Ainda enterrado em cova rasa o AI-5 completa 45 anos

Por Niara de Oliveira

E as mulheres com isso?

*esse texto faz parte da VIII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

grafite, de Gabriel Muniz

Em quase todos os momentos da história da cultura judaico-cristã o simples fato de ser mulher e ir um passo além do papel designado pela sociedade patriarcal já nos colocava na situação de subversiva. E foi assim na resistência à ditadura.

“Fica evidente que para a ditadura militar brasileira, a mulher militante não era apenas uma opositora ao regime militar; era também uma presença que subvertia os valores estabelecidos, que não atribuíam à mulher espaço para a participação política. Como esta questão está presente na sociedade e nas próprias organizações de esquerda, pode-se concluir que as relações de gênero têm uma dimensão que perpassa todas as instâncias e instituições sociais.
Para uma história das mulheres é imprescindível que a história seja entendida como resultado de interpretações que têm como fundo relações de poder. O caráter de construção da história nos permite desconstruir e reinventar a história, inclusive o papel dos homens e das mulheres na sociedade. Assim a história passa a ser vista como um campo de possibilidades para vários sujeitos historicamente constituídos; lugar de lutas e de resistências.”
As mulheres e a ditadura militar no Brasil, artigo de Ana Maria Colling ICH-UFPel

Se os atos institucionais, entre eles o desgraçado AI-5, foram dando as desculpas legais para toda sorte de arbitrariedade nos porões das delegacias e “departamentos de ordens e segurança” durante a ditadura militar contra quem ousava criticar e se insurgir, contra as mulheres nada disso nunca foi necessário. Embora a subversão das mulheres nunca tenha sido tolerada, também nunca precisou de uma ditadura oficial para ser combatida especificamente. Mas, mulheres subversivas e comunistas já é vandalismo. E embora também não tenha sido fácil para as mulheres (como ainda não o é) enfrentar o machismo da esquerda e se destacarem como quadros políticos na resistência, nunca se teve dúvidas sobre quem era o inimigo maior. E enfrentamos os mesmos horrores.

Difícil dizer se na tortura a crueldade era maior com mulheres. Tortura é cruel, desumano e abominável. Ponto. Claro que haviam os abusos continuados, porque alguns torturadores usavam presas como objetos sexuais diariamente, independente da tortura outra, para arrancar informações e para “quebrar” militante. Estavam ali mesmo, “à disposição”. Sevícias eram comuns com homens e mulheres, fazia parte da cartela de crueldades. Úteros perfurados, filhos roubados, mães logo após sessão de tortura expostas à visita dos filhos, grávidas torturadas… Muitos e horríveis são os relatos do período, ainda não oficiais, ainda não inclusos na história oficial do país, ainda não julgados, ainda colocados em dúvida.

45 anos após aquela tenebrosa sexta-feira 13 de dezembro de 1968 ainda tememos as delegacias, os abusos, a tortura, os desaparecimentos. Ainda tememos a polícia, homens e mulheres que ousam se insurgir contra… qualquer coisa. Basta ser consideradx subversivx. Estar com uma câmera, profissional ou celular, na mão e “ameaçar” registrar os crimes dos agentes da lei. Basta estar com uma garrafa de desinfetante no lugar errado — ou no lugar certo, do ponto de vista do Estado e da polícia que precisa responsabilizar alguém, e se for preto e pobre fica “melhor responsabilizado ainda”.

Embora não estando oficialmente num estado de exceção, o Estado não é seguro. As ruas não são seguras para subversivos e insurgentes, homens ou mulheres. Como bem lembrou a Suzana Dornelles, o AI-5 está enterrado em cova rasa, e se não estivermos atentos e vigilantes talvez nem precisemos de outro ato institucional para vivermos mais horrores nessa “democracia”.

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“Que Bom Te Ver Viva”de Lúcia Murat:

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