Eu? Trans?

contra a transfobiaOutro dia, um conhecido do trabalho me perguntou se eu era travesti. De acordo com ele, eu tinha “tipo de travesti”. Quando respondi que não, ele até se pareceu meio desconfortável, como se tivesse me ofendido. Não fiquei em momento algum ofendida. Diferente de algumas mulheres cis, não me sinto mal em ser confundida com uma trans ou uma travesti. A única coisa que REALMENTE me incomoda é saber que ainda existem clichês que diferenciam mulheres cis de mulheres trans. Como se essa diferença fosse necessária para “defender” os homens do “engano”. Eu, como mulher cisgênero, não vejo diferença alguma entre homens ou mulheres trans e cis. Apenas enxergo diferença entre pessoas que, sem querer ou de propósito, separam e diferenciam pessoas por motivos de seu gênero social não ser seu sexo biológico.

Tinha uma amiga do coral, na ala das contraltos, que tinha a voz tão grave que chegava a ter gogó. Eu sempre achei minha voz muito grave, mas não havia conhecido uma mulher com pomo de adão, quando falo que conheci uma mulher, heterossexual e cisgênero, que tinha voz grave e pomo de adão me perguntam se “eu tinha certeza que era mulher de verdade”. Peraí, ser mulher de verdade é nascer no sexo biológico feminino?????

Lidar com essa questão sempre me intrigou, quem diz para nós que estamos erradxs ao afirmar o que somos? A sociedade, deus, a religião? O que faz de nós homens e mulheres? Hormônios, sexo biológico, cirurgias? Não consigo me sentir bem ao ver rótulos sobre ser homem e ser mulher. Não existem rótulos que afirmem que alguém é ou não do gênero que afirma ser!

Ano passado e retrasado, dei aula a uma criança que afirmava ser mulher, mas seu sexo biológico era masculino. Uma criança de 6 anos de idade que dizia para mim que queria ser mamãe quando crescesse, que ia deixar seu cabelo comprido igual a personagem da novela. Essa criança era tolhida por outras pessoas que educavam-a, com medo de virar homossexual. Como se reprimir fizesse qualquer pessoa deixar de ser o que é, infelizmente essas pessoas só conseguem machucar pessoas que não se encaixam ao formato que a sociedade exige.

Esse domingo a noite, assisti ao programa Tabu Brasil no NatGeo, falando sobre transexuais. João W. Nery era uma das pessoas que foi entrevistado, duas trans mulheres e ele de trans homem. Ele é uma pessoa que tenho uma admiração tremenda, por ter lutado por seus direitos em um país que, até hoje, não consegue se adaptar a transexuais homens. No meio das entrevistas, conversaram com uma mulher que trabalha há anos na casa dele, que só descobriu que ele era um trans homem vendo-o na TV. Ela falou “ele não parece que não era homem” ou algo parecido, ela não foi preconceituosa com o João em momento algum da entrevista, só me incomodou essa frase. O que me incomodou foi a procura pelo estereótipo. Sofremos com os costumes da nossa sociedade, eu mesma já fui preconceituosa sem querer, com falas ou atitudes que rotulavam fortemente uma pessoa.

Hoje em dia acredito que ser homem ou mulher não tem nada a ver com sexo biológico ou com cirurgia de troca de genitália, retirada de peito, uso de hormônio, quanto mais “ser feminina” ou “ser masculino”. Somos o que sentimos que somos, sem rótulos. Acho que até mesmo que, por isso, não me foi ofensivo a confusão, é pra mim uma pergunta tão comum quanto, “qual é a cor da tinta que você usa em seu cabelo?”

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