Case-se com ela. Oi?

Por Niara de Oliveira

Redes sociais formam a rua virtual onde todos se encontram sem sair de casa ou sem deixar de ir ou estar em outros lugares, inclusive na própria rua. E nessa rua cada um tem um espacinho de muro ou tapume para escrever, colar, rabiscar, pintar o que bem quiser. A gente também passeia, e vê coisas interessantes e para pra curtir, comenta, faz pergunta, se não gosta bate-boca, enfim… É vida real, só que de outro jeito, noutra versão.

Alguns desses muros tem holofotes em cima, são maiores, fundo claro, e tem um público cativo que sempre passa lá para olhar, aplaudir, comentar, fazer buxixo. Outros muros são pequenos, uns encantadores, uns mais agressivos. Cada um tem “a cara” de seu dono/a. O que me atrai nos muros virtuais é o conteúdo, embora a aparência conte bastante não é o principal. Para algumas pessoas basta um amigo estar curtindo, aplaudindo um muro que ele vai passar a curtir e aplaudir. A isso se chama confiança, admiração. ‘Fulanx pensa e articula ideias como eu gostaria de pensar e articular ideias, então, se ele tá aplaudindo, acho que posso confiar’. E confiam.

Nessa onda do comportamento por indicação e influência, como quem passa a frequentar determinado bar em determinada rua ou bairro porque alguns amigos legais e que são famosos por serem legais sempre estão, conteúdos muitas vezes absurdos e que nem sempre refletem o que as pessoas pensam e sentem de fato são reproduzidos . ‘Veio do fulano e ele não viu problema…’ e quando vimos, determinada frase, imagem ou ainda imagem + frase tomou todos os muros da rua naquele bairro. Viralizou.

Foi o caso desse meme:

meme

Há outros memes com o mesmo conteúdo, mas esse foi o que viralizou. Logo várias feministas e páginas feministas pensaram em respostas para esse meme. Uma delas foi essa aqui:

resposta

Um viralizou e o outro não. Ou, um viralizou mais que o outro. Adivinha qual? É…pois, é. Enquanto o meme original teve 22,5 mil likes e mais de 25 mil compartilhamentos, as respostas pulverizaram. Essa resposta (foto acima) foi a que viralizou melhor — aparece melhor posicionada na busca do google com a frase + nome da rede social facebook. E teve apenas 640 likes e 462 compartilhamentos. Respondeu? Se contrapôs? Marcou posição? Nem precisa ser ‘social media‘ para saber que não. E não só pela quantidade de pessoas atingidas por e por outro…

Cadê a resposta supimpa, aquela que diz que o casamento como objetivo principal a ser atingido pela mulher ou como prêmio por um determinado comportamento nos foi imposto por essa sociedade machista e que não é a escolha individual e livre de cada uma? Cadê os questionamentos óbvios?

Seguem, então, os meus questionamentos: O casar com ela é um prêmio por ter mais livros que sapatos? E se a moça não quiser casar, não quiser ser o prêmio do cara por ELA ter mais livros que sapatos? E se a moça ler e doar todos os livros (é mais fácil se mudar e viajar com pouco peso) e carregar consigo apenas um, o que está lendo no momento, e dois pares de sapatos? E se os livros da moça forem todos de auto-ajuda? E se os livros da moça forem todos racistas, machistas, preconceituosos ou de direita? Desde quando é razoável que o relacionamento entre duas pessoas — que deveria ser a base de qualquer casamento — é decidido apenas por uma? Sério mesmo que é tipo bingo, se a moça marcar um número x de pontos o prêmio dela será… CASAMENTO? Sério mesmo que o valor de outra pessoa continua a ser medido conforme o código de outra?

Por fim. No que desqualifica uma pessoa ter mais sapatos que livros? E no que qualifica uma pessoa ter mais livros que sapatos/bolsas/roupas/bibelôs/bichinhos de pelúcia? E o pior, nesse caso: ninguém sequer imagina um meme colocando o homem como o objeto a ser julgado e receber o prêmio do casamento, né? Quase caí na tentação de gerar um meme colocando o homem como o objeto, mas não é isso que vai resolver a questão. Né?

Continuo indicando o texto da Renata Corrêa, que desconstrói de uma vez por todas essa coisa do ‘valor da mulher’ medido pela régua alheiaNinguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história.”

Memes machistas é o que mais tem na internet. Se fuçar bem, quase todos são. Mas, o que me irrita e aflige são justamente os que precisam ser esmiuçados assim para revelar seu machismo e ou misoginia e que, por parecerem inofensivos ao primeiro olhar, são compartilhados até por pessoas que se dizem antimachistas, que concordam conosco em todas as questões sobre a liberdade/libertação da mulher. O próprio Biscate SC surgiu de um meme desses, ‘bobinho. Parece inofensivo, mas não é.

Quantos livros ou sapatos eu tenho? NÃO INTERESSA! Apenas pare de medir xs outrxs com réguas/regras, elas são suas e ninguém lhe pediu medida nenhuma ou perguntou nada.

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23 ideias sobre “Case-se com ela. Oi?

  1. Gente, pra que tanta polêmica.
    Não sou feminista, embora tenha muitas amigas que são…. Como disse a elas, acredito que isso esteja aumentado demais e distorcido demais.
    As pessoas adoram achar simbologias para tudo, menos para as mais óbvias.
    O comparativo ai, mesmo que um pouco infeliz está entre conteúdo (livros) e aparência (sapatos).
    Não é o que toda mulher quer? ser valorizada pelo seu conteúdo?
    Quando os homens fazem uma que acertam, ainda assim as mulheres procuram problemas, falhas e erros…
    Assim fica dificil!
    Sou mulher e não vi esse meme como uma ofensa, e nem me senti sendo prêmio de ninguém, o cara pode querer casar comigo, mas vai depender que eu queira também, lembram-se?
    Vamos com calma pessoal, dentro da minha concepção isso já ladeia a intolerância….

    • Karla, já viu o nosso primeiro post, o que originou o Biscate Social Club? Era sobre um meme desse mesmo tipo que parece inofensivo, mas não é. Na base de concepção desses memes está todo o machismo que estrutura a sociedade, e a mulher que é sempre medida e julgada (e em muitos casos condenada) pelo seu comportamento ainda é criticada quando não gosta dessas medidas e valorações…
      “Não é o que toda mulher quer? ser valorizada pelo seu conteúdo?” — Não, não é. Nós não queremos que outras pessoas estabeleçam valores e medidas para nós, mesmo que aparentemente seja para o bem e “devesse ser o que queríamos”. Quem decide o que queremos não são xs outrxs, mas nós.
      Se achares errado, não lute pelas mesmas coisas. Seja tolerante tu com a luta que julgamos ser necessária no nosso espaço. Isso quem decide somos nós. E aqui, nesse clubinho, essa luta é prioritária. Está lá no alto do nosso lindo site quem somos e o que queremos. E se ainda restar dúvidas, tem aqui o nosso editorial.

    • então Karla, deixa te contar uma coisa (me conheça um pouquinho, por favor, no about do blog):
      Nós vivemos numa sociedade machista. Tudo o que nos cerca é, de um jeito ou de outro, machista. Você, mulher, é que decide o que faz com isso.
      Tem horas que fico triste. Tem horas que dá raiva. Em outras, eu escrevo. Em outras, calo.
      A gente realmente não vai mudar muito, mas a cada silêncio (meus inclusive) é ponto pro sistema dominante… machista.
      E aí, mulheres com mestrado ganham 35% menos que homens com mestrado. Entre os doutorandos outros números de dois dígitos (são números do Ministério do Trabalho)…
      E a gente vai continuar sustentando as famílias com menos que eles… E continuaremos a ser um objeto sem direitos, feito para o prazer deles.

      Niara, obrigada pelo lindo texto.

  2. Primeiramente a postagem que está sendo criticada não é óbvia e não deveria ser entendida tão ao pé da letra. Não estou concordando com o autor mas entendo que ele não sugeriu que se julgasse a mulher exatamente pela quantidade de sapatos ou de livros. A coisa é simbólica. Sapatos = apego a futilidades e livros = apego a cultura, inteligência. Então o autor está dizendo que se voce encontrar uma mulher que se importe mais com cultura do que com aparência, então essa mulher vale ouro. Só isso. Nada a ver com sapatos.

    • Não, a postagem não é óbvia. Nada a ver com sapatos, tudo a ver com medidas e valorações da mulher a partir de outras pessoas que não a mulher. Esse é o cerne da crítica, Cristina.

  3. A objetificação. Ando percebendo mais claramente o quanto todos nós somos objetificados, em maior ou menor grau. Está para além de qualquer dúvida que a mulher é infinitamente mais vitimizada por essa objetificação. Quando o prêmio não é o “casamento” com o cara que estava “medindo” e “avaliando” é ela mesma considerada troféu e prêmio de alguém, portanto um mero objeto. Vide as propagandas de cerveja em que, numa delas, o cara volta de dentro do freezer com uma cerveja e “uma mulher de brinde”. É o absurdo do absurdo. Por outro lado, essa “régua” que mede os outros é aplicada em várias circunstâncias. Estes dias uma moça de São Paulo, morando lá, entrou com um post no grupo do Facebook da UFMT perguntando como era a vida aqui, em Cuiabá, etc, e tal, pois pretendia vir morar aqui para cursar Medicina Veterinária na UFMT. Só porque em um dado instante, ela provocada a falar de precarização do serviço público por alguém do grupo, manifestou-se que este serviço é precário no país todo, pronto, foi suficiente para que alguns a hostilizassem indagando por que não ia estudar numa particular (aqui de Cuiabá!!!!) e outros porque não ia estudar na Finlândia. Que régua é essa? Quem determina, por uma questão prosaica, de um tira-dúvidas, o que alguém deve fazer de sua vida? Brasil, ame-o ou deixe-o? Sei que fugi um pouco do tema, mas esta régua está se tornando a régua da intransigência em vários sentidos. “Se é B então faça C”. “Se ela tem mais livros que sapatos, então case com ela, ela é uma ‘boa moça’, ‘mereceu’, ‘passou no teste'”. Mas, para encerrar, gostei muito da perspicácia. Realmente muita coisa tem passado despercebida, e por isso, tem sido aceita como normal. Bjs.

  4. Sem contar que a imagem pressupõe que a mulher que tem mais livros (conteúdo) que sapatos (aparência) é uma raridade. “Mulheres são burras e fúteis, mas algumas não são, então valorize as que não são pq são raras e melhores” zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

    • Exatamente isso, Lisiê. Essa sanha de querer nos medir pelas suas réguas já deu. Cada um, uma que se envolva e se relacione com quem quiser e achar conveniente, sem julgar.

  5. Ótimo post, Niara.
    Não queremos mesmo, ser avaliadas pela forma, pelo conteúdo. Dispensamos avaliações. Ainda mais essas assim, fantasiadas de coisa bacaninha. Argh. Beijos beijos.

  6. Oi! adorei o texto! fiquei apenas com uma duvida.

    existe um meme circulando falando algo assim: “moça, se o cara pausar o jogo (jogos de video game ou online) para falar com vc: case-se com ele.”

    alias, esse existe ha mto mais tempo, ou pelo menos eu conheço a mais tempo, do que esse do livro e sapatos. Isso já não é objetificação do homem? Sim? não? pq?

    • Sim, é objetificação. Mas não configura como um problema porque é um caso aqui e outro acolá. O que faz a objetificação ser problema é a opressão de gênero. As mulheres são as oprimidas, e sua objetificação influencia e estimula inclusive a violência, o que não acontece com os homens. Detalhe: embora os homens ocupem posição de privilégio na estrutura machista da sociedade, não é o homem, ou cada homem, individualmente o opressor, é o machismo que oprime e define privilégios e opressões. Me fiz entender, Denise? Beijos.

  7. Cheguei a esta página por um link que uma amiga compartilhou pelo Facebook. Entendo seu ponto de vista, porém gostaria que tentasse analisar outro. Creio que o meme não tem como objetivo a objetificação do sexo feminino e não quer apresentar o casamento como um “prêmio”. Creio também que a frase “Case com ela” não quer dizer “Force o casamento”, mas sim “Peça para casar com ela”. O meme foi criado apenas como uma piada boba, assim como muitos memes humorísticos na internet. Eu creio que isso seja uma super-análise desnecessária do que era pra ser apenas uma piada sem o intuito de ofender. Com este comentário não quero travar nenhuma guerra, ofender alguém, nem criticar o feminismo. Sou completamente a favor de uma sociedade onde exista igualdade completa, independente de gênero, raça, etc. Adoraria receber respostas com outro ponto de vista e agradeço por entenderem o meu. Desejo a todas as pessoas que lerem meu comentário um bom dia.

    • Caro Ivan, a questão aqui é justamente ir um pouco além do “sem intenção de ofender”. Tanto mal se faz “sem intenção”, não é mesmo? A questão foi muito bem explicada pela Niara, mas digo de novo (também sem querer travar nenhuma guerra, e vamos deixar o “ofender o feminismo” pra lá): primeiro, esse negócio de “dar valor” às mulheres é meio caído, não é não? Vamos deixar as mulheres viver a vida, sem se preocupar em “dar valor”. Sobre isso, vale a pena ler o texto da xará Renata Corrêa, que ela indicou. Segundo, o “case-se com ela”, assim bem direto: não é para ofender, mas… ofende. Incomoda. Parece, sim, que é prêmio por ter mais livros do que sapatos. E a gente aqui pretende ir um pouco além das intenções. Sem querer ofender, via de regra, mas às vezes ofendendo, por inevitável. Aquele papo da omelete e dos ovos quebrados, cê deve conhecer. Um abraço!

    • A questão é justamente o contrário do que disseste, Ivan. Não entendeste o meu ponto de vista, e sequer te deste o trabalho de tentar olhar a questão por ele, ou não seria preciso repetir (e não vou) o que já disse no texto. O “nem criticar o feminismo” é o novo “não sou machista, tenho mãe e irmã”?
      Resumindo o que disseste foi: “entendo o teu ponto de vista, mas o estou descartando, me apresente outro”. Oi? Não é muita arrogância, não?

      • Niara, peço desculpas. Após reler sua postagem e o comentário da repimlins entendi melhor seu ponto de vista. Desculpe-me se expressei mal meus pensamentos, eu não quis ser arrogante.

  8. Acho esse tipo de meme idiota e tal, mas o real motivo do segundo não ter viralizado nem é tanto pelo motivo de ser uma resposta (apesar desse ser mais um motivo), mas mais por conta da sociedade atual não considerar leitura. Quanto mais texto um “meme” tem, menos aceito/compartilhado ele é.

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