Quando gritar é necessário

Ela, que até então estivera muda, cantou. Cantou e ouviu o som doce da própria voz. Viu que cantar era bom. Quanto mais cantava, mais coisa tinha para cantar. Mais seu peito se tornava um lugar de alegrias. Cantava e ouvia outras pessoas cantando. E o canto delas era tão parecido com o seu. E isso lhe acalentava, dava aquela sensação boa de que não estava só no mundo. Se soubesse, tinha cantado há mais tempo.

Teve um dia que só cantar não bastou. Precisou gritar. É que a dor tinha se tornado lancinante. Cantar já não esvaziava o peito. Gritou a plenos pulmões. Gritou a dor que sentia há tanto tempo e que só agora teve peito e garganta pra gritar. Gritou porque achava que outras pessoas iam ouvir seu grito e outros gritos se juntariam aos seus. Gritou porque pensou que havia muitos gritos contidos por aí e que quando a ouvissem gritar iriam entender e um dia teriam a coragem mesma de gritar também.

Gritou na esperança de acabar com a dor. Em vão. Gritou e ouviu “não grite”. “Você está fazendo muito barulho”. “Você exagerou no grito”. “Você expôs muita gente com seu grito”. “Não queremos ouvir o que você tem para gritar”. “Não acreditamos no seu grito. Nem na sua dor”.

E pensou mesmo que talvez fosse exagero. Que, afinal, se ninguém grita por que iria ela gritar? Se ninguém grita, é porque a dor já acabou. E ela não percebeu? E o seu grito tão dolorido, tinha, na verdade, machucado os ouvidos de quem não queria ouvir aquilo. E ela não tinha o direito de atrapalhar o bom sono e a boa consciência daqueles que tapam os ouvidos na ilusão de não sofrer.

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E chorou ao pé da cama. Pois às dores só cabia o espaço mesmo do quarto vazio. Chorou alto, mas abafou com o travesseiro porque não queria cometer novamente o erro de incomodar os ouvidos puros. E as consciências tão acostumadas aos silêncios confortáveis. Chorou e adormeceu.

Acordou e pensou no seu grito.Ele ainda estava ali e já não era mais possível abafá-lo. Ele já tinha ganhado o mundo. Ouviu um grito lá longe. Ele lhe dizia que só pôde sair depois de ter ouvido o seu. Que ele também não ficaria mais calado. Que ele também sofria, mas que queria ferir os ouvidos incapazes de entendê-lo. E que esses ouvidos só entenderiam os seus gritos quanto mais os ouvisse. Não era mais possível silenciá-los. Os gritos de dor estavam aí, ecoando, provocando, incomodando.

E foi quando percebeu que aqueles que se incomodavam com seus gritos, eram os mesmos que provocavam aquelas dores. Os gritos doíam neles, porque lhe traziam verdades que não queriam ouvir. Aqueles gritos traziam lembranças que eles queriam ignorar. O grito lhes doía, não porque era estridente. O grito dela incomodava, era demasiado, porque não é fácil reconhecer a legitimidade do grito do outro. Porque o grito dela era direcionado a ele.

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