é isso: uma promessa de amanhã.
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