De quantas histórias é feita a nossa história?

Por Andréa Moraes*, Biscate Convidada

De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?

Tudo isso me veio à cabeça de uma vez só, depois que li nos últimos dias uma quantidade absurda de textos os mais diversos sobre violência contra as mulheres. Essa massa toda de informação que fica flutuando na tela do meu computador e ganha peso quando conheço os nomes, os rostos. Mas tem sempre aqueles nomes e aqueles rostos que ficam martelando pra sempre:  Araceli, Claudia Lessin Rodrigues, Angela Diniz, Monica Granuzzo. Tudo isso aconteceu há muito tempo. Mas parece que foi ontem.

A gente pode dizer que os ingredientes para o sucesso macabro dessas tragédias são o contexto do crime, os requintes de crueldade, os atores envolvidos: gente branca, de elite, lugares de grã- fino, o mais puro bas-fond da classe média (com exceção da Araceli – ela, filha de pedreiro; os assassinos, filhos da elite de Vitória).  Mulheres morrem todos os dias, do Oiapoque ao Chuí, em enredos muito parecidos. Mas a gente sempre se afeta pelo que parece mais próximo, aí não basta ser mulher. Raça e classe pesam nessa hora, minhas amigas, pesam como chumbo. A lágrima só vale quando é chorada por todxs. Mas, nesse nosso mundão século XXI , nossas dores ainda são seletivas. Um dos desafios do feminismo contemporâneo não é o da solidariedade entre mulheres, é maior que isso: é tornar simétricas as experiências singulares de gênero. A dor da Araceli  (cujo corpo foi transfigurado pelos assassinos ) é a dor da travesti que morre esmagada à noite na Via Dutra.

Como Araceli, Angela, Claudia e Monica nos assombram, como suas mortes geraram horror, pânico moral. Elas deixaram suas marcas. Como eu, outras mulheres de minha geração, adolescentes de classe média nos anos 80, passaram por essas histórias, se emocionaram, se apavoraram com elas. Outras, jovens dos anos 1950, têm a sua Aída Curi pra lembrar.  Estava lá nos jornais e na TV pra todo mundo ver. Estava lá gritando a plenos pulmões: viver é perigoso pra gente do seu sexo. A gente cresce ouvindo isso, a gente cresce e aprende a ser mulher apesar disso. Aprende-se até a não ligar muito, a criar aquela indiferença protetora onde a vida segue seu passo e aquela morte é só mais uma morte. Aprende-se também a revidar as agressões, se tiver forças pra isso. Eu tive essa lição desde muito cedo na vida. Se mexerem com você, dê o troco – é o feminismo “fight back”. Mas depois você se pergunta: Porque diabos mesmo que eu to me defendendo? Que merda toda é essa? E a gente já nem lembra mais, a gente só sabe lá no fundo que viver (ainda) é muito perigoso.

 AndreaBiscate*Andrea Moraes [@M5Andrea] é carioca, pisciana, tem 43 anos, estudou antropologia e atualmente é professora universitária. Gênero e feminismo são temas de seu interesse constante.

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6 ideias sobre “De quantas histórias é feita a nossa história?

  1. Obrigada pelo excelente texto, Andrea. Mesmo dolorido e doloroso ele potencializa a ação; pra transformar o presente temos que pôr, na conta, o passado e seus efeitos.

  2. Valeu pelo texto, Andrea. Lembro do caso Mônica Granuzzo, que atormentou nossa adolescência feliz no Rio de Janeiro, como se tivesse acontecido ontem à noite. Lembro como odiei seu assassino, hoje conhecido como Ricardo Sampaio e tem uma academia de praia em Copacabana, lembro como odiei os amigos dele que o ajudaram a ocultar o cadáver e sequer foram presos (Renato Orlando Costa, hoje executivo de uma transnacional e Alfredo Patti do Amaral, morto por parada cardíaca aos 26 anos), lembro como odiei os jornais que culparam a vítima e os pais da vítima e lembro como odiei a própria Mônica por ter morrido, mudando a minha vida e roubando de vez a minha inocência. Descobrimos muito novas que meninas são mortas só porque nasceram meninas. Nessa época em que odiei tudo me lembro do seu pai me alertando numa aula dele que odiar a Mônica era culpá-la também. Troquei o ódio por ela pela tristeza por todas as meninas e mulheres que foram e são assassinadas até hoje e pela militância feminista. Hoje eu velo por Ana Alice, menina de 16 anos, agricultora e militante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Queimadas na Paraíba, que foi estuprada e brutalmente assassinada há pouco mais de um ano, quando voltava da escola: http://aspta.org.br/2013/09/mobilizacao-em-queimadas-vai-lembrar-um-ano-sem-ana-alice-exigir-o-fim-da-violencia-contra-a-mulher/
    Ainda me emociono quando ouço “Mônica” da Ângela Rorô e como ela espero ler o seguinte no jornal: Quem mata menina se dá mal! Mas mesmo com a Lei Maria da Penha, ainda vemos os assassinos de mulheres impunes ou quase impunes por esse Brasil adentro.

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