O que é que vão pensar?

O que é que vão pensar se eu, gorda, for de biquíni à praia? O que é que vão pensar se eu, magra, sair com um decote? O que é que vão pensar se eu, médica, gostar de funk? O que é que vão pensar se eu sair de roupa justa, se trepar no primeiro encontro, se tiver rolos de uma noite? O que é que vão pensar se eu andar de mãos dadas com outra mulher? O que é que vão pensar se eu resolver não fazer cirurgia de redesignação genital e escolher ser uma mulher com pênis? O que é que vão pensar se eu fizer a cirurgia de redesignação genital e viver todos os estereótipos do feminino? O que é que vão pensar se eu abortar? O que é que vão pensar se eu resolver criar meu filho sozinha? O que é que vão pensar se eu resolver levar à frente a gravidez e deixar a criança ser adotada? O que é que vão pensar quando eu contar que namoro mulheres? O que é que vão pensar se eu criar meu filho com minha mulher? O que vão pensar se eu não depilar as pernas? O que é que vão pensar se eu não pintar os cabelos, não fizer as unhas, não seguir a moda? O que é que vão pensar se eu gostar de sexo, se eu tirar uma foto fazendo sexo, se eu aparecer em um vídeo de sexo? O que é que vão pensar se eu preferir me divorciar? O que é que vão pensar se eu resolver seguir carreira em TI? O que é que vão pensar se eu escolher ser modelo, atriz, dançarina no palco de programas de tv? O que é que vão pensar se eu não souber andar de salto? Se eu não usar batom? Se eu sentar de perna aberta? O que é que vão pensar se eu deixar o meu ex-marido com a guarda dos filhos? O que é que vão pensar se eu deixar o namorado da minha filha dormir aqui em casa? O que é que vão pensar se, se , se e se?

 O que é que vão dizer?

violência

-foi – não foi – foi

A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos. E ela, e nós, nos perguntamos: o que é que vão pensar? não porque somos inseguras, histéricas, submissas, whatever, mas porque é o papel que nos é imputado e que, diariamente, lutamos pra nos desvencilhar.

E é por isso que eu, biscate, todos os dias chamo pra festa. Pro riso. Pra o dar de ombros pro preconceito, pras perguntas e olhares alheios. Não porque seja fácil. Não que não cobre seu preço. Às vezes dói. Às vezes pesa. Às vezes é quase caro demais. Ser livre é, também, um ato político. E a gente vai, devagar, um corte aqui, uma gargalhada ali, uma incompreensão na esquina, um encontro prazeroso acolá. Biscateando. Biscatear é nossa forma de lutar.

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6 ideias sobre “O que é que vão pensar?

  1. Lu, seu texto me lembrou a conferência que assisti de Valter Hugo Mãe, umas duas semanas atrás aqui em Olinda. Na hora das perguntas, alguém questionou sobre um livro dele – O remorso de Baltazar Serapião – se a personagem havia de fato traído o marido. A resposta dele foi linda. Algo mais ou menos assim: “isso não vem ao caso. Se eu admitir que ela o traiu, vai ficar parecendo que ele então teve motivos para matá-la. E nunca existe motivos para se matar uma mulher. É isso a sociedade machista já faz o tempo todo com as mulheres”.

  2. Muito bom o texto!!!!!! A violência social, chega a ser pior q a violência física, pois ela acontece em maior número e, quanto a isso ainda não existem Leis ou, se existem, dificilmente são aplicadas!!!!!
    Por um Brasil melhor e igual!!!!!!!!

  3. E se? E se eu broxar com uma mulher? E se eu não for forte como um ator de hollywood? E se eu nao for definido como um ator da globo? E se eu não tiver um carro bom? E se eu gostar de moda? E se, e se…

    • Oi, Eduardo, existe um termo para esse seu comentário (?) argumento (?)… chama-se falsa simetria. Muito usado por pessoas brancas que dizem que sofrem racismo, por homens que acham que o feminismo é desnecessário e por gente que pensa que um dia do Orgulho Hétero é uma boa idéia.

    • Se você broxar com uma mulher muito provavelmente vai se importar mais com isso que ela. Se não for forte, bonito ou tiver carrão… bom, espero que você tenha algo mais a oferecer que coisas tão bobas.

      Não estou dizendo que não existam cobranças em cima dos homens. Existem. Mas o que rola com as mulheres é infinitamente maior. E castrador demais.

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