Sobre Morrer Amanhã

Por Arwen, elfo convidadx*

Eu li hoje essa entrevista: “Para ser feliz, pense na morte“. Você pode dizer que a Dra. Ana Cláudia é um pouco Pollyana, mas quem não seria? Ela se espanta com o paciente ateu não-analisado que diz não ter nenhum arrependimento. Mas isso é do espírito do tempo, daqui onde a religião e psicologia são as receitas “certas” para a prosperidade e para a felicidade.

Dra. Ana Cláudia Arantes -  médica especializada em cuidados paliativos

Dra. Ana Cláudia Arantes – médica especializada em cuidados paliativos

“Cuidados Paliativos” é o lugar da Medicina onde todos os dados já foram lançados, todos os dias já foram vividos, todos os pontos já foram contados. Não há nada mais a fazer senão esperar. O fim está tão próximo que você pode tocá-lo. E a alegria que ela passa deixa entrever que não deve ser fácil, não deve ser rosa e azul celeste, essa escolha de cuidar dos que já não tem esperança. Fazer da morte sua morada, por assim dizer.

E me deixou pensando em algo que ela diz lá pelo meio, da importância de ouvir a morte, de se aconselhar com a morte, de sentir que a morte está logo ali. Viver como se não houvesse amanhã. Mas isso a cada hora, cada minuto, segundo – nunca tomar uma decisão sem saber que pode ser a última. Nunca ir dormir achando que vai acordar. Nunca acordar achando que a noite você estará de volta nesta cama. Parece um plano.

Porque aí cada “sim” e cada “não” ganham um significado além do mero automatismo, além do desejo da manada ou do caminho suave da cartilha padrão (e numa nota irrelevante, talvez até  leviana neste texto, “Caminho Suave” é de um sarcasmo feroz, não se devia fazer isso com criancinhas analfabetas – quando aquele livro termina você aprendeu a ler, sua vida mudou para sempre, sua expectativa de um dia que nunca termine no parque de areia se perdeu entre uvas e bolas e a sombra da Biblioteca de Babel já ameaça, ao longe, qualquer perspectiva de um final feliz).

Porque aí qualquer coisa que se possa chamar felicidade passa antes pela necessidade – você não é feliz porque fez isso ou deixou de fazer aquilo, isso ou aquilo eram tudo o que você podia fazer e, se foi bom, que bom. Senão, não podia ser de outro jeito mesmo. Todas as consequências boas ou ruins são simplesmente marcos em uma estrada que você escolheu porque, fundamentalmente, não queria morrer sem passar por ali. Ou morreria se não passasse.

É uma terra estranha, além da linha amarela, aquela onde você não devia nem pisar, quanto mais cruzar. E a morte está sempre com você, não como ameaça e sim como destino. Mas é um lugar onde as escolhas podem talvez, finalmente, fazer um sentido.

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*Arwen, porque a gente escolhe, inclusive, reconhecer a finitude.

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3 ideias sobre “Sobre Morrer Amanhã

  1. Recebi esse artigo uns dias atrás, e com uma viagem marcada para São Paulo, e uma neura que sempre me assola antes de viajar eu estremeci assim que li o título. E com esse último parágrafo, se não tivesse com tudo pago estava certa do cancelamento da viagem:

    “É uma terra estranha, além da linha amarela, aquela onde você não devia nem pisar, quanto mais cruzar.”

    A fucking linha amarela é a que eu vou usar no metro para ir em todos os lugares. Passei essa última semana pensando que talvez tudo possa ser a ultima vez, e sabe de uma coisa? Foi uma merda. Não consegui dar grandes gargalhadas de qualquer piada boba que escuto. Sentir prazer com coisas carnais foi impossível, pois tudo que me rodeava era uma grande onda de sentimentalismo e vontade de fazer o bem pela última vez.
    Eis que meu voo é amanhã e eu recebo novamente esse artigo na minha caixa de email. E toda a euforia com a viagem que eu estava no dia de hoje (depois de ter superado o fim de semana) foi substituída apenas por medo. Me desculpem os outros belos artigos, mas estou cancelando o recebimento de emails desse blog. Quero viver a vida de forma leve, como se fosse viver eternamente, pra mim essa é a escolha mais sensata para aquilo que é improvável.

    • Cara Bela, você recebeu esse texto duas vezes porque foi publicado por engano na primeira, a gente se desculpa.
      E só pode lamentar que você esteja indo embora por causa dele, e que tenha ficado assustada: minha leitura do texto, diferente da sua, é que ele chama pra vida, pra viver a vida, pra aproveitar a vida. Pra construir todo dia a vida que a gente quer construir. E não deixar pra um mítico depois. Sem a morte que nos acompanha, não haveria nem isso a que chamamos de vida, como conta a Simone de Beauvoir em “Todos os Homens São Mortais”. O mesmo sentimento era o do Herbert de Souza, o Betinho, que dizia que não morreria de doença, e sim, de vida. Como todo mundo: de vida.

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