Eu, Sardanapalo

Foi minha amiga Patrícia que me contou a história: era uma vez (okay, não foi assim que ela começou, mas me apetece) Alexandre. Isso, O Grande (ui). Andava o moço bem disposto conquistando tudo que havia, de lá pra cá, daqui pra lá. O que havia pra ser conquistado, ele o fez. Até que. Por maior que seja o mundo (e o mundo conhecido na época de Alexandre nem era isso tudo) tem uma hora que já não há. Pois foi bem por aí que Alexandre se deparou (dizem, dizem, ou pelo menos minha amiga me disse) com uma estátua de Saradanapalo. Sobre ele, pouco se sabe. Mas havia a inscrição. Essa:

 “Eu, Sardanapalo, filho de Anacindaraxes, construí Anquial em um dia. Comi, bebi, trepei. Todo o resto não vale isto”

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Morte de Sardanapalo, Delacroix

Então Alexandre sentou e chorou. Há uma beleza, acho, no reconhecimento da diferença. E da dor que, eventualmente, nos causa. Acho bonito que Alexandre tenha chorado, faço questão que sim, que seja assim a história que me contaram e que repasso. Porque o desejo é o impossível. O impossível de dizer. O impossível de viver. E, ao mesmo tempo, é o que nos move, alenta, impulsiona. De vez em quando sentar e chorar faz parte.

Mas, dizia eu, era uma vez o moço conquistador, voraz, faminto do novo. E ele encontra a lembrança de um que disse: bom é o mesmo. Daí o moço conquistador sentou e chorou. Moral da história? Ué, não tem moral nenhuma. Nem tem, acho, certo e errado.

Mas acho que um e outro nos convidam a pensar. Eu sempre quis admirar Alexandre, e, em alguns momentos, o fiz: seu desejo por conquistas, sua ânsia de saber, desvelar, dominar. Sua vontade inabalável, sua coragem e certeza, todos atributos admiráveis, mas algo me escapava. Conquistar todo o mundo conhecido é realmente um desafio excitante. Mas. Comi, bebi, trepei. Me comove Sardanapalo e a convicção de que o mais importante da vida é viver. Construir uma cidade é legal, dura um bocado de tempo, com sorte se ganha até uma estátua. Mas quem reconhece que comer, beber e trepar é mais divertido dificilmente chorará ao conquistar tudo que se tem pra conquistar ou se a cidade se perder na memória do mundo.

E o que é que tem com a biscatagem? É que, suspeito, muitas vezes nos dedicamos à construção de impérios amorosos, seja na vibe conquistar todo o mundo conhecido, seja no lance garantir as fortificações do que está conquistado. Em muitos casos temos a ilusão da eternidade, ansiamos pela glória de nunca sermos esquecidos, queremos fazer História. E, nesse momento Alexandre, deixamos escapar a simplicidade do cara da estátua: comer, beber, trepar. Tudo  mais não vale isso.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

3 ideias sobre “Eu, Sardanapalo

  1. Luciana, a surpreendente. Depois diz que não fala outras línguas: mas acho que nem saberia que esse texto é seu, caso não estivesse assinado.
    E talvez não tenha comentários justo por ele ser assim, tão redondinho, fechado: a gente lê e pensa é isso, bora ser mais sardanapalo, que alexandre o quê. comer, beber, trepar: pra que mais?
    Conquistas? Territórios? Impérios? Ah, mas dá um trabaaaalho…. pro alexandre como pros conquistadores de outros territórios. que, às vezes, precisam relaxar. Comer, beber, trepar e só. Entre um e outro, uma pausa na rede… 😉

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *