A violência contra a mulher e os homens de bem

“É preciso fazer tudo ao contrário”, diz a Camila Pavanelli neste texto que é sobre outro assunto, mas é também sobre o nosso aqui. O nosso aqui: a violência contra a mulher.
Dados e dados sobre isso: deixo o link de um texto do IPEA. Do qual destaco o seguinte:

No Brasil, no período de 2001 a 2011, estima-se que ocorreram mais de 50 mil feminicídios, o que equivale a, aproximadamente, 5.000 mortes por ano. Acredita-se que grande parte destes óbitos foram decorrentes de violência doméstica e familiar contra a mulher, uma vez que aproximadamente um terço deles tiveram o domicílio como local de ocorrência.

O mesmo texto ressalta que estima-se em 40% o percentual mundial de assassinatos de mulheres cujo responsável foi alguém próximo. Alguém íntimo. Um namorado, um marido, um irmão, um pai. Não um estranho, um desconhecido, um psicopata: alguém que estava ali, todo dia, que tomava café, que dormia junto, que via a Maria, a Luísa, a Joana no dia-a-dia. Que a via andar, rir, ter vontades. Sair, se arrumar, cuidar dos filhos. Alguém que a conhecia tão de pertinho.

Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.

Gente de bem. Homens de bem. Homens que não acham nada de mais em chamar a própria mulher de “patroa” ou de “dona encrenca”. Que acreditam ser razoável saber onde ela está, a cada minuto. Que, quando são generosos, deixam-nas ir ao salão sozinhas, ou encontrar as amigas no bingo da igreja. Desde que voltem na hora. Desde que deixem a comida pronta, a casa arrumada, a roupa lavada. (“Eu disse SE”, disse a madrasta da Cinderela.). Que podem fazer faculdade, desde que usem roupas decentes.
Que podem até participar da conversa, desde que falem baixo. Desde que se comportem. Desde que não façam muita bagunça.

Os mais avançados até toleram feministas, vejam vocês. Desde que sejam “feministas de fino trato”. Que falem, mas sem perder a elegância. Reivindicações? Questionamentos? Ah, tão bonitinhas, elas. Olha que gracinha. Meu benzinho, querida, meu doce de coco, você fica tão fofa falando assim, as bochechas vermelhas, a voz inflamada. Tá, tá bom. Passou, passou. Agora muda o canal aí que tá na hora do jogo. Cê lembrou de botar minha cerveja pra gelar?

“É preciso fazer tudo ao contrário”, diz ela. Digo eu. Desde o começo. Ninguém nasce assassino de mulheres. Essa doença é da sociedade. Começa com um leve desprezo. Começa com um sutil segundo lugar. Começa com um acreditar que se tem direitos sobre o corpo de outrem. Começa com um “prenda suas cabras que meu bode está solto”. Começa com a facilidade de dizer, na hora do sexo, “fica de costas que eu não quero ficar olhando pra tua cara”. Começa com um “se não queria, não era pra ter vindo até aqui”. Não era pra ter sorrido. Não era pra ter me dado bola. Não era pra ter ficado de bunda de fora, usado salto alto de “fuck me”. Não era pra ter ido até o quarto. Não era pra ter namorado comigo, ficado comigo, casado comigo. Não era pra ter desonrado a família, sujado o nome que carrega. Não era pra ter bebido. Não era pra ter olhado pra outro, sorrido pra outro, dado bola pra outro. Não era.

Não, essa história não começa com assassinos: começa com homens de bem. E é deles, é com eles, que a gente tem que falar.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

15 ideias sobre “A violência contra a mulher e os homens de bem

    • Sim, Mari, eu conhecia, tinha até pensado em linkar, mas acabei dando preferência ao texto do IPEA. Fica aí o link, pra quem não viu, obrigada! Beijos e adorei a visita! 🙂

  1. Excelente texto!!!
    A doença é da nossa sociedade e essa é a mais pura verdade.
    A pesquisa do IPEA publicada hoje me chocou, apesar de saber que a doença existe e está por aí se alastrando muito mais que o HIV. Simplesmente me chocou, mas continuo querendo acreditar no ser humano. Somos lindos e iguais. E VIVA AO FEMINISMO. E a luta continua companheiras.

  2. Pingback: 26% ou 65%, o que isso significa para o feminismo? O que isso significa para o ativismo? |

  3. Pingback: 26% ou 65%, o que isso significa para o feminismo? | Em greve de nexo

  4. que texto certeiro renata. e tão bom de ler, tão bem escrito. essa é uma longa luta, longa e dificil, mas a gente precisa encarar e seguir adiante. reflexões como a sua trazem força pra todas nós.
    muito grata mesmo.

  5. Pingback: Não podemos continuar dependendo dos homens bons | Nikelen Witter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *