Somos, Todas, Maria!

*Texto que conta com a ajuda de algumas letras bem vindas de Luciana Nepomuceno. 

Nesses dias de luta, e ativismo pelo fim da violência contra a mulher, assistimos, mais uma vez, a repressão do nosso Estado, dito laico, sobre uma mulher. (leia aqui)

Ela se chama Maria. Maria, como muitas. Maria, como nós. Maria que sofre pelo aborto ilegal. Maria que tem seu corpo violado nas tantas esquinas desse país. Maria que pede, e clama, por justiça, e por um Estado que respeite o corpo das mulheres. Que se empenhe em tantas ações não realizadas de proteção e respeito à dignidade feminina. Que garanta, com preceitos e normas laicas, o direito de dispormos sobre o nosso corpo como bem entendermos. Um Estado que não fira à voz e a liberdade das mulheres.

Maria clamou por um Estado Laico. E foi reprimida por pessoas que ainda confundem laicidade e ateísmo. O Estado laico deve garantir e proteger a liberdade religiosa, evitando que alguma religião exerça controle ou interfira em questões políticas. Difere do estado ateu porque este se opõe a qualquer prática de natureza religiosa. Um Estado Laico deve garantir a liberdade religiosa, repete-se e esclarece-se: incluindo aí o direito à descrença. Um Estado Laico não pode e não deve ser pautado por concepções morais religiosas. Que estas rejam decisões individuais é o que o estado deve proteger, mas as mesmas não devem guiar as ações do Estado.

Maria adentrou à Câmara dos Deputados, numa audiência pública (pública? será que isso existe mesmo?) sobre aborto, defendendo seu direito de existir como mulher. De poder reivindicar. E ela reivindicou. Pintada de vermelho, consagrando o sangue de tantas mulheres mortas e violentadas por esse Brasil afora, ela gritou. E gritou, lá dentro da Casa que deveria ser do povo, a voz das Marias. Das Marias que querem poder abortar de forma segura. Das Marias que querem poder transitar com a roupa que quiserem sem serem violentadas por isso. Das Marias que somos nós, vestidas de vermelho todos os dias em que andamos com o nosso corpo cerceado por um Estado repressor. Por um machismo que mata milhares de mulheres das formas mais cruéis e repugnantes, diante do qual a sociedade ainda se cala.

Mas Maria não se calou.

maria

E os doutos deputados expulsaram Maria, com a mesma violência sofrida por todas nós no trânsito cotidiano. Maria foi expulsa pela segurança da Câmara, arrastada pelos corredores com seu sangue pingando pelas leis que não nos representam. Reprimida duramente por existir entre a casta engravatada do poder. Por dizer o que queremos dizer: deixe-nos ser mulher! e viver mulher com o corpo pungente e livre.

Os deputados não aceitaram Maria. Com o mesmo machismo que não nos aceita como mulher. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o Deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), pronunciou: “enquanto havia apenas uma mulher apoiando o tema, a maioria do plenário da comissão se manifestou contra o aborto. Essa representatividade seria, para Feliciano, reflexo da opinião da sociedade sobre o assunto.” (leia aqui)

Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.

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