Insônia (ou é apenas poesia, amor…)

“(…) A liberdade é uma dura conquista: conquista da matéria que resiste sempre, conquista de técnicas que mudam sem parar, conquista dos nossos pares para o que fazemos, conquista do sistema ou da rede do qual participamos, e assim por diante. A frase da Clarice, “liberdade é pouco o que eu desejo ainda não tem nome” já deixa isso claro. É como se ela tivesse dizendo: a liberdade é sempre relativa, mas o desejo de absoluto – para o qual não tenho nome – é, essa sim, a mais pura liberdade.”
(André Parente)

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Sem lógica. Ou palavras. Copos sujos, a garrafa vazia, o cinzeiro cheio e o livro aberto na última poesia antes do deitar é que ainda gritam seu nome.

Penso enquanto: quero mesmo pertencer ao tipo de gente que consegue todo dia fazer café sem se queimar, sair de casa na hora certa, deixar tudo no devido lugar. Pertencer ao tipo de gente que consegue deitar na mesma cama sem suspirar, mas olho o relógio que continua tiquetaqueando: não vai passar, não vai passar, não vai passar.

Resolvo lavar louça ao invés. Porque “seja útil, se ocupe com isso e aquilo” grita aquela. Mais. Olha, que boa menina, agora ele vai te amar. Pronto, acabou a lição de casa, ele vai lhe querer. Espia, não tem um prato na pia, agora ele tem que ceder.

Lembro. Da língua na minha e de palavras que não se ausentam das outras. Como desejo e gozo, naturezas mortas evocando de substantivos abstratos a nomes próprios, adjetivos e verbos para registro das ações e paixões.

Relembro. Que eu amo de verdade é os jeans que uso desde que. São os mesmos daquela vez, me convenço e os arranco. Pensamentos e certezas. Qualquer coisa que não seja.

Azul.

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

Passo a procurar correspondências, disfarces na língua-mãe do que é do desejo e da vontade. Palavras. Em papel listrado e prisioneiro recito mais uma maldita: “escrevo sobre ninguém!”. Mas falo querendo um pouco mais. Novamente. Entrelinhas transbordam, além.

Volto a pintar.

liberdade

Pintura da série “Clichês Azuis” de Raquel Stanick

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