A vida em abraços apertados

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém…
Berimbau,
Vinícius de Moraes e Baden Powell

Em tempos frenéticos de rapidez, de pós-tudo, de infinita celebração do eu, do egoísmo individual que nem ao menos sabe pôr pra fora sentimentos, eu quero mais é me doar pra quem eu gosto. Dar abraços apertados. Fazer comida. Oferecer um café e uma prosa afinada. Ouvir. Rir de tosquices. Chamar para o reggae. Olhar nos olhos dos meus e dizer que amo, que os desejo tanto, que me sinto bem em tê-los aqui comigo. Prefiro ir de mãos dadas, juntos, no afeto, na saudade, na hemorragia dos sentimentos, aqui e agora. E me sentir cheia de amor, fértil, plena, solidária. E feliz por isso, por essas belezas todas de quem celebra junto comigo as felicidades e agruras da existência. Irmanada num abraço apertado e generoso da vida. Das bonitezas do cotidiano, das flores brotadas em horas ingratas, há vida pulsando nesse aperreio e corre-corre. Ali, vida de esgueira, preguiçosa, que pede redes, pomar, bolo de fubá, hortinha de fundo de quintal, toalhinha de crochê, bossa nova, lerdeza, calma, sossego e histórias… E de uma coisa, eu sei, do alto da minha sabedoria de boteco bom, bonito e barato: a vida se esvai e não há tempo para ingratidão. Ah, corajoso é falar o que pensa, é se drenar emocionalmente, é praticar a desimportância, é pôr uma saia colorida de chita sob o sol de meio dia e viver um glamour. Perceber que de tão anônimos, podemos ser felizes juntos. Notando as pequenas grandezas no ínfimo. Voando fora da asa. Imitando Manoel de Barros. Desafinando sambas e choros. Segurando a mão de gente querida que sofre perdas. Perdoando passados. Comendo torresmo e bebendo cerveja. Vivendo a honestidade de um amor curtinho. Abraçando a vida num golpe só e que ela venha, imensa e fecunda, a nos ensinar desconstruções e a dessacralizar importâncias (inúteis).

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5 ideias sobre “A vida em abraços apertados

  1. “(…) Perceber que de tão anônimos, podemos ser felizes juntos. Notando as pequenas grandezas no ínfimo. Voando fora da asa. (…) Desafinando sambas e choros. Segurando a mão de gente querida que sofre perdas. Perdoando passados. (…) Vivendo a honestidade de um amor curtinho. Abraçando a vida num golpe só e que ela venha, imensa e fecunda, a nos ensinar desconstruções e a dessacralizar importâncias (inúteis).”

    Li “milhares de vezes”, de tão apaixonada por essas palavras. Amei este texto Je. Vou leva-lo comigo…

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