De ventos e partidas

De ventos e partidas

De ventos e partidas

Ela não sabia muito bem como havia se dado o partir. De repente, como num susto, ela já havia ido.

Não conseguia explicar em que momento partira-se, esparramando seus pequenos pedaços pelos tantos anos impregnados nas paredes que descascavam tinta branca. Num gesto brusco, arrancava com as unhas o branco que já fora inteiro. Não havia sobrado nada de pé, em que pudesse se firmar para o seguir dos dias. Ela estava ida, com os rastros da sua presença rarefeita a habitar a velha casa. Sua velha casa. Esvaziada, com as molduras preenchidas pelo vazio dos tempos futuros.

Ela partira assim, sem aviso, como um vaso adornado que se quebra em cacos disformes, empurrado da estante pelo sopro dos ventos. A janela, pelo desgaste dos fechos, estava aberta. E o acaso pode varrer as certezas que ela não sabia mais se tinha.

Despida de certezas e em pedaços que não mais se juntavam, ela se foi. Ainda confusa com o sentir-se tão só e tão povoada de si. Ainda com o gelado que lhe tomou o corpo, atônita por não saber mais onde era o chão. O vento-furação veio sem pedir licença. Ou talvez tivesse pedido, baixinho, em língua estranha, suplicando-lhe o movimento. Ela também era filha dos ventos.

Gostava de sentir o vento bater no seu rosto, e de saber-se portadora de asas inventadas capazes de levá-la a céus imensos. Fazia tempo que não ventava. Ela havido se encolhido, no conforto quente das janelas fechadas. Ali, carangueja, na concha emprestada, guardada dos arroubos de suas asas.

E então chegou o tempo, perspicaz, arrancando-lhe as raízes que não mais se fincavam no solo. O vento inundou a janela – a grande janela da sala da qual via o jardim vivo. Ventou, e ela se abriu para receber os ventos. Sua saia voava, e ela espalhava-se pelo ar leve do dia de sol.

Rodopio, vento-arrepio. Ela também estava viva.

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