Caso, acaso, casal: espaços

Casa, caso, casal. Acasos. Casal, de novo. Casal há um tempo. E aí? Qual é a diferença? Dizia eu ontem que não gosto do começo de histórias amorosas: esse sufocar, essa taquicardia permanente, esse foco no outro que não cessa, essa febre. Essa doença. Vivo e mergulho, como febre, como doença. Mas espero ansiosa a hora de passar. De solidificar. De virar algo que dure. Que seja um namoro. Que seja uma amizade. Algo em geral vira, na minha história. Há, decerto, febres que dão e passam, deixando só uma lembrança, um leve sorriso no canto da boca. Mas são raras. Em geral se transformam. Desenevoam. Digievoluem. E viram o que hão de ser, o que estavam destinadas a ser. O que dura. O que fica. O que faz, de verdade, a matéria-vida.

Casal há um tempo: casa, casamento. E aí, me dizia alguém outro dia, num dos centros de filosofia de boteco que abundam pelas cariocas plagas: casamento é espaço. Relacionamento é espaço. E essa definição enganchou. Ficou na minha cabeça. Desde então ela vem e volta, ajudada pelos tempos passados à beira-mar. Espaço. Isso que a gente busca, isso que a gente almeja, isso pelo que a gente anseia, isso que é tão primordial e tão fugidio. Espaço. O meu, o seu, o nosso. Sempre disse que invejava essas personagens da Agatha Christie que moram em casarões onde há duas alas, a do marido e a da esposa. Eles se encontram à mesa do café, se encontram eventualmente no quarto de um, de outra. Mas têm seu espaço, sua sala de estar, seu banheiro separado (não sei se os da Agatha tinham mesmo banheiro separado, mas os do meu sonho têm, é claro. Banheiro separado é tudo).

Começa daí. Espaço físico. Espaço de ser sozinho. Não é briga, não é nada: só necessidade de se espalhar sem esbarrar em ninguém. Lembro do Karydakis, saudoso e querido mestre, dizendo com aquele olhar de maio de 68, cigarro nos dedos: “casamento com amor é uma instituição burguesa, e quarto junto foi o jeito que a burguesia encontrou pra fechar as contas. Nos tempos medievais ninguém tinha essa veleidade de misturar casamento com amor: casamento tinha a ver com patrimônio e convenções, amor era outra coisa, amantes faziam parte da vida e da história.” Bom, não foi exatamente assim que ele disse, mas acho que a essência está aí. Eu tinha uns dezesseis anos e sorvia a largos goles tudo o que ele dizia. Essa fala aí encontrou ressonância, me cutucou, me desafiou: nunca mais esqueci. Espaço de ser sozinho, instituição burguesa, conveniência do amor romântico associado ao casamento….

Depois, bem depois, li o psicanalista Jurandir Freire Costa falando disso: “Sem Fraude Nem Favor“, que tem como subtítulo “Estudo sobre o Amor Romântico”. E ressoou de novo. Casamento: “O Submarino”, que é feito pra afundar, embora possa se manter na superfície, na peça do Miguel Falabella e da Maria Carmem Barbosa. Muita pressão, né. Muita demanda. O que tem a ver pagar contas, organizar casa, administrar filhos (não “amar” filhos, atenção: estou falando de administrar mesmo – resolver comida, pagar escola, levar, buscar, dizer não, estipular horários e regras), com amar alguém? Tem a ver? Combina? Faz parte? Está associado? Ou estraga, destrói, dificulta, impede? Ou, ainda, é uma corda bamba permanente, equilibrar-se entre manter o tesão e o afeto e fazer a empresa-casamento funcionar? Balanço, cuidado, um pé na frente do outro, atenção, braços abertos, olhar focado que é pra não despencar lá de cima. Eita, que difícil.

Acaso: aquilo em que a gente tropeça sem querer. “Você, raio humano, caiu na minha cabeça”. E aí? O acaso acasa, casualmente, e a gente embarca ou não. O “ou não” sempre é possibilidade. Ponderação. Mais corda bamba. Ao comer um quilo de sal com alguém, há que se prever a ocorrência de acasos. De eventuais raios humanos. Fazer o quê. É sinal de vida vivida. De que não se está trancado no armário, no tupperware, se deixando enrugar e ressecar. Viva. Viva a vida. Risco. Inevitável. Faz parte. E aí?

Aí é isso. Acho que o “embarcar ou não”, que tem a ver com o que se vai fazer (viver) depois, é quase menos importante. Quase menos importante do que reconhecer. Do que acolher. Do que não se deixar tolher pela culpa, pelo “pecado” de se encantar, de se deixar brilhar, de se enredar e de deixar a alma alçar vôos inesperados. No tempo em que casamentos não se desfaziam, talvez isso fosse mais claro: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Casamento. Paixões. Amores, quiçá. O que não quer dizer, vejam bem, que não haja amor no casamento. Mas quem disse que não acontecia? Que o encanto, que o enlevo, que o embarque… dependia de não haver mais ninguém ali? Sentimento, acho, é generoso: quanto mais tem, mais terá. Agora: isso é diferente do que se faz, e não é disso que eu queria falar. E sim do espaço, de novo. Do espaço pra sentir, do espaço pra sonhar, do espaço de cada um, do respeito. Do respeito. Do respeito. Porque o que me encanta na geografia dos amores-amizades é justamente isso: o não ser dono, o estar aberto e solto ao sempre cabe mais um à beira da fogueira, na roda de violão. Dá pra botar mais água no feijão, encher de novo a cuia de chimarrão, dá pra abrir espaço na roda. Amor bonito esse que abre espaço na roda.

Espaço. Amor. Encontros. Acolhimento. Vida vivida.
Riscos de dores? Ninguém está imune.
Nem os maracujás de gaveta que se encolhem à ameaça de novos sentimentos.
Joguemo-nos pois. Nos espaços que nos aguardam. Que nos convidam.
Abramos espaços nas rodas. Novas cirandas.
A vida é ciranda e vem. Inevitavelmente vem. Vamos.

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