Sobre violência de gênero, medo e barbárie

Falar de violência contra a mulher é um assunto que mexe comigo. Que dói até mesmo quando levanto a bandeira de sua erradicação. Dói porque eu vivi e vivo no corpo e na alma os efeitos deletérios de ser sido educada em um ambiente onde o machismo era a tônica dominante. Cresci presenciando violência doméstica, na sua faceta mais grotesca, a violência física, aquela que se impõe como violência de gênero, que subalterniza, que deixa marcas e cicatrizes físicas e morais. Essa que causa danos quase irreversíveis à autoestima de quem a sofre. Tudo isso porque somos mulheres. E os gatilhos covardes são muitos, todos igualmente ridículos em sua justificativa: excesso de bebida, “desobediência”, saias “curtas”, traições imaginárias ou outras motivações torpes. Na lógica da dominação que se exerce pelo gênero, nenhum argumento pode ser considerado razoável. E o perigoso, para as crianças, que assim como eu, foram educadas nesse processo cruel de “normalização” da barbárie, é acreditarem que a violência, ela mesma legitimada pelos membros familiares, traz em si mecanismos punitivos e redentores. Trocando em miúdos, como se a violência expurgasse determinados comportamentos indesejáveis (para quem?). Uma forma hedionda de ameaçar e manter a pessoa “em seu devido lugar”. De demonstrar poder. Lembro, com muito asco, de como na minha vizinhança, era assustador o número de mulheres que apanhavam dos companheiros. Tanto, que ninguém mais fazia alarde. Considerava-se como parte da “ordem”. Era como se o homem estivesse exercendo um direito legítimo seu, apenas pelo fato de ter nascido homem. Fui criada assistindo cenas horríveis como essa, dentro e fora de minha família. E crescia em mim também, um sentimento de revolta, de indignação, porque claramente estava convencida que isso era profundamente errado. Mais do que errado, era socialmente inaceitável e criminoso. Desde novinha, comecei a perceber, nesse contexto de masculinidades truculentas e falidas, que se operava apenas com dois estereótipos de homens: o machão violento ou o corno manso, no linguajar nordestino. Ou o cara dominava a mulher, os filhos, a rua, o espaço público, ou era dominado por eles. Ser considerado “corno” era o pior castigo para um homem, renúncia de sua condição, falha fálica, ferida narcísica mais que aberta e exposta para o escracho geral. Não existia espaço para sensibilidades ou papéis que fugissem fundamentalmente a essa lógica esquizofrênica. E daí, o conceito de força, que é um termo belo e afirmativo, era tomado como sinônimo de brutalidade física, de opressão, de mostrar quem mandava e quem dava a última palavra. Eu tinha medo e ainda tenho, sobretudo porque sei que essa mentalidade opera, ora de modo sutil, ora de forma escancarada. Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.

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3 ideias sobre “Sobre violência de gênero, medo e barbárie

  1. Me emocionei, porque acho que todas nós conhecemos ou vivenciamos de certo modo (às vezes diretamente) esse tipo de situação. Eu não falo mais com um parente porque ele, além de altamente homofóbico, agride verbal e fisicamente a esposa. Esse tipo de situação é tão repugnante pra mim que nunca admiti nem piadinhas de namorados, muito menos que falassem alto comigo. Mas assim como Jeane, até hoje tenho medo. Medo de aquele rosto conhecido se virar e ser como esse ex-affair do texto. Definitivamente, as coisas precisam mudar. Sonho com um dia em que esse medo vá embora. Parabéns pelo texto.

  2. Em maior ou menor grau ja fomos vitimas de violencia ou do medo de ser alvo dela. As noticias sao crueis: mulheres assassinadas e espancadas, enfim, e o noticiario apresenta tudo isso como rotina. Falo aqui tambem da violencia psicologica, daquela que bate e assassina a alma. Eh cruel! Parabens, Je pelo texto!

  3. Todo meu corpo esta arrepiado, ante a esta leitura estonteante.. Infelizmente, esta é uma realidade que nos rodeia. A violência pode ser entendida como uma doença do relacionamento e no casal, se manifesta de forma insidiosa, ou seja, o crescimento da hostilidade é, geralmente, crônico e se manifesta aos poucos. Com o passar do tempo, o homem cria dependência deste prazer fácil e inconsequente que obtém, nos momentos de ira. Enquanto isto, a mulher perde, cada vez mais, a auto-estima e autoconfiança, ou seja, sua capacidade de agir positivamente para resolver o problema decresce. Infelizmente..
    Apesar de possuir uma temática pesada, parabéns Je, por mais um belo texto. Muito bem escrito, muito bem apresentado.
    Sua fã.

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