Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

violencia contra mulher

Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

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4 ideias sobre “Eufemismos, medo e morte

  1. Com um aperto imenso no coração, vi o vídeo. Chocada com a crueldade da menina que se debatia e foi arrastada pra morte, pra essa morte. Vontade de desistir dessa humanidade, sabe?

  2. Texto muito bom, como de costume, Renata. Um dos slogans da “Marcha de las putas” argentina (e eu concordo) diz que não existe crime passional, existe femicídio. É bem por aí, infelizmente.

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